marx e o especismo estranhado - parte IV

Atualizado: 29 de jun. de 2021


Collage por Stasys Eidrigevicius

Último Crime: A intenção dessa coluna - que se pretende semanal - é trazer material crítico, preferencialmente inédito em nossa língua, para contribuir com as discussões que permeiam seres humanos e não humanos e sua luta pelo fim da exploração do trabalho, sua busca por autonomia e a superação do modo de produção em que [sobre]vivemos. Os textos que pretendemos publicar neste espaço examinam as diferentes relações estabelecidas, na história e no momento atual, entre os seres (animais) humanos e os seres (animais) não-humanos, dentro da perspectiva dialética, materialista histórica e anticapitalista.

 
“Engels escreveu a Marx que ‘a fisiologia comparativa proporciona um desprezo que esvazia a exaltação idealista do homem sobre os outros animais.Em cada passo, esbarramos na mais completa uniformidade de estrutura com o resto dos mamíferos. E, em suas principais características, esta uniformidade se estende a todos os vertebrados e até mesmo - sem muita clareza - a insetos, crustáceos, minhocas, etc.’”

 

[...]


Marx, Darwin e a Evolução

Benton compara os primeiros escritos marxianos com o início do pensamento de Darwin, alegando que este indicou em 1839, em seus cadernos de anotações, que os humanos tinham expressões faciais semelhantes às do orangotango no zoológico, o que sugeria a relação de humanos e animais [53]. Marx, nove anos mais novo que Darwin (e que pode não ter visto um orangotango), argumentou apenas alguns anos depois, em 1843, que a mercantilização dos animais era um exemplo da degradação da natureza pela sociedade humana - um ponto que o próprio Darwin dificilmente compreendeu nesta ou em qualquer outra etapa de seus escritos [54]. Um ano depois, nos Manuscritos Econômicos-Filosóficos, Marx notou explicitamente a estreita relação entre seres humanos e animais como seres naturais objetivos [55].

Tal ênfase em fortes conexões entre animais humanos e não humanos dificilmente foi a visão dominante da época. Pelo contrário, Charles Lyell, em seus Princípios de Geologia (1830-33), com os quais Marx, assim como Darwin, tinham familiaridade, dedicou quatro capítulos à extinção de espécies, muitos dos quais justificando a matança de espécies animais pelo homem. "Se empunharmos a espada do extermínio" contra os animais, "conforme avançamos", escreveu Lyell: “não teremos motivos para nos repelir pelo caos cometido, nem para nos gabarmos, com o poeta escocês [Robert Burns], de que ‘violamos a união social da natureza’; ou para nos queixarmos, com o melancólico Jacques [Shakespeare, As You Like It], de que nós are mere usurpers, tyrants, and, what’s worse, To fright the animals, and to kill them up In their assign’d and native dwelling-place [somos meros usurpadores, tiranos, e, o que é pior, Para assustar os animais e matá-los Em seu local de afectação e de moradia - em tradução (muito) livre]. Temos apenas que refletir, que ao obter assim a posse da terra pela conquista, e ao defender nossas aquisições pela força, não exercemos nenhuma prerrogativa exclusiva. Cada espécie que se espalhou de um pequeno ponto por uma ampla área, deve, da mesma forma, ter marcado seu progresso pela diminuição, ou toda a extirpação, de alguma outra [56].”

Marx e, especialmente, Engels estavam atentos em seu tempo à destruição ecológica e extinção de espécies locais em decorrência da ação humana e a expansão mundial do capitalismo. Ao contrário de Lyell, não existe justificativa moral para ações e consequências deste tipo que possam ser encontradas na análise dos dois pensadores. Em vez disso, há uma crítica da maneira pela qual o sistema de capital gerou um especismo estranhado. Engels, para exemplificar, fez referência aos efeitos provocados pelas espécies invasoras de caprinos introduzidas por colonos europeus na ilha de Santa Helena. É possível notar, então, uma preocupação com a consequente destruição ecológica em sua origem [57].

Ideias evolucionistas - em um sentido geral - há muito precederam a publicação da Origem das Espécies de Darwin em 1859 e sua teoria da seleção natural [58]. Portanto, não deve nos surpreender que, como um materialista consistente, Marx tenha incorporado ideias evolucionárias em sua perspectiva desde o início, insistindo contra a visão religiosa já em 1844, bem como sobre a geração espontânea de espécies em algum momento do distante passado geológico. O filósofo alemão via espécies animais não humanas e humanas como compartilhando um parentesco evolutivo e morfológico [59]. Se Marx disse metaforicamente, em 1857, que "a anatomia humana contém uma chave para a anatomia do símio", a metáfora estava enraizada no parentesco morfológico genuíno entre humanos e alguns primatas [60].

Marx estava ciente da classificação de Linnaeus do homo sapiens como um dos primatas mais próximos do macaco [61]. Além disso, havia estudado, no ginásio de Trier, sobre o famoso geólogo alemão, Johann Steininger. Mais tarde, na Universidade de Berlim, participou de palestras de antropologia ministradas por Heinrich Steffens, um filósofo naturalista, bem como um importante geólogo e mineralogista. Marx estava também familiarizado com o discurso de George Curvier sobre as revoluções na superfície global [62]. Esse seu interesse por geologia continuaria pelo resto da vida.

Em 1878, Marx estava copiando, em seus cadernos, trechos do proeminente geólogo inglês Joseph Beete Jukes, o Student’s Manual of Geology [Manual de Geologia do Estudante, em tradução livre], prestando atenção cuidadosa à extinção geológica de espécies resultantes da mudança de isotermas [zonas climáticas] devido à mudanças paleoclimáticas [63].

Em julho de 1858, apenas duas semanas após a famosa apresentação de trabalhos de Darwin e Alfred Russell Wallace, estabelecendo-os como co-descobridores da seleção natural enquanto base da evolução, Engels escreveu a Marx que "a fisiologia comparativa proporciona um desprezo que esvazia a exaltação idealista do homem sobre os outros animais.Em cada passo, esbarramos na mais completa uniformidade de estrutura com o resto dos mamíferos. E, em suas principais características, esta uniformidade se estende a todos os vertebrados e até mesmo - sem muita clareza - a insetos, crustáceos, minhocas, etc." [64].

Tanto Marx como Engels foram influenciados pelo livro A Origem das Espécies, de Darwin, referindo-se a obra como "o livro que, no campo da história natural, fornece a base para nosso ponto de vista" [65]. Não é de se admirar, como indica Fracchia, uma vez que "a postura de Marx [em A Ideologia Alemã] a respeito da organização corpórea humana como o primeiro fato da história dos homens, equivale a uma revolução copernicana - precisamente porque (...) é o complemento humano da abordagem de Darwin aos organismos animais em geral" [66].

Em resposta ao novo conhecimento que estava se desenvolvendo nas ciências naturais, Marx e Engels foram ainda mais longe em sua crítica à noção cartesiana de máquinas-animais. Engels forneceu em The Part Played by Labour in the Transition from Ape to Man o que Stephen Jay Gould chamou de "o melhor exemplo do século XIX para demonstrar a coevolução cultura-genética" (a forma que todas as teorias da evolução humana, responsáveis pelo desenvolvimento do cérebro e da linguagem humana, devem assumir) [67]. Nesse mesmo trabalho, Engels trata da complexa evolução dos animais em relação a seus ambientes, não simplesmente adaptando-os, mas colocando-os como sujeitos-objetos dialéticos da evolução [68]. "É evidente", escreveu Engels, "que não nos ocorreria discutir a capacidade dos animais de agir de forma planejada e premeditada" [69]. Em notas à Dialética da Natureza que, obviamente, pretendia desenvolver mais, escreveu:

“Temos em comum com os animais toda atividade do entendimento: indução, dedução e, portanto, também abstração (conceitos genéricos de Dido) [cão de Engels]: quadrúpede e bípede, capacidade de análise de objetos desconhecidos (mesmo o rachar de uma noz é o início da análise), síntese (truques) e, como união de ambos, capacidade de experimentar (no caso de novos obstáculos e situações desconhecidas). Em sua natureza, todos esses modos de procedimento - ou seja, todos os meios de investigação científica que a lógica comum reconhece - são absolutamente os mesmos nos homens e nos animais superiores. Eles diferem apenas em grau (de desenvolvimento do método em cada caso) (...) Por outro lado, o pensamento dialético - precisamente porque pressupõe a investigação da natureza dos próprios conceitos - só é possível para o homem, mas que já esteja em um estágio comparativamente alto de desenvolvimento [70]”.

Da mesma forma, Marx sugeriu em suas Notes on Adolph Wagner que os animais são capazes de distinguir teoricamente tudo o que atende às suas necessidades. Imediatamente a seguir, Marx observa, de forma assustadora, que "dificilmente pareceria a uma ovelha como uma de suas propriedades 'úteis' que ela seja comestível ao homem", traçando amplos paralelos entre a expropriação (e o sofrimento) de animais e a exploração de trabalhadores. Marx acreditava que seus três pequenos cães demonstravam uma inteligência semelhante à dos seres humanos [71]. Marx e Engels adotaram assim uma visão idêntica à de Darwin da Descent of Man - qual seja: "a diferença em mente entre o homem e os animais superiores, grande como é, é certamente de grau e não de tipo". De fato, como Darwin, pode-se dizer que Marx e Engels subscreveram, em geral, a visão de que a "imensa superioridade" dos seres humanos quando comparada até mesmo aos animais superiores pode ser atribuída às "faculdades intelectuais" humanas, "hábitos sociais" e "estrutura corpórea " [72].


[continua]

 

Notas: [53] Benton, “Humanism = Speciesism,“ 16. [54] Marx, Early Writings, 239. [55] Marx, Early Writings, 327. [56] Charles Lyell, Principles of Geology (London: Penguin, 1997), 276–77. [57] Marx e Engels, Collected Works, vol. 25, 459. [58] Foster, Marx’s Ecology, 120, 180-82, and Foster, Clark, and York, Critique of Intelligent Design. [59] Marx, Early Writings, 356. [60] Karl Marx, Grundrisse (London: Penguin, 1973), 105. [61] Gunnar Broberg, “Homo sapiens: Linnaeus’s Classification of Man,” in Linnaeus: The Man and His Work, eds. Sten Lindroth, Gunnar Eriksson, and Gunnar Broberg (Berkeley: University of California Press, 1983), 156–79. [62] Marx and Engels, Collected Works, vol. 42, 322. [63] Karl Marx and Frederick Engels, Marx-Engels-Gesamtausgabe IV, 26 (Berlin: Akademie Verlag, 2011), 214–19; Joseph Beete Jukes, The Student’s Manual of Geology (Edinburgh: Adam and Charles Black, 1872). [64] Karl Marx and Frederick Engels, Selected Correspondence (Moscow: Progress Publishers, 1975), 102; Foster, Marx’s Ecology, 166. [65] Marx e Engels, Collected Works, 41, 232. [66] Fracchia, “Organisms and Objectifications,” 3. [67] Marx and Engels, Collected Works, vol. 25, 452–59; Stephen Jay Gould, An Urchin in the Storm (New York: W. W. Norton, 1987), 111. [68] Para discussões contemporâneas da complexa dinâmica evolutiva entre gene, organismo e ambiente, consulte Richard Lewontin, The Triple Helix (Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 2000); Richard Levins e Richard Lewontin, The Dialectical Biologist (Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 1985); e Richard Lewontin e Richard Levins, Biology Under the Influence (Nova York: Monthly Review Press, 2007). [69] Marx and Engels, Collected Works, vol. 25, 460. [70] Marx and Engels, Collected Works, vol. 25, 503. [71] Karl Marx, Texts on Method (Oxford: Blackwell, 1975), 190–91; Marian Comyn, “My Recollections of Karl Marx,” The Nineteenth Century and After, vol. 91, available at http://marxists.org. [72] Charles Darwin, The Descent of Man (1871; repr. Princeton: Princeton University Press, 1981), 105, 136-37. A referência de Darwin a "hábitos sociais" aqui se refere de maneira específica à herança de características adquiridas - uma ideia geralmente associada a Lamarck, mas que Darwin tinha, nessa época, introduzido como um princípio suplementar à seleção natural - como na forma de comportamentos sociais habituais. Darwin sugeriu, como um possível exemplo disso, que filhos de trabalhadores herdam mãos maiores do que os filhos da pequena nobreza devido à transmissão de características adquiridas resultantes de “hábitos sociais” de uso e desuso. Veja Darwin, The Descent of Man, 117-18, 157, 160-61; Helen P. Liepman, "The Six Editions of the‘ Origin of Species ’", Acta Biotheoretica 30 (1981): 199-214. Engels foi influenciado pelas opiniões de Darwin a este respeito e, de forma semelhante, referiu-se à herança de características adquiridas em relação às mãos. Ver Marx e Engels, Collected Works, vol. 25, 453–54. No entanto, também se pode ler a referência de Darwin ao social aqui - embora este não seja claramente seu significado principal - como representando a noção mais geral de seres humanos como animais sociais, enfatizada por Marx e Engels, resultando em desenvolvimento social cumulativo e o aprimoramento de inteligência prática, repassada pela educação, e refletida na capacidade cultural de manipular o mundo por meio de instrumentos exossomáticos. Desde o início, os Homo sapiens, como Engels sobretudo entendeu no século XIX, foram produtos de um complexo processo do que hoje se chama de coevolução gênica-cultura, que explica a origem da organização corporal humana, em particular o desenvolvimento do cérebro humano. Ver Gould, An Urchin in the Storm, 111. Deve-se acrescentar que toda a questão da herança de características adquiridas está atraindo um interesse renovado pela biologia devido ao desenvolvimento da epigenética. Ver Peter Ward, Lamarck’s Revenge (Nova York: Bloomsbury Publishing, 2018); Eva Jablonka e Mario J. Lamb, Epigenetic Inheritance and Evolution (Oxford: Oxford University Press, 1995).

 

John Bellamy Foster (1953-) é professor de sociologia da Universidade de Oregon e editor da Monthly Review. Sua pesquisa, de início, centrou-se no estudo de economias políticas marxistas e teorias do desenvolvimento capitalista, com foco em Paul Sweezy e a theory of monopoly de Paul Baran.

Brett Clark é professor de Sociologia e estudos ambientais na Universidade de Utah. Sua pesquisa se concentra na economia política da mudança climática global e na filosofia, história e sociologia da ciência. Além disso, leciona cursos no Departamento de Sociologia, no Programa de Pós-Graduação em Humanidades Ambientais e no Programa de Estudos Ambientais.

 

Tradução de Alex Peguinelli. Para comentários/críticas/sugestões: antiespecismocritico@gmail.com

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