marx e o especismo estranhado [parte V, a]

Atualizado: 30 de jun. de 2021


Colagem por @atofalh0

Último Crime: A intenção dessa coluna - que se pretende semanal - é trazer material crítico, preferencialmente inédito em nossa língua, para contribuir com as discussões que permeiam seres humanos e não humanos e sua luta pelo fim da exploração do trabalho, sua busca por autonomia e a superação do modo de produção em que [sobre]vivemos. Os textos que pretendemos publicar neste espaço examinam as diferentes relações estabelecidas, na história e no momento atual, entre os seres (animais) humanos e os seres (animais) não-humanos, dentro da perspectiva dialética, materialista histórica e anticapitalista.

 
“Em alguns casos na Inglaterra, os custos associados à criação e cuidado de cavalos para puxar barcaças ao longo dos rios e canais excederam os da contratação de mulheres para realizar a mesma tarefa, devido a seus salários extraordinariamente baixos (e ao fato de que os custos de reprodução social no lar não se somavam a seus salários), resultando no fato de que as mulheres frequentemente substituíram os cavalos como puxadores de barcaças.”

 

[parte V, a]

Especismo estranhado e a falha metabólica

Dada abordagem histórico-materialista que incorporou conscientemente o pensamento evolutivo-científico, Marx foi capaz de avaliar como o desenvolvimento do modo de produção capitalista transformou as relações animais, criou um especismo estranhado e fomentou o sofrimento generalizado destes seres não humanos. Nesta linha, John Berger, em seu ensaio Why Look at Animals? [em tradução livre, Por que olhar para os animais?], adverte que ver animais não humanos como simplesmente fonte de carne, couro ou leite é algo a-histórico e envolve impor uma concepção do século XIX "para trás, através de milênios" [73]. Berger indica que existe tanto continuidade corpórea, quanto distinção entre humanos e outros animais, posto que são “semelhantes e diferentes"; salientando que as relações entre a espécie humana e outras espécies foram se transformando historicamente devido às mudanças nas condições sócio econômicas e culturais.

Berger ressalta que: “No século XIX, na Europa ocidental e na América do Norte, teve início um processo - hoje em vias de se completar por meio das corporações do século XX - pelo qual toda tradição que antes era mediada entre o homem e natureza foi quebrada. Antes desta ruptura, animais constituíam o primeiro círculo ao redor dos seres humanos, o que, por si só, talvez já sugira uma distância considerável. Os animais estavam com o ser humano no centro de sua sociedade. Centralidade que era, sem dúvida, econômica e produtiva. Quaisquer que fossem as mudanças nos meios produtivos e na organização social, o homem dependia dos animais para se alimentar, trabalhar, transportar e vestir-se” [74].

A análise de Marx sobre o desenvolvimento histórico do capitalismo destacou esta transição/ruptura nas relações com os animais. Para ele, a descrição cartesiana de animais enquanto máquinas representava o status que recebiam na produção de mercadorias [commodity production] do sistema econômico capitalista. Marx tomou nota das mudanças que ocorriam em seu tempo: a subjugação de animais não humanos a uma fonte de alimentação; a alteração de sua organização corpórea e de sua própria existência - imposta para promover a acumulação de capital.

Em O Capital, Marx apresentou a relação dinâmica entre humanos e animais domesticados, iluminando sua estreita proximidade e interdependência. "No primeiro período da história humana", indicou, "animais domesticados, ou seja, animais que sofreram modificações por meio do trabalho, que foram criados para atender fins [humanos] específicos , desempenham o papel principal como instrumentos ao lado de pedras, madeira, ossos e conchas, que também tiveram trabalho investido neles" [75].

Marx elabora como o desenvolvimento histórico do capitalismo, incluindo a divisão da cidade e do campo, moldou essas condições; reduzindo animais a instrumento de trabalho e matéria-prima, o que se reflete na lógica geral do sistema econômico. "Animais e plantas que estamos acostumados a considerar como produtos da natureza", explicou Marx: “podem ser, em sua forma atual, não apenas produtos, digamos, do trabalho do ano passado, mas o resultado de uma transformação gradual continuada através de muitas gerações sob o controle e por meio da agência, do trabalho humano. No que diz respeito ao instrumento em particular, mostram traços do trabalho de épocas passadas, mesmo ao observador mais superficial, na grande maioria dos casos (…) um determinado produto pode ser usado como instrumento de trabalho e matéria-prima no mesmo processo. Por exemplo, a engorda do gado, onde o animal é a matéria-prima, e ao mesmo tempo um instrumento para a produção de esterco [usado para fertilizar campos agrícolas]” [76]. [N.d.T.: Atualmente poderíamos citar, para mais um exemplo, a utilização de animais em experimentos científicos, que faz mover a gigantesca roda da indústria farmacêutica. Além de toda sorte de empresas fornecedoras, via de regra, terceirizadas, que consomem uma classe de trabalhadores precarizados. Nesses casos, a relação humano/animal dá ainda outro salto direto ao miserável estômago do capital. Isso porque os animais são a matéria-prima, transformada em produto (portanto adquirindo valor de troca), para só depois se tornar instrumento de trabalho (dentro de laboratórios). Instrumento de trabalho que pode, mesmo após o exaurimento de sua vida, tornar seu corpo cadavérico lucrativo ao mercado: e a cadeia de exploração humana e não humana segue rasgando suas margens]

Dentro deste sistema de produção generalizada de mercadorias, animais não humanos muitas vezes têm relações variáveis com o capital. Marx descreveu, no segundo volume d´O Capital, como capitalistas avaliaram a vida do gado em relação à produção: "O gado como animal de tração é capital fixo; ao ser engordado para abate, é matéria-prima que eventualmente passa a circular como produto, e portanto não é capital fixo, mas circulante" [77]. A corporeidade dos animais não humanos levantou, para o capital, a questão dos custos (incluindo aqueles associados ao tempo de rotatividade) determinados pelos aspectos ecorregulatórios da reprodução natural. “No caso de meios vivos de trabalho, como os cavalos", explicou Marx, "o tempo de reprodução é prescrito pela própria natureza. Sua vida média como meio de trabalho é determinada por leis naturais. Uma vez transcorrido este período, os itens desgastados devem ser substituídos por novos. Um cavalo não pode ser substituído pouco a pouco, mas somente por outro cavalo" [78]. Enquanto distintos na forma, os cavalos, para o capital, eram simplesmente máquinas cartesianas intercambiáveis. A metade do século XIX - quando Marx estava escrevendo - foi uma época de grande transformação nas relações entre humanos e animais não humanos. Embora a tração animal já estivesse em uso há muito tempo, como nos campos de arado e transporte de mercadorias, a mecanização associada ao desenvolvimento capitalista estava alterando radicalmente as relações. Capitalistas precisavam calcular cuidadosamente se a capacidade humana, animal não-humana ou da máquina poderia aumentar os lucros. Em alguns casos na Inglaterra, os custos associados à criação e cuidado de cavalos para puxar barcaças ao longo dos rios e canais excederam os da contratação de mulheres para realizar a mesma tarefa, devido a seus salários extraordinariamente baixos (e ao fato de que os custos de reprodução social no lar não se somavam a seus salários), resultando no fato de que as mulheres frequentemente substituíram os cavalos como puxadores de barcaças [79].

O capital invariavelmente procura empregar ciência e tecnologia para acelerar a produção a fim de encurtar o tempo associado aos processos naturais e ecorregulatórios, como o crescimento dos animais, com o objetivo de reduzir o tempo de rotação e acelerar a realização de lucros [80]. Como Marx, no contexto da criação de ovinos, anunciou: “É impossível, é claro, entregar um animal de cinco anos de idade antes do final de cinco anos. Mas o que é possível dentro de certos limites é preparar os animais para seu destino mais rapidamente por meio de novos modos de tratamento. Isto foi precisamente o que Robert Bakewell [1725-1795] conseguiu fazer [N.d.T.: agricultor que gerou grandes alterações na criação de ovelhas e gado na Inglaterra por seleção metódica, endogamia e abate. Sua fazenda se tornou famosa como um modelo de gestão científica e muitos de seus métodos são praticados ainda hoje. Bakewell também foi um dos primeiros fazendeiros a criar ovelhas e gado para carne, ao invés de utilizar sua lã, no primeiro caso ou seu trabalho, no último]. Anteriormente, as ovelhas britânicas, assim como as francesas até 1855, não estavam prontas para o abate antes do quarto ou quinto ano. No sistema da Bakewell, as ovelhas de um ano já podem ser engordadas e, de qualquer forma, estão totalmente desenvolvidas antes do segundo ano. Por meio da criação seletiva, Bakewell (...) reduziu a estrutura óssea de suas ovelhas ao mínimo necessário para sua existência. Estas ovelhas são chamadas de Novos Leicesters” [81].

Marx cita o agricultor francês Léonce de Lavergne, autor de The Rural Economy of England, Scotland, and Ireland, que defendeu a expansão da produção de carne e laticínios: "O criador pode agora enviar três para o mercado no mesmo espaço de tempo que antes levava para preparar um [animal]; e se não forem mais altos, são mais largos, mais redondos e têm um desenvolvimento maior naquelas partes que dão mais carne. De osso, não têm quantidade absolutamente maior do que a necessária para sustentá-los, e quase todo o seu peso é carne pura" [82].

Em suas notas críticas sobre Lavergne, Marx se opôs a estes novos métodos de produção animal para carne e laticínios, pois a busca de lucros sem fim levou a uma ampla escala de sofrimento animal e abuso corpóreo destes - inerente em um modo de especismo estranhado no qual animais não eram vistos como seres vivos, mas como máquinas a serem manipuladas como tal. Ovelhas que foram criadas para diminuir a estrutura óssea - nas palavras de Marx, "abortando ossos a fim de transformá-los em mera carne e uma grande quantidade de gordura" - tiveram dificuldade em suportar seu próprio peso e posição devido a seus corpos muito maiores, mais pesados e estruturas esqueléticas mais fracas. Para aumentar a produção de leite para o mercado, os bezerros foram desmamados mais cedo, estavam cada vez mais confinados e eram alimentados com bolos de óleo e outras misturas de alta energia destinadas a acelerar a taxa de crescimento [83].

Sob práticas agrícolas anteriores, Marx observou que "animais permaneceram ativos ao ar livre". Confinados à baias com a alimentação de acompanhamento, demonstra que "nessas prisões animais nascem e permanecem até serem mortos". Isto resultou "em grave deterioração da força vital" e deformações de crescimento em seus corpos, que eram considerados como meras partes, água para o moinho do capital. Para Marx, tudo isso era "nojento!": um "sistema de celas de prisão para os animais” [84].

 

Notas: [73] John Berger, About Looking (London: Vintage International, 1991), 4. [74] Berger, About Looking, 3–4. [75] Marx, Capital, vol. 1, 285–86. [76] Marx, Capital, vol. 1, 287–88. [77] Marx, Capital, vol. 2 (London: Penguin, 1978), 241. [78] Marx, Capital, vol. 2, 250; Paul Burkett, Marx and Nature (Chicago: Haymarket Books, 2014), 43–47; Daniel Auerbach and Brett Clark, “Metabolic Rifts, Temporal Imperatives, and Geographical Shifts: Logging in the Adirondack Forest in the 1800s,” International Critical Thought 8, no. 3 (2018): 468–86. [79] Marx, Capital, vol. 1, 517. [80] Burkett, Marx and Nature, 41–47. [81] Marx, Capital, vol. 2, 314–315. [82] Marx, Capital, vol. 2, 315; Léonce de Lavergne, The Rural Economy of England, Scotland, and Ireland (London: Blackwell, 1855), 13–25, 34–51, 184–87, 196. [83] Karl Marx, Marx-Engels Archives, International Institute of Social History, Sign. B., 106, 336, quoted in Kohei Saito, “Why Ecosocialism Needs Marx,” Monthly Review 68, no. 6 (November 2016): 62; John Bellamy Foster, “Marx as a Food Theorist,” Monthly Review 68, no. 7 (December 2016): 14–16. [84] Marx, Marx-Engels Archives, International Institute of Social History, Sign. B., 106, 336, quoted in Saito, “Why Ecosocialism Needs Marx,” 511 (translation altered slightly); Foster, “Marx as a Food Theorist,” 15–16.

 

John Bellamy Foster (1953-) é professor de sociologia da Universidade de Oregon e editor da Monthly Review. Sua pesquisa, de início, centrou-se no estudo de economias políticas marxistas e teorias do desenvolvimento capitalista, com foco em Paul Sweezy e a theory of monopoly de Paul Baran.

Brett Clark é professor de Sociologia e estudos ambientais na Universidade de Utah. Sua pesquisa se concentra na economia política da mudança climática global e na filosofia, história e sociologia da ciência. Além disso, leciona cursos no Departamento de Sociologia, no Programa de Pós-Graduação em Humanidades Ambientais e no Programa de Estudos Ambientais.

 

Tradução de Alex Peguinelli. Para comentários/críticas/sugestões: antiespecismocritico@gmail.com

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