morfologia psicológica

Atualizado: 29 de jun. de 2021


Herbert Bayer - Lonely Metropolitan, 1932


A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.

 

O pintor chileno Roberto Matta (1911 - 2002) é fulgurante e o contato com seus rastros é suficiente para fazer sentir seu vigor. Arquiteto de formação, Matta chega a Paris na segunda metade dos anos 1930, onde é apresentado por Salvador Dalí a André Breton. Sua participação no movimento surrealista é intensa, sendo um dos responsáveis pela ponte entre surrealismo e ciências duras de ponta (e.g. mecânica quântica, teoria da relatividade, etc), cujos topoi seriam popularizados pela ficção científica. Em Le surréalisme et la peinture (1965), André Breton afirma que Matta busca “estender o campo do visível” explorando um “novo espaço”. Marcel Duchamp, por sua vez, referiu-se a Matta em 1946, no catálogo da Société Anonyme [1], como “o pintor mais profundo de sua geração”.

Este texto de Matta sobre a morfologia psicológica cuja tradução ora publicamos — até onde temos notícia a primeira para o português — é citado pelo surrealista britânico Gordon Onslow Ford num artigo intitulado “Notas sobre Matta e a pintura (1937-1941)”, o qual figura no Catálogo da exposição Matta, realizada no Centre Pompidou em 1985 [2]. O parágrafo inicial em itálico é de autoria de Gordon Onslow Ford e o texto seguinte de Roberto Matta.

Notas: [1]: Texto posteriormente publicado com os demais escritos de Duchamp. [2]: Agradecimentos a Pierre Petiot pela referência.

 

Morfologia psicológica

No outono de 1938 Matta lançou a expressão “morfologia psicológica”. No café Aux Deux Magots, discorreu sobre ela com gestos largos e com a ajuda dos objetos que estavam ao seu alcance, diante de um Breton impassível que disse não ter entendido nada. Breton pediu a Matta que colocasse suas teorias por escrito, o que foi difícil para o pintor, não porque faltassem-lhe ideias, mas porque isso freava o seu impulso. Mas ele foi capaz de produzir o seguinte texto:

Toda forma é o gráfico resultante da adaptação das energias internas em movimento frente aos obstáculos criados pelo meio.

A morfologia dos turbilhões, dos crescimentos osmóticos e dos precipitados periódicos indica o gráfico dos encontros de corpos não-miscíveis: isso é o que se dá com as manchas de óleo dos automóveis nas ruas úmidas e com a justaposição de duas cores de tinta lacada. O tempo seria para nós um meio comparável a uma água gelatinosa aceitando ritmicamente as transformações que se operam com velocidades maiores ou menores. O olho está ajustado somente para uma certa velocidade.

Psicologicamente, uma morfologia das imagens óticas concerne somente às seções de cortes teóricos feitos num instante da idade morfológica do objeto. Chamo de morfologia psicológica o gráfico das transformações na absorção e emissão de energias no objeto desde seu aspecto inicial até sua forma final no meio geodésico psicológico. Este meio, espaço-tempo psicológico, é uma congruência simbólica do espaço euclidiano. O objeto situado num momento pontual deste meio intercepta as pulsações que propõem transformações numa infinidade de direções. Ele está situado no impacto deste encontro e de cada transformação. A infinidade de possibilidades de interpenetração que o objeto deixa escapar aumentará a intensidade das pulsações seguintes durante todo o tempo no qual ele seguir esta direção morfológica.

A concepção de um meio psicológico-temporal no qual os objetos transformam-se leva-nos a compará-lo com um espaço euclidiano em transformação rotativa e pulsante no qual o objeto, a cada momento de risco de interpenetração, pode oscilar do pontovolume ao instanteternidade, da repulsatração ao passadofuturo, da luzessombra à matéria em movimento. A quarta dimensão seria o gráfico dos riscos corridos ao longo de toda a duração das transformações.

No domínio da consciência, uma morfologia psicológica seria o gráfico das ideias, devendo ser concebida antes das imagens-ópticas darem-nos uma forma das ideias, se quisermos permanecer no meio em transformação. A imagem-óptica é somente um corte teórico na queda morfológica do objeto. A imagem é retida para acalmar a inquietude, de modo que conservamos somente uma das formas possíveis do objeto. A realidade é a sequência das convulsões explosivas que se modelam num meio pulsátil e rotativo submetido à ritmos. O olho agente da memória é um meio de simplificação.

A consciência do desenvolvimento de uma morfologia psicológica no sentido passional e espiritual leva a um pneumóptica do objeto, uma congruência da perspectiva, sendo que esta gera a criação das ciências específicas. Assim o gráfico da ideia da bola de neve projetada numa chama será um desdobramento sem deformação, enquanto a libido emocional despertada por um rio ou por uma árvore se expressará por um crescimento osmótico no meio geodésico psicológico, verdadeira gelatina de leite manchado de sangue em precipitado periódico.

Uma morfologia desta ordem chegará a ser percebida quando o olho e a consciência realizarem os gráficos imediatos e impulsivos que a emoção convulsiva do homem traçará numa arte nova. A percepção do crescimento e dos acidentes dos objetos realizados simultaneamente permitirá sentir a biologia psicológica do objeto. A co-psicologia dos contrários numa mesma ideia-objeto contínua e pulsátil sem deformação numa morfologia psicológica, enquanto os ensaios simbolistas denominados paranóia-crítica são baseados numa transformação das imagens ópticas em sentido caricatural, o mesmo valendo para as formas da arte dita abstrata.

Tradução de Natan Schäfer.

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