mostro, logo sou?



Annie Le Brun, fonte e autor desconhecidos
 


A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.


 

Recentemente, tive a oportunidade de afirmar que Annie Le Brun (Rennes, 1942) “de dia arrosta como um gume e à noite leva constelações nos cabelos disparando setas de beleza incendiária”[1]. De fato, as imagens poéticas — e a redundância aqui é consciente e pedagógica — têm raízes e criam frestas em efeito dominó: insisto que basta olhar nos seus olhos para ver o leque de lâminas abrindo-se e semeando estrelas com a coragem de uma Cassandra que leva serpentes nos pulsos. É este mesmo olhar que encontramos em todas as manifestações de Annie Le Brun, desde sua entrada para o movimento surrealista em 1963, sejam elas sob a forma de poemas, ensaios, entrevistas, etc, nas quais podemos sentir, iluminados pela cintilância de sua fala, que ela é.


N’A Fresta de hoje publicamos uma das mais recentes entrevistas de Annie Le Brun, conduzida por Youness Bousenna e publicada em 25 de abril de 2021 no periódico francês Télérama. Esta intervenção faz parte das movimentações em torno do lançamento de seu mais novo livro Ceci tuera cela: Image, regard et capital (Stock, 2021) [Isto vai matar aquilo: Imagem, olhar e capital], escrito em colaboração com Juri Armanda. Tanto o livro como a entrevista são inéditos em português.


Neste livro, que toma seu título emprestado do romance Notre-dame, de Victor Hugo, Annie Le Brun investiga com profundidade e rigor aquilo que costuma denominar-se “invasão” ou “proliferação” de “imagens” nas redes, evidenciando que, na verdade, o que testemunhamos atualmente não trata-se de um fascínio, mas sim de um completo desprezo pela imagem, a qual é sucessivamente violentada, construindo-se assim o que Le Brun denomina “ditadura da visibilidade”.


Finalmente, é importantíssimo sublinhar que a “imagem” a que se refere Annie Le Brun é aquela mesma do senso-comum, cujo significado é assaz diferente daquele conferido a esta palavra por Pierre Reverdy, André Breton e outros ao se referirem à imagem, imagem poética ou imagem ascendente[2]. Sergio Lima, um dos maiores teóricos e práticos da imagem dos últimos 50 anos, afirma hoje, 6 de outubro de 2021, que “o uso genérico da palavra imagem não é e nem reenvia ao acontecimento fundador do psiquismo do ser e que se chama imagem, a qual é sempre singular, ímpar e nova”[3]. Esta distinção é crucial para possibilitar um resgate do imaginário e uma transformação positiva a partir do que Annie Le Brun levanta. A partir do pensamento de Sergio, uma das possibilidades de sistematizar essa diferenciação é utilizando-se o termo imagem para fazer referência a um “fenômeno fundante do ser”, e figura para designar a imagem ótica[4], próxima à noção de “imagem distributiva” de que fala Annie Le Brun. Assim, ao que parece, salvamos a imagem poética da enxurrada de detritos que desce grota abaixo, para a qual Annie Le Brun alerta incisivamente nesta entrevista, acendendo a noite com os fogos serpenteantes que partem de seu arco.


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Mostro, logo sou?

Privando-nos dos verdadeiros contatos, a crise pouco a pouco nos precipitou numa vida onde existiriam somente imagens. Para a ensaísta Annie Le Brun, uma ditadura invisível.


Nos dois últimos decênios, o uso do smartphone generalizou-se e com ele o das redes sociais, revolucionando o estatuto da foto e, mais geralmente, da imagem. A relação que desde sempre tivemos com ela encontra-se revirada. Ao lado do filósofo Juri Armanda, a ensaísta e poeta Annie Le Brun analisa estas mutações em Ceci tuera cela: image, regard et capital [Isto matará aquilo: imagem, olhar e capital]: para ela a imagem, doravante difundida no mundo inteiro no mesmo instante em que é criada, encontra-se na situação de vítima dos algoritmos, portanto de uma lógica do número e do “like”, que priva-lhe do potencial emancipador que ela sempre portou. A crise sanitária somente acentuou este fenômeno…


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A pandemia opera um abalo em nossa relação com a imagem?

O Covid-19 chegou quando, com Juri Armanda, tínhamos terminado três quartos do livro. À medida que seguíamos, esta pandemia veio confirmar todas as nossas hipóteses, mesmo as mais arriscadas: contrariamente às epidemias passadas, onde tudo parava, inclusive a produção de imagens, a sociedade reagiu a ela com uma produção exponencial de imagens. Como se existíssemos somente mediante elas, nestes últimos meses as imagens legitimaram a ditadura da visibilidade na qual vivemos sem estarmos verdadeiramente conscientes. Nós despencamos em um mundo da imagem onde todas as atividades, do trabalho remoto à cervejinha via Zoom, realizam-se através dela.


Este movimento foi desengatilhado no passado?

Esta revolução remonta ao início do século XXI, com a generalização do smartphone, permitindo a todos produzirem e difundirem imagens. Na época o CEO da Google, o americano Eric Schmidt já afirmava: “Os Gafam[5] são muito mais poderosos do que a maioria pensa. O seu poder reside na sua capacidade de aumentar de maneira exponencial. Com exceção dos vírus biológicos, nada pode disseminar-se tão rapidamente, e com uma tamanha velocidade, eficácia e agressividade, quanto as plataformas tecnológicas”. A pandemia confirma isso mais que nunca, esfumando as resistências, como se todo mundo aspirasse a essa ditadura da visibilidade, de modo a combater a invisibilidade do vírus. À medida que nos libera dos contatos físicos tornados perigosos, o digital tornou-se o único espaço seguro para reorganizar a sociedade. Em maio de 2020, esse mesmo Eric Schmidt explicava à televisão americana que os confinamentos tinham permitido aos Gafam dar um salto de dez anos, pois “de repente a Internet não é mais uma opção: ela tornou-se vital para realização de negócios, para organizar de nossas vidas e para vivê-las”. Tudo está dito. Nada parece opor-se a esta hegemonia, assegurando-nos e levando a um controle quase total de nossas atividades.


Como explicar este consentimento de todos?

Falou-se de servidão voluntária, e mesmo de despossessão. A internet apresenta-se como um utensílio de otimização da vida. Estes dispositivos dão-nos a sensação de sermos mais livres, quando eles de fato controlam-nos cada vez mais. É por isso que denominamos “colonização smart” esta intrusão constante dos utensílios destinados a “facilitar” nosso cotidiano, ou a “aumentar” nossas capacidades. De fato, trata-se de fazer-nos participar da substituição do real por um mundo digital modificado. Assim chegamos ao “capitalismo de vigilância”, do qual fala a socióloga americana Shoshana Zuboff[6], e no qual controle e lucro confundem-se. Mas pareceu-nos que não detivéramos suficientemente nossa atenção no papel central da imagem. Ceci tuera cela [Isto matará aquilo] busca mostrar que trata-se de uma nova economia do olhar: se a imagem foi domesticada pelas indústrias digitais (que aí encontraram sua força de sedução ao mesmo tempo que sua potência policial), ela será-lhes inútil sem nosso olhar, evidentemente indispensável, à cada instante, ao funcionamento desta nova economia. Ela tornou-se então energia renovável por excelência, mais preciosa ainda que eram outrora o ouro ou o petróleo.


Você mira particularmente em dois dispositivos de rastreamento instalados pelas empresas do digital: o “eye tracking” (ou oculometria), que estuda os movimentos dos olhos para adaptar a ergonomia dos websites, e o “tracking pixel” (ou pixel espião), imagem invisível ao internauta, mas cujo carregamento num site permite que ele seja seguido.

Estes dispositivos participam da privatização do espaço comum, onde o rastreamento dos comportamentos do indivíduo exerce-se tanto com objetivo mercadológico de prevê-los, quanto com objetivo policial de controlá-los. Assim é desde o início a técnica de venda da Amazon: estimular a circulação da mercadoria personalizando ininterruptamente as sugestões de compras similares. Esta estratégia capitalista torna-se ainda mais perigosa quando os modelos de mercantilização orientam os comportamentos éticos ou políticos, através da multiplicação de “comunidades”: os algoritmos não propõem-lhe nada mais que conteúdos que afagam seu gosto ou confirmam suas opiniões, fazendo-lhe entrar, apesar de você mesmo, em grupos virtuais e comunidades, partilhando aí suas escolhas: é o caso das recomendações do Youtube ou do feed do Facebook, até conduzir a isto que qualificamos como “clique-ético”, para designar esta maneira de reagir a tudo, sem reflexão nem contextualização.


Qual é a novidade disso que você chama “imagem distributiva”?

O estatuto da imagem no século XX foi perfeitamente abarcado pelo filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940). Para ele, a possibilidade de reproduzir em massa imagens fazia-lhes perder sua força original, que ele denomina “aura”. Entretanto, a perda desta propriedade não afeta o conteúdo da imagem. O célebre retrato de Che Guevara, por exemplo, continua icônico, mesmo se ele não tem a aura de uma pintura cuja existência é única. Inversamente, a imagem distributiva, que é difundida ao infinito via digital no próprio momento em que ela é produzida, muda de natureza. Não estando mais “reproduzida” mas, sim, “distribuída” de maneira ilimitada, ela não mais existe pelo seu conteúdo, mas pelo número de visualizações, de “likes” e de reações que ela gera. De repente, o número entra na imagem, coagindo-lhe a não mais mostrar mas a mostrar-se. Vem daí sua procura pela viralização, que faz dela presa dos algoritmos.


Segundo você, esta dinâmica cria uma “vertigem distributiva”. Quais são seus perigos?

Trata-se de uma revolução que destrói o laço até então existente entre imagem e imaginação. Enquanto a imagem era desde sempre uma abertura em direção ao alhures, ela agora obstrui o horizonte sensível. A selfie é emblemática dessa nova era de uma imagem que não reenvia senão a ela mesma para encerrar-se, como uma prisão. Todos enviam sua imagem ao mundo esperando que o mundo a reenvie, como ilustrou ad absurdum a foto de Hilary Clinton em Orlando diante de uma multidão que, dando-lhe às costas, tira uma selfie para aparecer sobre a mesma imagem que ela. Evidentemente, esta floresta de olhares paralelos aniquila toda perspectiva comum. Permitindo a cada um ser o centro do mundo, a imagem autorreferencial abole a ideia de consenso ou laço social. Por isso esta “vertigem distributiva” que toma posse da nossa vida interior, substituindo-lhe um universo que não mostra mais nada de negativo[7]. Esta negação é o ponto de partida da despolitização que contribui verossimilmente em muito com a escalada dos populismos. Um mundo positivo do “like”, onde todos contemplam-se como fornecedores e clientes de sua própria mercantilização.


No que a imagem age agora como uma “força desrealizadora” que nos anestesia?

A imagem distributiva prolonga ao extremo a desmaterialização que caracteriza o mundo digital. Refém do número, esta imagem é ao mesmo tempo negação do corpo e da sensibilidade, ao ponto de levar-nos a não mais discernir realidade e ficção. O paradoxo é que sua imaterialidade não permite-nos mensurar a violência contida na lei do número, do quantitativo. A humanidade torna-se estatística. Agora equivalentes a sinais, as imagens obedecem somente aos algoritmos e aos princípios de similaridade que os governam. Distribuída aos milhares, é ela que alimenta o olhar sem olhos do monstro tecnológico. Por incomensurável que ela seja, a massa de dados propõe a cada qual somente aquilo que lhe é parecido. Ao ponto que, impondo-se como o único modo de relação entre os seres e as coisas, esta similaridade fecha-nos num mundo de imagens sem imaginação e, com isso, sem alternativa.


Quem tem o poder neste mundo da imagem?

Certamente são os gigantes do digital, quando Estados e responsáveis políticos são reduzidos a submeter-se à ditadura da visibilidade para tentar existir. E o combate geopolítico em torno da internet 5G dita a importância do que está em jogo. Fonte de lucro exponencial, a imagem tornou-se ao mesmo tempo uma espécie de arma absoluta. Hoje a competição diz menos respeito à detenção do poder atômico do que ao controle da imagem. Outrora portadora de liberdade, a imagem tornou-se sua pior inimiga, graças ao reconhecimento facial, garantia não só da supremacia policial, mas igualmente da dominação do mundo. Na medida em que, dos smartphones aos drones, a imagem mostra ser também uma dúbia matadora. O crescimento do poder da China é aliás ligado à sua ditadura digital.


Como resistir a este empreendimento da imagem e do capital?

Antes de mais nada, começando por ser consciente da monstruosidade tranquila que ela instaura tanto em nós quanto fora de nós. Pois se ela destrói o espaço social ao privatizá-lo, ela mira na potência do número para atrofiar nossa imaginação, de onde pode sempre surgir uma faísca. Assim, em 2014, em Hong Kong, entalada entre o “capitalismo de vigilância” e o totalitarismo policial da China, os seus oponentes encontraram uma resposta manifestando-se com guarda-chuvas: esta arma era ao mesmo tempo uma resistência pela via do humor diante da violência tecnológica implementada para combater-lhes. Estes guarda-chuvas constituíam uma fresta, como as caretas destes manifestantes para desarmar o reconhecimento facial. Tais brechas são já uma escapatória, mostrando-nos que esta ditadura da visibilidade e do capital não é totalmente inelutável. O pouco de liberdade que nos resta não depende de quase nada. Para fazer isso, é hora de nos desligarmos desta ficção de uma realidade aumentada. Cabe a cada um de nós desertar deste mundo de “followers”.