mulheres e o direito à cidade

Atualizado: 2 de mar.


Colagem por Fabiana Vieira Gibim

Recentemente, voltando da faculdade, pegando aquele ônibus lotado diário, notei uma algo no comportamento de uma mulher - e não parei de pensar sobre isso o restante da noite.

Duas paradas depois da que peguei o ônibus, essa mulher, que tinha subido no mesmo ponto que eu, desceu. Tínhamos acabado de passar por um ponto do centro da cidade que é totalmente insalubre e sem movimento algum - eram onze da noite.

Isso me fez pensar se ela apenas tinha errado de ônibus, ou se tinha pego aquele em que eu estava só pra chegar num outro ponto onde realmente passaria o ônibus que ela precisava. Resolveu esperar numa fila enorme e pagar uma passagem a mais só pra não ter que andar 3 quadras sozinha durante à noite.

Quando nos preocupamos com áreas ociosas e/ou não movimentadas, nós mulheres, não estamos falando do potencial assalto ou algo do tipo, mas principalmente do potencial para abusos/estupros/sequestros ou qualquer coisa desse tipo que passa pela cabeça dos homens que acreditam ter o direito de fazer o que desejam com o corpo de uma mulher — porque é dessa forma que observam — como apenas um corpo.

Há um perfil no instagram, de um coletivo de mulheres, chamado “As Cidadelas”, no qual pautam a necessidade de uma cidade mais justa e acessível para as mulheres. Em uma das postagens, o coletivo aponta que segundo a pesquisa “Viver em São Paulo: a Mobilidade na Cidade”, 91% das mulheres não se sentem seguras na rua.

Isso vai desde todo o assédio sexual que sofremos diariamente, até o fato de as cidades terem sido projetadas pelos e para os homens. Joice Berth (arquiteta urbanista) fala no “Brechas Urbanas”, de 2017, sobre as cidades terem gênero (em sua conta pessoal, no IGTV, há esse vídeo).

Enquanto isso, outra publicação, também das Cidadelas, indica que as mulheres utilizam mais o transporte público que os homens, sendo 75% em comparação a 62%. E em uma outra postagem, dessa vez do Instituto Polís, sobre o mesmo assunto, o dado é completado quando se explica que isso acontece porque são justamente as mulheres que vão de casa para o trabalho, mas em seguida para mercado. São as mulheres que levam as crianças/idosos ou quem dependa delas para escola/hospital.

Ou seja, são as mulheres que tem todo o trabalho do cuidado, o trabalho não pago — a reprodução social que Silvia Federici fala em ”O Ponto Zero da Revolução”, assim como outras autoras em outros momentos.

Acontece que o transporte público é projetado para servir ao percurso casa-trabalho e não essas viagens segmentadas que as mulheres são obrigadas a fazer por conta de todo o trabalho não pago que recai sobre elas.

E, óbvio, já que estamos falando de reprodução social, estamos falando do capitalismo e patriarcado agindo juntos e também do peso maior nas costas das mais pobres, bem como de mulheres negras (racismo estrutural, lembram?).

Bem, como evidenciado pela pesquisa “Viver em São Paulo: Relações Raciais na Cidade”, entre os entrevistados, 69% dos negros afirmam existir uma diferença de tratamento no transporte público em comparação aos brancos. Da mesma maneira, Berth também fala dessa divisão racial do espaço urbano no programa “Mulher com a Palavra”, da TVE Bahia, transmitido em 2018 (esse vídeo também está disponível em seu IGTV pessoal).

Ou seja, a luta pelo direito à cidade não é uma luta de gênero, mas também de classe e raça.



Texto da Dandara Luigi.

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