nota sobre a liberdade

Atualizado: 29 de jun. de 2021


Colagem por Alex Peguinelli

 


A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.

 

Louis Aragon (1897 - 1982) é um nome polêmico, especialmente no âmbito do movimento surrealista. Após ter participado das atividades surrealistas durante os anos 1920 e ter fundado — com André Breton, Philippe Soupault e outros — as revistas La révolution surréaliste e Le surréalisme à service de la révolution, Aragon acabou desligando-se do grupo de Paris em 1930, ao optar por seguir alinhado com o Partido Comunista, após do afastamento do grupo com relação ao mesmo, principalmente por conta da ascensão do stalinismo e da expulsão de Léon Trotsky da União Soviética.

Apesar das dissidências políticas e ideológicas, a extensa obra de Louis Aragon, ainda que irregular, compreende momentos de grande importância. Como no caso deste texto — até onde temos notícia inédito em português — que trazemos À Fresta desta semana.

Esta Nota sobre a liberdade foi publicada em 1925 no número 4 da revista La révolution surréaliste [1]. Como observa o filósofo Georges Sebbag, Aragon é familiar à obra de Schelling, e é a partir de sua leitura que escreve a nota aqui apresentada, publicada quase concomitantemente às Investigações filosóficas sobre a essência da liberdade humana, do filósofo alemão — traduzidas para o francês por Georges Politzer e publicadas em 1926. Nesta nota, Aragon aproxima o conceito de liberdade do de sistema filosófico, colocando este último como condição sine qua non para a validade do primeiro. Trata-se de um texto intricado e de árdua leitura e tradução, que demonstra a importância da liberdade no seio do movimento surrealista, assim como as profundidades abertas pelas suas discussões — e vivências.


Nota sobre a Liberdade. [2]

A liberdade, inteiramente envolvida em suas consequências, incitando com tal ideia sua sombra e o mas então mecânico imediatamente pronunciado quando ela se ergue, todo este emaranhado de noções prontas para o desfile levam o vulgar às representações dos seus termos, sem que nenhum conceito, capaz de reuní-las e testemunhar sua subordinação recíproca, seja previamente formado. Onde não há sistema filosófico, a palavra liberdade torna-se insensata. Na verdade, peço que me mostrem o ponto do espírito que não supõe um sistema filosófico. E direi mais: exatamente ali onde há um sistema filosófico, e não importa qual sistema, e um sistema novo que sequer vislumbrei, também ali a palavra liberdade assume um sentido, e não importa qual sentido, sempre o mesmo sentido, único, pois qualquer sistema é sempre a elaboração de uma ideia, por mais contrário que aparentemente seja, uma ideação, portanto suposto para além das suposições do sistema idealista e de seus desenvolvimentos, suas retrospecções e suas soluções; onde surge à luz da ideia, ideia de liberdade, que é a própria liberdade. (Perceba que argumentando assim para cada uma das ideias, afirmo que não há outro sistema filosófico além do idealismo, ou que é necessário que as palavras não portem mais sentido, e então cale-se) Tudo o que digo sobre a liberdade é, portanto, irrefutável e absoluto. Resulta daí que a liberdade é um limite, e que é absurdo vislumbrar a liberdade senão como limite. Se isto que digo sobre a liberdade é absoluto, a liberdade, tal qual aparece na linguagem, tem sempre um caráter unicamente relativo, e é esta confusão entre dois termos distintos quanto à verdade, e o uso alternado desses dois termos, que engendra as representações sobre as quais eu falava e ria.

Por conseguinte, em toda ocasião que se apresentar, cometerei qualquer atentado contra a liberdade do outro, em consideração à liberdade. O homem livre é aquele que tem vontade somente no que contribui com a ideia. O homem perfeitamente livre é perfeitamente determinado no devir. Morte às mecânicas que sobem rio acima!

LOUIS ARAGON Tradução de Natan Schäfer

 

Notas: [1]: Nota do tradutor - posteriormente reunida em Chroniques I (Éditions Stock, 1998). [2]: Nota do autor - O Senhor Delteil dedicou-me um caderno verde nos seguintes termos: E viva a liberdade, meu caro. Apontei-lhe que jamais fomos tão íntimos.

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