notas contra a lógica


Ilustração de François Schuiten para Os mares perdidos [Les mers perdus] (Attila, 2010), livro composto por histórias de Jacques Abeille escritas a partir de desenhos de François Schuiten. Cumpre notar que em francês “mares” (“mers”) é homófono de “mães” (“mères”).



 

A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.




 

Um dos lugares-comuns que até hoje são mantidos pelos que desconhecem ou se opõem ao movimento surrealista é o do caráter refratário de seus membros à prosa narrativa. Embora os surrealistas sejam críticos implacáveis do romance e outras formas prosaicas, na verdade o que desperta seu tédio e abominação é a prosa narrativa realista que se restringe a cânones e a uma lógica estreita, que renuncia ao desejo e que é destituída de poesia. Do contrário, sempre houve e sempre há de haver lugar no movimento para experiências ousadas e arrojadas no campo da prosa, seja quando ela se configura em escritos automáticos ou em novelas e romances. Como prova da existência deste lugar incomum e extraordinário, basta que lembremos a proeminência dos romances góticos — como O castelo de Otranto, de Horace Walpole — na constituição do imaginário e da atuação surrealista, assim como de outros mais recentes, como por exemplo Locus Solus, de Raymond Roussel, O litoral de Sirtes, de Julien Gracq, A noite do Hotel Rosa, de Maurice Fourré, A trombeta de ouvido, de Leonora Carrington, O texto impossível, de Alain Roussel, Valéria e sua semana de maravilhas, de Vítězslav Nezval e muitos outros.


Dentre os membros do movimento surrealista que se dedicaram aos abismos da prosa narrativa, um dos maiores sem dúvida é Jacques Abeille (Lyon, 1942 - Libourne, 2022), que infelizmente nos deixou este ano. Abeille soube aproximar como poucos a herança gótica e romântica às conquistas da escrita automática, registrando essa síntese n’O ciclo das terras distantes [Le Cycle des contrées], cujos romances que o compõem são marcados pela destreza metodológica, por uma grande liberdade e por um acentuado erotismo. Além disso, são dignos de atenção seus desenhos e também os textos teóricos publicados nos anos 1970 no Boletim de ligação surrealista, dentre os quais escolhemos publicar aqui nest’A Fresta, e pela primeira vez em português, estas Notas contra a lógica, publicadas pela primeira vez no décimo número do B.LS. em 1976.

Apesar dos inúmeros ataques que tem sofrido desde a aurora do movimento surrealista, a lógica estreita ainda é celebrada por muitos como se fosse uma panaceia ou um fundamento indiscutível e inamovível, de modo que são poucos os que se aventuram e trabalham em prol de seu alargamento e incandescência, de modo que ela permita pensar e pensar a partir daquilo que ainda é desconhecido.


De minha parte, posso afirmar que sou um entusiasta das investigações insufladas pela lógica, sejam elas as Meditações de René Descartes ou o Manual de Lógica de Immanuel Kant. No entanto, parece-me que, embora a lógica tenha uma serventia, ela serve sobretudo de trampolim a algo maior e outro, como podemos ver na Primeira e Segunda nota sobre o objeto, de Jean Schuster, e no Princípio de equivalência e sua média elevada, de Jehan Mayoux, ambos publicados nest’A Fresta [1]. Quando usada como prazeroso trampolim, a lógica evita seu angustiante destino de ferramenta de opressão ou limitação, destino esse que de fato vemos com grande frequência em muitos dos ambientes pelos quais circulamos. Ora, não é à toa que em Signo ascendente [2] Breton manifesta seu ódio à conjunção conclusiva logo, percebendo não somente a “vaidade e deleite moroso” que ela acarreta, mas também o caráter arbitrário da relação de causalidade.

Claro que uma análise e uma crítica profunda da lógica aristotélica e da relação de causalidade, assim como de sua pertinência ou não, exigiria um estudo aprofundado que foge ao escopo desta apresentação. Para isso, sugerimos a leitura do Ensaio sobre os fundamentos da lógica, de Newton da Costa e seus desenvolvimentos sobre a lógica paraconsistente. De todo modo, aqui podemos deixar manifesto um ataque a uma certa lógica que é “dada de barato” com uma facilidade pornográfica e utilizada impunemente como forca, guilhotina e tampa de sepultura.

Também gostaríamos de dar uma salva de palmas à psicanálise, e sobretudo a Jacques Lacan e aos lacanianos, pois são alguns dos poucos que em seu campo e para além dele, atravessando as mais renhidas fronteiras, ousam à compreensão da lógica e à sua Aufhebung, lembrando ainda que suas relações com o movimento surrealista não são poucas e tão pouco fortuitas.


Mas voltando à lógica, uma das coisas que mais me atrai em textos como os de Jean Schuster e Jehan Mayoux, que sinalizei anteriormente, é justamente o rigor de seu raciocínio e de suas conclusões. A princípio a atração por este rigor poderia ser situada no prazeroso sentimento de deslocamento provocado pela inadequação da ferramenta ao seu objeto, como se alguém usasse uma morsa para fazer chantilly, uma acelerador de partículas para colocar a cereja no topo do bolo e uma escova de dentes para cortar suas fatias e distribuí-las aos convivas entre um copinho de Fanta e outro. Porém, isso que em um primeiro momento suponho como inadequação talvez não passe de um debruçar-se de ato e de fato, isto é, de um verdadeira busca por algo novo — o que vulgarmente poderia ser denominado como um pensar fora da caixa.


Além disso, diante do brilhante rigor e vibrante humor dos textos de Mayoux e Schuster, poderíamos apontar aí coincidências para com muitas das experiências empreendidas pelo grupo Oulipo, como por exemplo as listas de Georges Perec ou o método recursivo de Raymond Queneau. Porém, muitos dos experimentos do Oulipo costumam restringir-se ao seu viés irônico e derrisório, não alcançando o potencial de renovação e duração característicos da poesia. Enquanto isso, o movimento surrealista é refratário ao blasé e à mera ironia e frivolidade como meio de escapar às vertigens do desejo. Assim sendo, se olharmos para o movimento surrealista como para um corpo, reconhecemos o humor — seja ele negro, derrisório, filosófico, chistoso, trocadilhesco, etc. — como um de seus órgãos vitais. Inclusive, é interessante pensar aqui o humor como algo que contribui ou que constitui o raciocínio e como um dos operadores da busca, no que ela tem de mais sério e arriscado, realizada por alguém que acredita efetivamente na utopia que persegue. E aqui vale citar o que no primeiro número da revista La Brèche [A Fresta] André Breton afirma sobre o pintor naif Henri Rousseau:


“o progresso do ceticismo e da zombaria no século XX serão tais que mesmo Apollinaire, que porém bem sabe o valor dessa flor [que é a arte “naif”], somente se debruça sobre ela depois de um sorrisinho cúmplice ao público”.


A partir do texto de Breton, aliás marcado por raciocínios e argumentos estupendos, podemos afirmar que Henri Rousseau não era alguém que pintava “mal” ironicamente, mas sim alguém que depositava todas as suas esperanças e todo o seu desespero no que fazia. Como afirma René Alleau a Breton ao comentar os olhos da estátua do Barão Daumesnil de Henri Rousseau: “a preocupação de realismo conduz à desorientação [depaysement] da representação”. Pensando nisso, cabe então a pergunta: como nos livraremos do maciço de ironia e apatia que pende sobre nós, seviciando e destruindo o ânimo, o entusiasmo e a alegria?


O mesmo que vale para Henri Rousseau, também vale para os empreendimentos de Mayoux e Schuster, que por sua vez se relacionam às Notas contra a lógica na medida em que, além de seu mergulho abissal, opõem-se à lógica clássica no que vão além dela, abrindo-se à síntese e a uma lógica a quente — que é mais.


E aqui convém citar o filósofo Emanuele Coccia, cujas reflexões são tão próximas e afins ao pensamento desenvolvido no seio do movimento surrealista:


“Não somos homens porque somos capazes de abstrair, de depreender racionalidade do empírico, de sublimar a experiência. Escrever, falar e até mesmo pensar significam, sobretudo, mover-se no sentido contrário: encontrar a imagem certa, o sentido certo que permite tanto tornar real aquilo que se pensa e se experimenta quanto encontrar aquilo que possibilita a libertação disso tudo. Viver significa, antes de mais nada, dar sentido, sensificar o racional, transformar o psíquico em imagem exterior, dar corpo e experiência ao espiritual” [3].


Mesmo se valendo de uma lógica rigorosa, os resultados apresentados por Mayoux e Schuster são de uma ordem diferente daquela que os praticantes e defensores da lógica clássica costumam oferecer-nos. Isso porque a meu ver Mayoux, Schuster e outros surrealistas — como por exemplo Mattias Forshage ou Guy Girard [4] — estão se debruçando sobre aquilo que é desconhecido de uma maneira que tampouco é lhes é totalmente conhecida e que por vezes pode até mesmo ser tão desconhecida quanto seu objeto e que, sobretudo, é apaixonada — às vezes delirantemente apaixonada.


Natan Schäfer

Maio/Julho de 2022

 

Notas contra a lógica


oo As sociedades se mantêm segundo uma ordem, uma forma. Não existe sociedade anárquica.

E contudo posso nomear uma sociedade assim, e traçar seu signo inteligível. Se a linguagem é condição para a ordem (digamos que o irmão e a irmã engendrem uma criança; se for um macho, que ele conceba com sua mãe uma nova criança; se for uma fêmea, com seu pai; como se chama esta última criança? onde ela está?), ela favorece a desordem; ela abre para aquilo que não é. O imaginário.

oo Dois modos de linguagem:


— utilitário: “me passa a enxada” (ou o martelo ou a colher de pedreiro, ou a mostarda); com acidentes possíveis: “me passa a expressão”.


— inutilitária: “naquele tempo ainda não existia tempo, não existia nada. Então ODIPUTSE o pato colocou um ovo nas frondes pubianas de MALLALLA, a maré. Do buraco profundo de MALLALLA saíram MALÁPIO, LARÁPIO, ESCULÁPIO, e como estavam famintos, quebraram o ovo. E os estilhaços da casca voaram longe na noite e se tornaram as estrelas, e o resto se tornou a terra. E no buraco profundo da terra surgiu MALLALLA, a maré de corpo flexível, e sobre MALLALLA surgiu ODIPUTSE com iniciativas impertinentes…”.

É a linguagem opaca que se apaga como o rastro dos amantes nas areias brancas que bordejam o rio, como a sombra de seu abraço quando chega o dia. Não há coisa alguma atrás dos signos dessa linguagem, assim como não há nada no fundo do amor.

oo Não há equilíbrio possível entre os dois modos de linguagem; somente e sempre a separação e a guerra. Chamamos de civilizações, ou culturas, as formas infinitamente diversas que essa guerra natural pode assumir.

oo Quando o modo utilitário da linguagem prevalece, eis aí o signo de que o animal humano acaba de sofrer uma mutação brusca. Através dos utensílios, ele reforça e acelera seu pertencimento às condições naturais gerais. Quando o modo opaco prevalece, eis aí um signo de que o animal de linguagem privilegia sua particularidade natural e seu paradoxo constitutivo.

oo O paradoxo é insustentável, assim como a morte, essa irrealidade que subsiste na linguagem.


oo Quando os homens se reúnem para celebrar o paradoxo em um relato [récit], eles gozam da tentação pelo impossível. Então a morte é risível porque ela não existe, e também é nobre.


oo O paradoxo arruina o sentido. A linguagem utilitária não pode tolerá-lo. (A religião que não quer rir e dá um sentido à morte é um subterfúgio da linguagem utilitária).

oo Chamamos de lógica o sistema de leis pelas quais a linguagem utilitária se defende contra o não-sentido [non-sens], quer dizer, o paradoxo, que no entanto está presente em toda linguagem. Essas leis, que interditam um modo possível e sem cessar ameaçador da linguagem, são necessariamente arbitrárias. Essas leis são naturais, como qualquer subterfúgio ditado pela necessidade de qualquer animal.


oo As duas leis fundamentais da repressão lógica são:

— A interdição da contradição;

— A obrigação de distinguir os níveis da língua, isto quer dizer, o respeito interno da hierarquia interna do discurso.

oo Quando a língua se toma a si mesma como objeto, ela se cinde, afirmam os lógicos, em duas partes. A primeira é sujeito, a segunda objeto. A segunda parte pode por sua vez cindir-se. E assim indefinidamente. É interdita a inversão do processo, ou seja, fazer do objeto o sujeito e do sujeito o objeto. É preciso fazer de conta que o discurso é somente audível.

oo No uso corrente, é impossível que o animal de linguagem domine mais de três ou quatro níveis de linguagem. Só a máquina vai além. (Os lógicos chamavam de Deus uma maquinação capaz de cobrir uma hierarquia infinita).


oo Quando um homem é um instrumento nas mãos de um outro homem lhe é interdito que ele se sirva de seu mestre como de um instrumento. É a moral do respeito.

oo Caso o último homem da hierarquia queira um instrumento, ele deve inventá-lo. São precisos milênios para que ele esqueça que é o último instrumento e comece a sofrer mutação organicamente para fora de si mesmo, em seus utensílios e suas máquinas.