o acaso no processo de criação artística

Atualizado: 2 de mar.


Scan do livro “Mémoires” de Guy Debord e Asger Jorn's, 1959

Na próxima quarta feira, dia 30 de Junho, receberemos o curso da Paula H. Cavalcante no nosso Encontros sobinfluencia. O encontro, intitulado "Projetos Artísticos: Planejamento, Desenvolvimento e Apresentação" é voltado para pessoas que queiram criar ou desenvolver um projeto artístico desde seu planejamento até a apresentação, passando por explicações teóricas sobre todo processo criativo, métodos de pesquisa de referências, escolha das técnicas e materiais utilizados. Paula Oliveira de Holanda Cavalcante é fotógrafa, docente e pesquisadora residente na cidade de Feira de Santana (Bahia, Brasil), estuda Desenho com ênfase em Metodologia na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). É pesquisadora no grupo Trajetórias, Cultura e Educação (TRACE, da UEFS). Sua pesquisa gira em torno das teorias da percepção e percepção visual humana. Também participou de residências artísticas no Brasil (Ethno Bahia, 2020) e no Chile (Etno Cahuil, 2020), expondo em mostras coletivas e individuais. Contribuiu com iniciativas de países como Brasil, Chile, Argentina, México e Colômbia por meio de trabalhos autorais. Fotografa profissionalmente desde 2015 e ao longo dos anos especializou-se em retratos e fotografia de rua. Neste texto, da autoria de Paula, ela comenta alguns dos pontos que abordará em sua aula. Você pode comprar o curso clicando aqui.

 

O acaso no processo de criação artística O acaso é um fenômeno que vai bem além da mera imprevisibilidade. Também não deve ser interpretado como algo que está fora do nosso controle, pois temos agência sobre ele. O acaso, quando significativo para o processo criativo, é na realidade uma manifestação de quem somos; das nossas ambições e necessidades. Fayga Ostrower chama a vida de“infinita teia de acasos” e afirma que existe uma seletividade interior em nós — em outras palavras, aceitamos ou ignoramos coincidências que nos cercam pois fazemos distinções, que são influenciadas por nossas experiências anteriores. Os acasos não são programados, entretanto são esperados, e quando há aceitação, há intencionalidade, capaz de ampliar o potencial de um processo criativo que está em andamento ou até mesmo dar início a um novo processo. Contudo, para que o acaso atravesse nossa percepção, devemos nos abrir para o desconhecido, para o experimental, e imaginar possibilidades inovadoras, porque simplesmente não há aproveitamento do acaso quando há fórmula e rigidez no processo de criação artística. Além disso, devemos também ter sagacidade para fazer associações: estas resultam da seletividade interior, da observação de coincidências entre dois eventosindependentes entre si, o que os surrealistas entendem por “acaso objetivo”. Um pensamento ordenado tão somente pela expectativa racional (ou “império da lógica”,como denomina André Breton no manifesto surrealista) é limitante ao processo criativo, e cabe à imaginação dar forma às eventualidades da vida cotidiana, às visões, aos sonhos: dominar o acaso por meio da exploração do inconsciente, do processo criativo, atribuindo sentido a ele. De acordo com Guy Debord, toda criação e todo progresso é a organização de novas condições do acaso. E não é o acaso, necessariamente, que o ser humano deseja— o acaso é um caminho em direção à satisfação do verdadeiro desejo. Se faz necessário, também, pontuar que a crítica ao império da lógica, ao menos a crítica que guia o processo de criação artística, não deve ser uma negação total da racionalidade, visto que arte e suas etapas de atribuição de sentido têm ligação com a comunicação e, portanto, a socialização.

Textos recomendados: Fayga Ostrower — “Acaso e criação artística” Peter Bürger — “A obra de arte da vanguarda”, em “Teoria da Vanguarda” “SOBRE O ACASO — carta de Guy Debord a Piero Simondo https://www.igrakniga.com/post/sobre-o-acaso-carta-de-guy-debord-a-piero-simondo


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