o riso animal

Atualizado: 29 de jun. de 2021


Colagem por @at0falho


A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.

 

“O riso animal” faz parte do volume La Vie Filtrée, coletânea de textos em prosa do visionário das Ilhas Maurício, Malcolm de Chazal (1902 - 1981). Como o próprio Chazal aponta, com estes textos ele quis “tocar certas formas de inteligência até então impermeáveis ao espírito do homem”. Em “O riso animal”, texto cuja tradução inédita e pioneira ora apresentamos, Chazal volta seus olhos ao reino animal e apresenta uma reflexão inaudita com nuances de um misticismo liberto e não-institucional, abrindo vasos que comunicam-se diretamente com o Jorge de Lima de “Anunciação de Mira-Celi” ou do Murilo Mendes de “O visionário”.

 

O riso animal Malcolm de Chazal

Mesmo que o animal não conheça o riso, ao menos do modo tal qual o concebemos, tiritar dos traços que dissolve-se nos lábios em tremores, ele, ao contrário, possui suas “centelhas de riso”, como agulhas de sons. Imediatamente antes do olho do animal chorar, imediatamente antes de seus olhos embaciarem-se, e do seu olho ofuscar-se sob o efeito do sofrimento físico ou de uma dor moral, a face do animal ilumina-se subitamente por um centelha de alegria — gesto que com frequência encontramos por um segundo antes das lágrimas na face humana; gesto que no animal, passando com a velocidade de um raio, colocará em sua face, por um infinitesimal segundo, como que um gesto de riso.

Que sensação estranha é esta que se apodera do animal neste instante preciso? É um gesto de desafio lançado à vida, um movimento de ironia do ser por inteiro erguendo-se contra o destino? Que riso sobrenatural precedendo o “drama” é esse? Seria por acaso um sentimento de alegria súbita conferido ao animal pelo Criador, para permitir-lhe “sofrer” a provação, como faz o viático ao moribundo? Ou este “sentimento” teria um parentesco com certos êxtases da carne que no animal precedem às grandes dores, ao invés de sucederem-nas como no homem? Seria uma injeção do sobrenatural para atenuar certas “infâmias” da carne causadas pela mão do homem ou pela pata, garra ou garganta do mais forte? — um riso equivalente a um tipo de cocaína em outro plano.

Seria este riso — gemido de alegria antes da dor — uma defesa, uma barricada que se interpõe desde o início, e impede que a Dor ultrapasse certos limites e penetre num mundo fechado onde deve coexistir somente a alegria, esta Alegria que inunda tudo e coloca o vasto mundo num mesmo plano e dá uma alma universal ao Universo?

Este riso animal seria um resíduo disso que, nós homens, possuíamos num grau extremo na Origem, quando fisiologicamente estávamos protegidos contra a Dor? Este riso animal seria um resíduo desta “alguma coisa” que transcende a resignação, que é mais que a calma, até mesmo mais que a Paz e a serenidade, e que leva o nome de Beatitude, e que, no leito de morte, abole no moribundo toda dor e toda angústia? Beatitude que, jorrando da Fonte de Alegria Universal na qual o eixo de nossa alma encharca-se, sobe e espalha-se nos flancos de nossas formas cansadas e sobre nosso espírito dolorido, derramando por todo lado a Alegria de Deus, embalsamando nosso corpo de amor, fazendo da nossa carne um pião de rosas e espalhando flores sob os passos da alma que se vai, como o fez outrora o povo sob os passos do Cristo-Deus, no Domingo de Ramos?

O riso animal faiscando de Alegria antes da Dor é um gesto divino de misericórdia e de suporte moral que o Criador não recusa a ninguém aqui embaixo, quando os sofrimentos transbordam excessivamente — gesto de misericórdia em fé e conformidade com a Balança da Vida Eterna onde tudo compensa-se, onde, na igualdade de sua hierarquia, Deus dispensa os socorros de Sua Força a tudo o que vive, dosando-a de acordo com o poder de nossos próprios ombros para suportá-la.

O riso animal tem uma correlação — mas em sentido inverso — com a fisgada de dor que percorre o corpo antes da volúpia? — lei de compensação que atenua e freia a Flecha de Alegria logo depois e que, sem isso, arriscaria levar-nos além de nós mesmos e além da terras dos viventes — lei de compensação que, no animal, inocula Alegria como corretivo contra a dor que se aproxima — Lei de Balanço que reencontramos em todos os níveis da Vida e que impede que a vida seja um excessivamente total Inferno ou um Paraíso excessivamente absoluto.

Tradução por Natan Schäfer

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