o sonho americano e o negro americano - parte II

Atualizado: 27 de jan.


Romare Bearden, Train Whistle Blues No. 1, 1964
 

Na segunda parte do texto de James Baldwin, a conclusão de suas reflexões sobre as contradições e impossibilidades do sonho americano. Em sua fúria sensível, Baldwin expõe as ilusões de uma sociedade que se diz livre enquanto condena parte de seu povo à miséria, renitente em assumir a responsabilidade pelos males causados àqueles que construíram a nação. Como afirmado no último post da Coluna Harlem, partes deste texto podem soar familiares ao leitor: o texto foi incluído em certas passagens de I am not your Negro, de Raoul Peck.

A primeira parte deste texto pode ser acessada ao final do post.

 

Quando vejo estadunidenses na Europa, me parece que o que eles ignoram sobre os europeus é o mesmo que ignoram quanto a mim. Não tentam ser rudes com a garota francesa, ou rudes com o garçom francês. Não sabem que os magoam: não têm noção nenhuma de que esse homem e essa mulher particulares são seres humanos. Se dirigem a eles com o mesmo tipo de ignorância e condescendência apática, com o mesmo charme e simpatia com as quais me deram tapinhas na cabeça e que os magoou quando eu me magoei.

Enquanto crescia, os livros de história dos EUA me ensinaram que a África não tinha história e, por isso, eu também não tinha. Eu era um selvagem a respeito de quem quanto menos dito, melhor, que havia sido salvo pela Europa e levado à América. Eu acreditei, é claro. Não tinha muita escolha. Estes eram os únicos livros disponíveis. Todos pareciam concordar. Se você saísse do Harlem, o mundo inteiro concordava. Tudo que se via era muito maior, mais branco, mais limpo, mais seguro. O lixo era coletado, as crianças eram felizes. Voltava-se para casa e parecia claramente um ato de Deus. Você faz pertence ao lugar em os brancos te põe.

Somente desde a Segunda Guerra Mundial que se começou a fazer presente uma contra-imagem do mundo. Não é devido a qualquer legislação de algum governo estadunidense que essa imagem veio à tona, mas porque a África de repente estava em cena, e os africanos tinham que ser tratados de um modo pelo qual nunca haviam sido tratados. Isso deu ao negro estadunidense, pela primeira vez, uma sensação de si que não a de um selvagem. E isto criou, e há de criar, muitos enigmas.

Uma das coisas que o mundo branco não sabe, mas que eu acho que sei, é que as pessoas pretas são como quaisquer outras. Também somos mercenários, ditadores, assassinos, mentirosos. Somos humanos, também. A não ser que possamos estabelecer algum tipo de diálogo entre aqueles que disfrutam do sonho americano e aqueles que não o alcançaram, estaremos em brios. Isto é o que mais me preocupa. Sentamo-nos nesta sala e somos todos civilizados; podemos conversar, pelos menos em algum nível, de modo que podemos sair daqui assumindo que a medida de nossa polidez causa algum efeito no mundo.

Eu me lembro quando o ex-Promotor Geral, sr. Robert Kennedy, disse que era concebível que, em 40 anos, os EUA tivesse um presidente negro. Aos brancos, isso pareceu uma afirmação bastante emancipada. Eles não estavam no Harlem quando isso foi ouvido pela primeira vez; não ouviram os risos, amargores e escárnios com os quais essa declaração foi recebida. Do ponto de vista do homem na barbearia do Harlem, Bobby Kennedy havia chegado ontem e já estava no caminho para a Presidência. Nós estamos aqui há 400 anos e agora ele nos diz que, talvez, em 40 anos, se você for bom, pode ser que te deixem ser presidente.

Talvez seja possível argumentar comigo, mas não estou certo – assim como Martin Luther King – nenhum de nós sabe como lidar com pessoas ignoradas por tanto tempo pelo mundo branco, que não acreditam em mais nada que diz o mundo branco e que não acreditam inteiramente em qualquer coisa que eu ou Martin digamos. Não se pode culpá-las.

Me parece que a cidade de Nova Iorque, por exemplo, teve uma comunidade negra por muito tempo. Nos últimos 15 anos, a cidade de Nova Iorque conseguiu se construir, derrubar e erigir grandes edifícios, enquanto para os negros não fez mais do que construir projetos habitacionais, maioritariamente nos guetos. Evidentemente, os negros detestam tais projetos. As crianças não os suportam. Todos querem sair dos guetos. Se as pretensões estadunidenses se baseassem avaliações de vida mais honestas, a premissa de “renovação urbana” não significaria o despejo de negros, jogados às ruas, como significa agora.

É algo horrível que um povo todo se renda à noção de que uma nona parte de sua população esteja abaixo dela. Até que chegue o momento em que nós, estadunidenses, estejamos prontos para aceitar o fato de que meus ancestrais são tanto pretos, quanto brancos, que estamos tentar uma nova identidade neste continente, que precisamos uns dos outros, que eu não sou carcereiro da América, que não sou objeto de caridade missionária, que sou um dos que construíram este país, até que este momento chegue, há escarça esperança para o sonho americano. Se o povo tem sua participação neste sonho negada, por sua própria presença ele o destruirá. E, se isso acontecer, será um momento grave para o Ocidente.

 

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