o surrealismo face ao zen

Atualizado: 27 de jul.


Sengai, Sapo em Meditação Zen (Zazen wa gasan), fim do período Edo. Acervo do Museu de Arte de Idemitsu [出 光 美術館] (Tóquio).


Desde sua aurora e até hoje o movimento surrealista se mostra muito crítico ao

pensamento ocidental, sobretudo no que ele tem de esmagadoramente restrito ao

monoteísmo. De modo que para conduzir esta operação de grande envergadura

sobre a linguagem, o surrealismo busca energias e inspiração — i.e. o sopro das

musas — no outro e naquilo que está, de certa maneira, alhures. Isso é algo que já

vinha sendo afirmado nest’A Fresta há algumas semanas atrás, ao apresentarmos

“Eu, nós, feridos”, de Roger Renaud.


Dessa maneira, é muito natural que já nos anos 1920 os surrealistas enderecem uma

carta ao Dalai-Lama, convoquem seus leitores e amigos a pegar a estrada e apontem

suas proas em direção a tudo aquilo que não é compreendido pela civilização

ocidental como ela se expressa no senso comum e na racionalidade iluminista, mas

nem sempre iluminada.


É aí que se localiza seu interesse por culturas como a celta e outras então

denominadas “primitivas”, assim como pelo oriente, de onde, por sua vez, irradia o

Zen Budismo.


Existem vários pontos de contato entre o movimento surrealista e o Zen Budismo,

sendo que em O surrealismo face ao zen, texto que traduzimos e apresentamos n’A

Fresta desta semana pela primeira em português [1], Jean-Pierre Lassalle coloca diante

de nós algumas das pedras de toque desta intensa e rica relação.


Nesse texto, Lassalle acentua principalmente a relação de Guy Cabanel com o Zen

Budismo. Cabanel (Béziers, 1926) foi um dos poetas mais celebrados pelo grupo

surrealista de Paris após a Segunda Grande Guerra, sendo que Breton, que o recebe

em 1958 de braços abertos, afirma ser justamente para o tipo de linguagem expressa

em seus poemas que ele conservava o coração de sua orelha, afirmando que Cabanel,


Joyce Mansour, Jean-Pierre Duprey e Hervé Delabarre, são os principais poetas

surrealistas depois de 1945. Dentre as principais obras deste verdadeiro poeta que

segue dando a ver realizações inauditas, destacamos O Animal negro, um livro sui

generis.


Recentemente Jay Cruikshank, que possui um dos poucos exemplares originais do

volume, me contava que de fato esse livro tem algo de mágico e a experiência de

folheá-lo se aproxima de um sonho. Parece portanto muito justa e pertinente a

aproximação que Lassalle faz entre estes escritos, magnificamente iluminados por

Robert Lagarde, e os koans Zen, o que pode ser verificado nas citações a seguir:


Em certas regiões hipersensíveis acontece com frequência do negror escorrer e

grudar-se aos esmaltes da presa.


~ O lobo é o homem do lobo ~


É o que afirma Cabanel em O Animal Negro. Enquanto isso, na compilação O portal

sem porta, realizada pelo monge budista chinês Wumen Huikai no século XIII,

temos:

Um dia o Propagador-da-lei-[do-monte-do]-Quinto-Patriarca disse: “É como um búfalo que atravessando o cercado; sua cabeça, seu chifre e seus cascos passaram, mas porque seu rabo não pode passar?. [2]

Além disso, nessa carta com que Cabanel responde a Lassalle é importante notar o

rigor com que ele se debruça sobre o tema em questão. Isto é, aborda-o não como

alguém que se limita à imitação de uma fantasia e a uma tentativa de emulação de

trejeitos, que por sinal é o que mais comumente acontece na sociedade do espetáculo.

Para a sociedade do espetáculo basta o traje para que se faça o monge. Portanto, não é

de espantar a proliferação de ultrajes e tampouco que tantos se sintam tão mal e sua

própria carapaça.


Como já dizíamos no texto de apresentação a “Eu, nós, feridos”, a abordagem

surrealista do outro não busca “imitá-lo”, como faz o turista diante da jaula do

macaco, mas de fato de mergulhar o mais profundamente nas estruturas que fundam

o acontecimento, lançando-se sem rédeas na aventura.


Também temos de sublinhar que a relação do movimento surrealista com o Zen

Budismo não se limita ao que é referido por Lassalle. Seu artigo é breve e não teria