o verbo ser

Atualizado: 30 de jun. de 2021


Elisa Claro Breton. 1945. Retrato de André Breton em seu apartamento em Nova Iorque © ADAGP, Paris, 2012.
 


A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.

 

No prefácio da coletânea de poemas Une île à trois coups d’aile, de Jean Schuster (org. Jérôme Duwa; Le cherche midi, 2007), Claude Courtot nos informa que já nos anos 1960 André Breton diagnosticava uma “inflação poética” [1].

Diante da persistência de uma visão de mundo que encontra no poema um mero exercício retórico, não raro panfletário, autocomplacente, superficialmente prescritivo ou de modo geral dissociado do maravilhoso e do que a vida tem de mais abissal e enigmático, traduzimos n’A Fresta dessa semana o poema O verbo ser, de André Breton, publicado em 1932 na coletânea de poemas O revólver de cabelos brancos.

Nota: [1] No mesmo prefácio, recorda-se Claude Courtot — que com Jean Schuster e outros fez parte dos que optaram pela autodissolução do grupo surrealista de Paris: “Ainda ouço André Breton, nos anos 1960, comentando no café o sumário do próximo número de uma revista surrealista: ‘Ainda poemas! Sempre poemas! Nós estamos submersos em poemas. Não quero mais poemas!...”.

 

Eu conheço o desespero por alto e de perto. O desespero não tem asas, ele não senta-se necessariamente à uma mesa servida num terraço, à noite, à beira do mar. É o desespero e não o retorno de uma quantidade de pequenos fatos, como grãos, que ao cair da noite deixam um rastro por outro. Não é o musgo numa pedra nem o copo d’água. É um barco salpicado de neve, se assim você quiser, como os pássaros que caem e cujo sangue não tem a menor espessura. Eu conheço o desespero por alto e de perto. Uma forma muito pequena, delimitada pelas joias dos cabelos. É o desespero. Um colar de pérolas para o qual não poderíamos encontrar fecho e cuja existência não está sequer por um fio, eis aí o desespero. Do resto, não falemos. Não terminamos de desesperar-nos se começamos. O abajur me desespera ali pelas quatro horas, o leque ali pela meia-noite, o cigarro dos condenados. Eu conheço o desespero por alto e de perto. O desespero não tem coração, a mão no desespero está sempre sem fôlego, no desespero cujos espelhos jamais dizem-nos se ele está morto. Eu vivo desse desespero que me encanta. Eu amo essa mosca azul que voa no céu na hora em que as estrelas cantarolam. Eu conheço por alto e de perto o desespero e seus longos espantos esganiçados, o desespero do orgulho, o desespero da cólera. Eu levanto todos os dias como todo mundo e estendo os braços sobre um papel florido, não lembro de nada e é sempre com desespero que descubro as belas árvores desenraizadas da noite. O ar do quarto é belo como baquetas de tambor. Está fazendo um tempo de tempo. Eu conheço o desespero por alto e de perto. É como o vento da cortina que me estende o trapézio. Você tem ideia de um desespero semelhante? Fogo! Ah, eles vão vir, sim… Socorro! Ei-los aí caindo pelas escadas… E os anúncios de jornal, e os painéis luminosos na beira do canal. Monte de areia, te manda, seu monte de areia! Por alto e de perto o desespero não tem importância. É uma corveia de árvores que há de fazer uma floresta, é uma corveia de estrelas que há de fazer um dia a menos, é uma corveia de dias a menos que há de fazer minha vida.

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