sobre as origens do marxismo animalista

Atualizado: 28 de jul. de 2021


Colagem por @at0falho

último crime: A intenção dessa coluna é trazer material crítico, preferencialmente inédito em nossa língua, para contribuir com as discussões que permeiam seres não humanos e humanos em sua luta pelo fim da exploração do trabalho, sua busca por autonomia e a superação do modo de produção em que [sobre]vivemos. Os textos que publicados neste espaço examinam as diferentes relações estabelecidas, na história e no momento atual, entre animais humanos e os animais não-humanos, dentro da perspectiva dialética, materialista histórica e anticapitalista.

 

Christian Stache é PhD em História Social e Econômica pela Universidade de Hamburgo, Alemanha, além de ser autor de Kapitalismus und Naturzerstörung: Zur kritischen Theorie des gesellschaftlichen Naturverhältnisses (Capitalismo e Destruição da Natureza: para uma crítica da teoria das relações sociais com a Natureza (Budrich UniPress, 2017). Os campos de trabalho de seus estudos são o marxismo, a ecologia e os estudos críticos entre humanos e animais. Para este ensaio, o autor agradece Christin Bernhold, Brett Clark, John Bellamy Foster, May Gygli, Michael Sommer e Ruben Zweig por seus comentários sobre as versões anteriores. O texto foi originalmente publicado na revista virtual Monthly Review em primeiro de dezembro de dois mil e dezoito.


Tradução de Alex Peguinelli

 

Sobre as origens do marxismo animalista

Relendo Ted Benton e os Manuscritos Econômicos Filosóficos de 1844

Christian Stache


Na área de estudos humanos-animais (human-animal studies) e estudos críticos dos animais (critical animal studies), o pensamento mais influente do marxismo animalista e do animalismo marxista foi desenvolvido por Ted Benton, com base em sua interpretação do trabalho de Karl Marx.

Benton é Professor Emérito de Sociologia na Universidade de Essex, Inglaterra, e um intelectual orgânico dos chamados novos movimentos sociais, particularmente do movimento ecológico. Teoricamente, se apresenta como um dos "ecossocialistas de primeira fase", que "procurou destacar as supostas falhas ecológicas de Marx, e procedeu buscando acrescentar a teoria ecológica ao marxismo (ou em alguns casos, inserir o marxismo na teoria ecológica) como parte de um processo de ecologização do marxismo.” [1]

Benton fazia parte de um grupo de estudiosos que buscavam construir pontes, ainda que por vezes frágeis, entre marxistas e ecologistas. No final dos anos 1980 e ao longo dos anos 1990, também se tornou pioneiro na promoção de uma aproximação mútua entre marxistas e defensores de direitos e liberdades animais [2]. Por exemplo, Benton iniciou um simpósio para discutir direito animal a partir de uma perspectiva eco-marxista chamado Animal Wrongs and Rights.

Sua contribuição introdutória, a palestra e o debate do simpósio, foram posteriormente publicados no jornal ecossocialista Capitalism Nature Socialism [3]. Nele, o esforço teórico central de Benton foi o de desenvolver uma posição de direito animal dentro de uma estrutura "marxista vaga" [4]. Isto incluía defender a ideia de atribuir direitos morais e legais aos animais enquanto, ao mesmo tempo, criticava as abordagens que tinham por fundamento o Direito, particularmente as de Tom Regan, com base em críticas marxistas, feministas e outras críticas aos direitos burgueses [5]. Infelizmente, até hoje, tentativas de estabelecer diálogo entre ecossocialistas e militantes da causa animal têm sido a exceção e não a regra.

Em 1993, Benton publicou seu principal trabalho sobre animais e justiça social, Natural Relations: Ecology, Animal Rights and Social Justice (Relações Naturais: Ecologia, Direitos Animais e Justiça Social, numa tradução livre, sem publicação em português) [6]. Desde então, seu livro tem servido de referência em se tratando de Marx e animais. Benton se tornou o marxista número um entre estudiosos das relações humano-animal. Em Natural Relations, o autor publicou uma versão revisada de seu ensaio Humanism = Speciesism: Marx on Humans and Animals (Humanismo = Especismo, Marx sobre Humanos e Animais, em tradução livre, em breve publicado nessa coluna), que apareceu originalmente em 1988 na Radicall Philosophy, a cujo grupo editorial Benton pertencia [7]. Renomeado Marx on Humans and Animals: Humanism or Naturalism, o ensaio ganhou particular destaque em contraste a um contexto de um discurso relativamente fraco sobre marxismo e libertação animal nas últimas décadas [8]. O texto lançou a leitura e recepção animalista das obras de Marx dominantes até os dias de hoje. Na obra, Benton analisa como Marx retrata a relação homem-animal nos Manuscritos Econômicos Filosóficos de 1844, doravante denominados Manuscritos de Paris ou simplesmente Manuscritos [9].

Embora os argumentos ecossocialistas mais gerais de Benton tenham sido criticados, uma discussão aprofundada de suas posições sobre os animais e suas acusações levantadas contra o jovem Marx necessita ainda ser feita [10]. Estudiosos adotaram amplamente as principais interpretações e resultados de Benton - ou os compartilharam - embora não concordem com tudo que é exposto pelo autor [11]. No entanto, apenas uma minoria de pensadores levantou objeções fundamentais, embora não rigorosamente fundamentadas [12]. Outros autores, como Bradley J. Macdonald, têm sido ambivalentes em relação às interpretações de Benton [13].

Neste ensaio, tento demonstrar como a leitura que Benton faz dos Manuscritos de Paris com relação à diferenciação homem-animal é fundamentalmente falha. Em contradição com as teses centrais de Benton, Marx não faz uso da espécie, nem de um dualismo homem-animal para estabelecer o conceito de estranhamento (estrangement), nem fundamenta sua crítica ao capitalismo em tal distinção ideológica. Além disso, é infundado acusar o esboço de Marx do desenvolvimento histórico e, particularmente, da emancipação (e de uma sociedade comunista) de ser um relato prometeico e produtivista da dominação humana da natureza. Assim, contrastando com o que pensava Benton, argumento que não há razão para considerar o jovem Marx um narcisista antropocêntrico ou para lê-lo como uma continuação da filosofia ocidental tradicional.

O segundo objetivo deste artigo é oferecer uma interpretação alternativa dos Manuscritos de Paris no que diz respeito aos animais e, em particular, à diferenciação humano-animal. Nesse sentido, as chaves para compreender este trabalho específico de Marx são: (a) vê-lo em termos de uma compreensão dialética da relação entre humanos e animais; e (b) explorar a conexão entre os escritos de Marx a esse respeito e como essas mesmas questões se manifestaram em sua crítica madura da economia política. A estreita relação entre os primeiros escritos de Marx e os mais maduros no que diz respeito ao status dos animais é evidente, apesar da terminologia filosófica que Marx adotou de Feuerbach e Hegel, ainda retida nos Manuscritos de Paris.

Para concluir essa introdução, argumento que não há dois Marx diferentes nos Manuscritos de Paris - um mal humanista e um bom naturalista - como Benton supõe, mas um único Marx.


Interpretação de Benton dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844


Em seu capítulo Marx on Humans and Animals: Humanism or Naturalism, Benton detecta, aparentemente, grandes problemas nos Manuscritos de Paris, que considera "a avaliação de Marx acerca da natureza humana" e "o mais profundo e intrigante de seus escritos".


Primeiro, Benton está convencido de que os "conceitos de organização central dos manuscritos de Marx - ser da espécie [ou ser genérico] (species-being) e estranhamento (estrangement) - são desenvolvidos em termos de uma oposição fundamental entre natureza humana e animal" [15]. O estranhamento, ou alienação, se baseia em uma forma capitalista de trabalho que reduz o ser humano à condição de animal e, portanto, impede o ser humano de realizar seu potencial histórico e social como espécie.


Em segundo lugar, Marx supõe que este ser da espécie é exclusivamente humano. Para Marx, sugere Benton, outros animais "são caracterizados por uma certa inalterabilidade em seu modo de vida", transformando a natureza apenas "de acordo com um 'padrão' definido, característico de sua espécie; sua atividade é orientada para o atendimento de suas necessidades individuais (também fixas, e características de cada espécie) e as de sua prole". "Em contraste", continua, "os seres humanos agem sobre o mundo externo de forma livre, consciente e socialmente coordenada " [16]. De fato, seguindo o pensamento de Benton, Marx apresenta seres humanos como seres capazes de organizar e coordenar todo tipo de trabalho. No entanto, o ponto de Benton é que o trabalho estranhado empurra os humanos para a condição dos animais, na medida em que seu trabalho é reduzido ao mesmo tipo de trabalho realizado pela produção animal. Em um regime de trabalho estranhado, os humanos trabalham como os animais, apenas satisfazendo suas necessidades mais básicas.


Assim, Benton assume que "ao fundamentar sua crítica ética sobre o modo de produção capitalista", Marx tem por base "uma oposição absoluta e universal, não uma provisória, e historicamente transcendente, entre o humano e o animal" como um regime de trabalho de propriedade privada [17].


Além disso, Benton argumenta que o jovem Marx concebe a emancipação humana como um progresso por meio do constante aumento do domínio da natureza em benefício dos seres humanos, que, desta forma, cumprem sua missão enquanto ser da espécie. O "processo histórico de desenvolvimento, peculiar à espécie humana, consiste em um aumento de nossos poderes transformadores vis-à-vis à natureza, equivalente a uma 'humanização' sem resíduos da mesma" [18]. Se o que está errado com estas sociedades capitalistas, como argumenta Benton, "é que o ser humano está reduzido à condição de animal; então a superação do capitalismo, ao restaurar a humanidade para [o] humano, restaura, de maneira simultânea, a diferenciação entre o humano e o animal" [19].


Como a dominação da natureza implica dominação de animais, Benton conclui que a visão de Marx de emancipação em seus primeiros escritos, não é apenas antropocêntrica, mas também "um fantástico narcisismo de espécie" [20]. A este respeito, "a tentativa de Marx (...) de fornecer um relato da natureza humana em termos de uma profunda oposição entre o humano e o animal está de acordo com a corrente dominante da ocidental filosofia moderna" [21].


Levando em consideração esta interpretação bastante resumida dos Manuscritos de Paris, é surpreendente que Benton argumente também que "há ambiguidades e tensões fundamentais na posição filosófica geral do início de Marx" [22]. Na verdade, o sociólogo britânico supõe que "mesmo em seus dias pré-darwinianos", Marx não só sustenta um discurso humanista, mas um naturalista também [23], ambos "coexistem em uma tensão não resolvida" [24]. Em outras palavras, segundo Benton, há um jovem humanista Marx que constrói seu argumento sobre um dualismo humano-animal e, ao mesmo tempo, um jovem naturalista Marx que superou o dualismo e que está comprometido com a continuidade "humano/animal" [25]. Este Marx naturalista, sugere Benton, finalmente vem à tona com a leitura, muito apreciada, e com a compreensão dos pensamentos de Darwin contidos no livro A Origem das Espécies, depois de 1859 [26]. Portanto, Benton considera os Manuscritos de Paris como "um discurso instável e evidentemente transitório", "rasgado por contradições internas" [27].


Antes de discutir o argumento de Benton, gostaria de fazer algumas observações preliminares. Primeiro, os Manuscritos escritos por Marx em Paris, entre maio e agosto de 1844, aos vinte e seis anos de idade, não são um todo integral. Consistem de trechos, cadernos e esboços, mas nem todo o texto sobreviveu. Na verdade, estabeleceu-se que o texto normalmente conhecido como Manuscritos de Paris faz parte de um corpo mais amplo de textos escritos por Marx, baseados em pesquisas conduzidas por ele na cidade de mesmo nome. Esta coleção, publicada somente após a morte do autor, era originalmente composta de diferentes trechos da literatura econômica dominante naqueles dias, como os trabalhos de John Stuart Mill, Adam Smith, David Ricardo, Friedrich List, John Ramsay McCulloch e Jean-Baptiste Say [28]. Estes trechos, no entanto, não foram integrados aos Manuscritos como o conhecemos [29]. A obra foi publicada pela primeira vez em 1932, em sua língua original, o alemão. Nesse primeiro momento, duas versões diferentes foram publicadas: uma pelos social-democratas Siegfried Landshut e Jacob-Peter Mayer e outra pelos editores soviéticos do primeiro Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA). O conteúdo dos Manuscritos de Paris é uma mistura de termos e análises filosóficas e políticas econômicas, que carecem de uma linha coerente de argumentação. Não obstante, tornou-se uma das séries de textos mais influentes no debate marxista, especialmente após a II Guerra Mundial [30].


Em segundo lugar, os manuscritos foram escritos em uma época em que Marx estava mudando da filosofia em sua forma materialista antropológica, para a economia política baseada em uma estrutura teórica construída sobre o materialismo histórico e sócio-prático. Neste contexto particular, Benton está certo ao afirmar que se pode encontrar "um discurso instável e evidentemente transitório" neste trabalho [31]. No entanto, isto não é verdade para a interpretação de Marx das relações homem-natureza e homem-animal.


Terceiro, os Manuscritos de Paris foram escritos antes de Darwin e Alfred Russel Wallace publicarem suas descobertas sobre a evolução. É nesta constelação histórica que as formulações de Marx sobre a diferença e as semelhanças entre humanos e animais precisam ser lidas.


O Nascimento da Economia Política Materialista Histórica


A avaliação básica de Benton de que Marx faz uso de um certo dualismo homem-animal como um "dispositivo central" em sua crítica do trabalho estranhado [alienado] e do capitalismo só faz sentido se aceitarmos duas suposições principais [32]. Primeiro, que os Manuscritos de Paris são uma obra filosófica com uma "antropologia filosófica " [33]. Segundo, que o argumento de Marx é baseado em uma "ontologia" filosófica ou, pelo menos, que seus pensamentos são construídos sobre uma "base ontológica" [34].


Inquestionavelmente, pode-se encontrar muitos dos pensamentos político-econômicos de Marx embrulhados em terminologia filosófica. Há crítica à filosofia de Hegel e referências ao campo do pensamento filosófico mesmo nas partes explicitamente político-econômicas dos Manuscritos. Marx também faz uso de vários conceitos emprestados do materialismo antropológico de Feuerbach, mas, claramente, imbui os termos filosóficos de um novo significado. Benton reconhece essa questão, como no caso do termo ser da espécie (ser genérico) [35]. No entanto, ne