os poetas permanecem jovens

Atualizado: 2 de mar.


Colagem por Fabiana Vieira Gibim


O texto a seguir, de autoria do poeta libanês Abbas Beydoun [عباس بيضون] (Sur, 1945), é trazido a vocês pela Sobinfluencia em tradução inédita. Redigido como uma carta à juventude, foi eleito por nós, neste momento, por sua representatividade em relação às ideias que procuramos propagar em busca de uma juventude e de uma poesia jovem; uma poesia que, se não derrama sangue, forma aqueles que a leem para uma vida de coragem e sensibilidade, pronta para o enfrentamento de uma vida falsa.

Com vocês, Abbas Beydoun,

Saúde.


—————————— x ——————————


Quero lhes encarregar de um segredo: eu também já fui jovem, mesmo que, na cabeça de meus dois filhos os pais jamais tenham sido jovens. Gostaria lhes encarregar um outro segredo: os poetas possuem uma juventude eterna, assim como os desejos que não se realizam, os projetos maravilhosos, as utopias, os valores que não negamos mais, o direito à justiça, a liberdade, a paz e o amor. Leiam os poemas escritos pelos poetas em suas velhices, não encontrarão traço algum de reumatismo ou de anemia. Pois não existem, que eu tenha ciência, poemas velhos. Os poetas continuam jovens; a poesia é seu elixir da juventude, eles não podem envelhecer. Para eles a idade, ordinariamente sinônimo de doença e morte, não existe.

Os poetas não envelhecem porque não renunciam à esperança. Não à esperança em qualquer coisa, mas à esperança mesma, como instinto, sensibilidade, que não necessita de objeto; portanto, os poetas não vendem ilusões; a poesia corre em seu sangue, assim como o dom de esperar aquilo que não possui nome, o entusiasmo por aquilo que não possui face; eles escutam os apelos de algures. Eles não vendem ilusões, mas sabem que seu sangue mistifica verdades e visões. Deve-se apenas lhes dar ouvidos. É somente isso que a poesia necessita. Ela é a arte de não matar as coisas para nosso livre uso, de não dilapidar nossas palavras e nossas histórias para atingir afobadamente nossos objetivos. Ela é a arte de guardar por muito tempo as palavras e as histórias que nos são mais caras, assim como certas pessoas guardam sonhadoramente as bonecas de sua infância. Ela é a arte de preservar nas palavras e nas coisas seu poder primitivo, a magia dos nomes, sua capacidade de se transformar e surpreender; a arte de morrer lentamente e de deixar as coisas morrerem conosco, sem as destruir em nossa pressa de as superarmos.

Os poetas sabem perfeitamente esperar, e eles não perdem nada. Eles guardam preciosamente as coisas no fundo de si mesmos, eles não têm porque se apressar. A estrela cuja hora chegou brilhará em seu momento próprio; o fruto tombará no momento certo. Eles esperam por vezes na alegria. por vezes num aborrecimento mortal, mas graças à espera eles enriquecem suas ideias e suas visões. Não se trata somente de imaginação, mas de pele e carne, pois a poesia não fabrica os sonhos, ela os revela, os faz visíveis, lhes dá corpo; ela os torna certos, irrefutáveis, porque eles são “realizados” no poema.

Os poetas não vendem ilusões. Eles estendem a verdade e dão uma existência efetiva àquilo que ainda não foi alcançado, àquilo que não é mais do que uma intuição, um pensamento. Eles não têm a necessidade de grandes coisas: basta uma palavra, uma rima, pois a beleza também é assim simples e fácil. É necessário somente confiança nas palavras. Nós devemos observá-los como aqueles insetos que voam ao nosso redor. Se soubermos brincar com eles, tocá-los, podemos fazer coisas maravilhosas; devemos amá-los sem esmagá-los em nossa pressa. Jovens, vocês se apressam demais, dizem que devem matar sua memória, seu belo álbum, suas borboletas, para morrer rapidamente sem se aproximar de seus objetivos. Vocês se apressam para se lançarem ao mercado do trabalho e da produção, ao mercado de rivalidades, de nacionalismos e de fanatismos. Dizem que vocês devem matar sua língua, falar uma língua cuja pele é o computador. A pior das coisas da mundialização, é essa língua impessoal que propõem os piores missionários. Nunca se viu alguém viver fora de sua língua, e querem que vocês experimentem isso. Resistam.

Matar a língua é matar a história, pois as palavras são também uma história; são elas que nos dão a segurança de nossa vida passada; graças a elas nós ainda escutamos nossos velhos falarem. A morte de uma palavra é a morte de um ser vivente e nós devemos protege-las como espécies raras. O pior da mundialização de hoje é a morte da memória, a vida sem passado. Jamais se viu alguém viver sem memória e querem experimentar isso em vocês. Resistam.

A poesia é também um elemento de resistência. Um pequeno poema possui um fantástico poder de resistir, pois desmantelar a língua e a memória que o criaram não é tarefa fácil. É por vezes tenra, fina como um fio: mas quem pode matar um fio? É por vezes frágil, pois é sentimento e tensão: mas quem pode aniquilar um sentimento? Quem pode abolir a força sepultada nesse abrigo de palavras?

Vocês podem pensar, talvez, que os poetas são pastores de uma outra época, seres apaixonados numa época que não valoriza a sentimentalidade. Talvez vocês pensem que a poesia se tornou, com o tempo, o feito de uma seita misteriosa e obscura. Que dirão vocês se aprenderem que os poetas também aguardam a inspiração dos computadores, que sua inspiração mudou com as descobertas da astronomia? Que dirão vocês ao aprenderem que os nomes são tão poéticos quanto as palavras, os automóveis tão belos quanto as árvores, que tudo o que existe, queiramos ou não, é um ser poético?

Imagina-se que nossa época não seja propícia à poesia; mas o que dirão ao aprender que nenhuma outra poesia encontrou tamanha abertura ao imaginário? Basta considerar a astronomia para ver o quanto o livro do céu é esplêndido, tanto quanto qualquer outro arsenal poético; o quanto a epopeia do espaço é a maior das epopeias. Com o desenvolvimento da ciência, o mundo se preenche de intuições. de probabilidades, de cálculos futuristas. Quer dizer que ele se torna muito mais poético, muito mais imaginativo que a própria poesia.

Hoje em dia a ciência é muito mais surpreendente, bem mais extraordinária que a poesia; na competição entre ciência e poesia a imaginação não é mais que o apanágio da poesia. O real excede a poesia, que parece lenta e falível? A poesia não deve se cumprir no seu domínio próprio, sem mísseis nem satélites, o domínio da identidade humana ferida, perdida, excedida tanto pela ciência quanto pela própria realidade? O mundo se torna virtual ao ponto de esquecermos o verdadeiro, esquecermos o sofrimento humano, esquecermos a necessidade simples de amor e solidariedade. Em tudo aquilo que necessita uma longa e tenra gestação, encontra-se a arte da poesia e seu fim. É verdade que o mundo contemporâneo detesta a poesia, diríamos mesmo que ela a despreza, pois, cego pelo prodígio do universo, o mundo contemporâneo despreza a própria humanidade, que ele crê lenta, retardatária à suas descobertas; o homem possui, a seus olhos, menos importância que suas ambições e conhecimentos. Talvez por isso a poesia nos seja necessária, e ainda mais hoje em dia. O ser tem necessidade de cuidados pacientes. O ser, necessitando de cuidados pacientes, tem toda fé humilhada quando se pede que seja apenas uma força no mercado de trabalho e de produção, sempre visto como um instrumento para a eficiência duvidosa, e mais duvidosos ainda, tornam-se os resíduos emocionais e existenciais que herdou-se de tempos anteriores à revolução dos robôs.

Eu escrevo, neste momento, de uma cidade que viveu mais de vinte anos de guerra civil. Eu vi como o indivíduo se torna assassino pelo simples fato de possuir um fuzil; vi como a menor diferença de nome, pronúncia, logradouro, são suficientes para justificar a agressão. Eu vi como os princípios, os valores, os nacionalismos, se tornam programas de eliminação do outro; como as pessoas comuns, presas no fluxo da ferocidade, se tornam colecionadoras de membros humanos . Em sua ferocidade, a humanidade é capaz de ser imperdoável e destruidora de seus valores. Daí vem a necessidade de uma arte inocente que, aconteça o que acontecer, não se torna um instrumento de sangue. Que seja a música, a arte, ou a poesia. Quando Hölderlin fala da inocência da poesia, talvez queria dizer qualquer coisa desse tipo. Temos necessidade de uma arte não agressiva; de uma arte frágil, delicada, incapaz de se transformar em trombeta de guerra. A poesia será uma mercadoria vital, misturada ao leite da criança, aos medicamentos, à pequenas doses cotidianas tratar dos impulsos brutais, ferozes, agressivos do homem.

Os poetas permanecem jovens como os desejos que não se realizam e o poema é antes de tudo um desejo quente e conreto que, de certa maneira, se realiza em palavras. O poema é geralmente impulso (élan), fervor, paixão, canto pelo outro, pelo amigo, pelo companheiro. Brutal, mesmo brutal, ele purifica a ferocidade; atroz, se ele chega ao ser, ele purifica o ódio. Permanece ainda, em todo caso, um ato de amor, ato de inocência; mais ainda, é promessa de um começo: à toda idade, com todo poema, começar é possível. Assim, jovens, podeis começar.

BEYDOUN, Abbas. Les Poètes Restent Jeunes. In. Lettres à la Jeunesse. Dix poètes Parlent de l’espoir. Paris: Librio, 2003.


Tradução e apresentação por Gustavo Racy.

40 visualizações0 comentário