panos surrados, corações à mostra

Atualizado: 27 de jan.


Arte por Rodrigo Corrêa
 

Cavalga num cavalo feito de terra e músculo um arquétipo do combate. Tecido de selva e de fibras de um coração que se mostra sem se insinuar, a persistência da linguagem firme que nos rodeamos para declamar nossa atenção. Nós, criados pela insurgência dessa imagem de rosto coberto e peito à mostra, iniciamos ali a angústia de um nome que sustente todos os nomes, de um rosto que se estenda em todos os rostos, de uma voz que ecoa nossas mesmas vozes ao falar da guerra, da paz e do pão do amanhã. Soubemos cedo que essa cara de todos nós é um pedaço de pano surrado e sangrado da batalha e com isso, renunciamos nossos olhos, nossos nomes e nos tornamos um músculo que pulsa firme nas enseadas do tempo. Subcomandante Marcos, nessa filmagem nunca antes traduzida para a língua portuguesa, fala sobre algo que se enfileira em nossas gargantas esperando pelos muitos outros gritos que se acumulam. “Entre a luz e a sombra” o sobinfluencia não acredita em nada. As bastilhas não nos interessam, nossos arcos nunca triunfaram. Nosso princípio convive com o sangue que lavou o campo, com o braço cansado e quente do sol. Nosso princípio nunca foi um nome, perpetua-se no tempo pelo labor da insurgência. Aprendemos em espanhol que um ser não nasce quando vem ao mundo, nasce quando cobre seu rosto e empunha sua vida em armamento de gatilho certeiro. Nascemos quando não somos. Aqui trazemos a memória de uma fala que clama o contrapelo do que vemos nas telas. Consumindo pra dentro de nossas células a mentira mastigada, nos afastam da durabilidade da verdade - meros corpos perecíveis às imagens rápidas, torpes, inconsistentes. Marcos clama aqui pela verificação da atenção pela verdade. Uma rede de nós, os arqueólogos do presente, em defesa de saber delinear o real para chamar pelo nome - este mesmo que renunciamos - o inimigo que vem.



0:15 Bom, estamos nas montanhas do sudeste mexicano na floresta Lancandon de Chiapas

0:19 e nós queremos usar este meio de comunicação com a ajuda da comissão nacional pela democracia no México


0:26 para enviar nossos cumprimentos para a Fórum de Mídia Livre que está acontecendo em Nova Iorque

0:33 onde estão nossos irmãos e irmãs responsáveis pelos meios de comunicação independente dos Estados Unidos e Canadá.

0:45 Nós pretendemos repetir ou tratar um pouco mais do que dizemos no Encontro Intercontinental pela Humanidade e contra o Neoliberalismo. Nós dizemos que

0:58 nesse processo de decomposição mundial que chamamos de Quarta Guerra Mundial, o neoliberalismo e seu processo de globalização econômica trata de eliminar a maior parte das pessoas que não é produtiva para o capital

1:10 - os grupos chamados “minoritários” -, que na hora de fazer a matemática do poder acabam por demonstrar-se a maior parte da população do mundo

1:15 e nos encontramos com um sistema mundial de globalização que está disposto a sacrificar milhares de seres humanos.

1:25 Neste sentido os grandes meios de comunicação - os grandes monstros da televisão, comunicação via satélite, a imprensa de revistas, periódicos, jornais - boa parte parecem empenhados em apresentar um mundo virtual criado à partir da imagem do que o processo de globalização requer.

2:00 Neste sentido, o mundo da notícia moderna é o mundo que acontece para as “pessoas importantes” - os VIP’s -

2:13 seu cotidiano é o que importa: se casam-se, divorciam-se, se comem, se vestem-se, desvestem-se, das grandes estrelas de cinema, dos grandes políticos. Porém o cotidiano comum das pessoas comuns só aparece nos grandes meios de comunicação no momento em que matam ou são mortos.

2:35 Para os grandes meios de comunicação e para o poder neoliberal no mundo, os outros, os excluídos, só existem quando são mortos, presos ou são perseguidos.

2:49 Isso não pode continuar assim porque quando este mundo virtual finalmente colidir com a realidade mundial e com o que está se passando

2:55 vai produzir efeitos de rebelião e de guerra em todo o mundo, ou o que resta do mundo para ter uma guerra.

3:07 Nós podemos tomar uma atitude clínica frente aos meios de comunicação em aceitar que isso é assim, aceitar que não se pode fazer nada contra esse poder de dinheiro que se expressa em imagens, palavras, comunicação digital e sistemas computadorizados que invadem nossas mentes não com “notícias do mundo” mas com

3:26 uma forma de ver o mundo, só uma perspectiva de poder sobre como deve-se ver o mundo. Podemos finalmente dizer “sim, não temos nada que possamos fazer”.

3:42 Porém, outra atitude que podemos assumir é uma atitude de incredulidade dizendo que tudo que dizem os meios de comunicação dos grandes monopólios é mentira e não nos interessa, nos conformar e continuar com a vida domesticada que temos.

3:55 Há uma terceira opção que não é nem conformidade e nem ceticismo ou a desconfiança. Mas sim se propor a construir outra forma de revelar ao mundo o que realmente está acontecendo em suas diferentes áreas

4:11 e interessar-se com um ponto de vista crítico pela verdade sobre o que ocorre com as pessoas que habitam este mundo.

4:22 Neste sentido é que orienta-se todo o trabalho dos meios independentes por todas as histórias de lutas sociais existentes no mundo e sobretudo na América do Norte e nos Estados Unidos, Canadá e México

4:42 os meios de comunicação independentes tem conseguido abrir espaço até mesmo entre os meios de comunicação massivos dentro dos monopólios

4:46 os obrigando a reconhecer outros processos sociais que se convertem em notícia.

4:55 A questão não é apenas saber o que ocorre em todas as partes do mundo mas sim de entender estes processos e desenvolver as lições que saem deste entendimento

5:03 como se estivéssemos estudando história, porém não uma história passada, mas sim o que está ocorrendo neste momento em qualquer parte do mundo. Esta é a maneira de aprender quem somos e o que queremos; o que podemos ser e o que nos pode acontecer se fizermos uma coisa ou se fizermos outra coisa.

5:19 O papel dos meios de comunicação independentes é não responder as grandes empresas e aos grandes monopólios; seu projeto de vida, sua função e projeto político é dar a conhecer o que ocorre.

5:38 É cada vez mais importante neste processo de globalização se converter em um nó de resistência contra a mentira; é nossa única possibilidade de proteger a verdade, mantê-la e difundi-la

5:54 como a imagem dos livros sendo salvos em Fahrenheit 451 em que um grupo de pessoas dedica-se a memorizar os livros para que não sejam destruídos e não se percam

6:03 igual aos meios de comunicação independente tratam de guardar a história - a história do presente - cuidá-la, e tratar de fazer com que não desapareça da melhor forma possível, que é difundindo-a em outros lugares.

6:22 e este trabalho, sobretudo frente ao processo de globalização que há no mundo, não pode limitar-se a uma nação, país, região de um país, uma cidade ou grupo social

6:33 é necessário que estes grupos independentes possam ajudar-se, não apenas para trocar informações ou ampliar seus canais de comunicação mas para conseguir resistir ao avanço da mentira que se promove por meio dos grandes monopólios

6:49 a verdade que construímos em nossos grupos sociais, nossas cidades, nossas regiões, nossos países se potencializa ao relacionar-se com outras verdades e reconhece que o que está ocorrendo em outras partes do mundo também forma parte da história da humanidade

7:07 e neste sentido, nós nos encontramos no Encontro Intercontinental pela Humanidade e Contra o Neoliberalismo em agosto de 1996, nos propusemos a criar uma rede de meios de comunicação independentes, uma rede de informação. Estávamos pensando em uma rede capaz de resistir ao poder da mentira e do engano que se empenha em vender esta guerra que chamamos de Quarta Guerra Mundial.

7:35 Necessitamos desta rede não apenas para nossos movimentos sociais mas também este projeto de vida, este projeto político, projeto de humanidade que detém o direito de informação e crítica verdadeiras.

7:48 Nós queremos saudar todos vocês, reconhecer o trabalho que fazem não apenas para que a luta dos povos indígenas seja reconhecida mas todas as outras lutar se tornem reconhecidas e que os acontecimentos mundiais possam ser vistos de uma forma crítica.

8:09 Esperamos que sua reunião tenha êxito e possa se concretizar em acordos que solidifiquem estes intercâmbios, apoio mútuo, que deve existir entre os trabalhadores da cultura e dos meios de informação que trabalham de forma independente.

8:26 Esperamos que pessoalmente possamos algum dia nos presentificar nesta reunião ou que no pior dos casos algum dia possam fazer esta conferência aqui em nosso território onde possamos escutar suas palavras e sermos escutados pessoalmente.

8:42 Por enquanto nos aproveitamos do apoio da comissão nacional pela democracia e este sistema de vídeo para poder enviar esta saudação

8:56 [Em inglês: good luck. I don’t know if my English is ok but: good luck and so long. Cut!] Boa sorte. Não sei se meu inglês está razoável porém: boa sorte e até logo. Corta! Texto e tradução de Fabiana Vieira Gibim. Notas: * Organizado pelo Exército Zapatista no águasquentes de Oventic, em Chiapas. O encontro foi celebrado entre 27 e 30 de julho de 1996 e dele participaram aproximadamente 5 mil pessoas provenientes de 42 países diferentes.



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