por que ler sem esperança

Atualizado: 2 de mar.


Denis Oppenheim. Rocked hand 1970. Still from 8mm film.

A democracia é uma elaborada política de extermínio; a política eleitoral uma espera ansiolítica, o que fazer com os afetos apaixonados que reunimos deste fogo que queima entre nós? Um apelo de esperança que entoam aos cantos nos soa como uma confiança no curso da história - mas seria ele algo a confiar?


1.1. TESE 1: Abandone a cronologia Fogos não são elementos naturais básicos, são eventos de combustão, encontros potentes o suficiente para gerar uma quebra no estado de normalidade entre os outros elementos. A letargia da modernidade é quase uma epopéia burguesa da formação de um corpo tedioso, alimentamos nossas esperanças forçadas pelo desespero - o que significa entregar-se à esperança de uma história carcomida? Qual é o amparo que se presta às mãos calosas de quem constrói os próprios túmulos quando crê-se na esperança? A fatiga do mínimo, da crença inerte, da confiança pontual em eventos messiânicos como as eleições, são fardos mais pesados do que o abandono de nossa miséria. É preciso o abandono para o laboratório da possibilidade de combustões. É preciso criar o evento, maquinar os elementos, sustentar num alarde as frustrações. Entre a vitória hermética e viciada e o conforto na miséria, é preciso escolher experimentar a vida impossível.

1.2. TESE 2: O livro não te conta nada da vida - é uma ferramenta de combate Não é suficiente viver de peito cheio, imaginamos nossa retomada do mundo pelo que nos é tomado, bem como não é suficiente enxergar na matéria algo a perpetuar. O livro é um arsenal infame, sussurrando o seu próprio rasgo, incitando energético um breque fundamental - a história é feita para o triunfo, você para perder a valsa da vitória e o livro para oracular uma insurreição de contágio, para te assumir o lugar propositivo de um incêndio, não a disputar uma narrativa falsificada que com a voz fraca nos conta de um futuro coroado. A cronologia mente. Cabe ao projétil cortar a carne do credo do progresso; pelo livro espiamos no furo chapiscado o teor de nossa tarefa revolucionária. Com a cabeça afundada na teocracia da vitória, somos alienados da combustão criadora da vida, é preciso assumir a queda e a emergência que a palavra propõe. É preciso ler uma palavra rara e inaudita que atravessa à contrapelo. O livro não te conta nada da sua vida, te convida ao empenho de tomá-la.

1.3. TESE 3: O livro como a experiência do movimento comum O cerco vertiginoso da esperança nos coloca em uma inação satisfatória mutuamente para o curso da história e para nossa sensação de agenciamento. É insuficiente ler para crer na vitória, é preciso nos servir de nossa aposta arrazoada de consciência do perigo e “recorrência do desastre”. O livro compartilha um espaço imaginário revoltoso, ausente de fé, as ideias comuns se movem girando melancólicas e enfurecidas, onde há devastação do possível é que se nutre o ritual do improvável, uma besta cataclísmica que arfa sem confiar no progresso, é preciso soltá-la para brecar a vida medíocre da história dos heróis. O livro nos incita um ritual do comum, espaço de análise à luz negra onde ler é o cansaço suado de um combate insubmisso, inspirado no perigo e na potência alquímica de abandonar a esperança. É preciso nutrir os elos e abandonar os credos que estimam nossa espera. Não podemos esperar, é preciso acionar o “freio de emergência”.

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