por um antiespecismo crítico e anticapitalista

Atualizado: 28 de jul. de 2021


Colagem por Alex Peguinelli

último crime: A intenção dessa coluna é trazer material crítico, preferencialmente inédito em nossa língua, para contribuir com as discussões que permeiam seres não humanos e humanos em sua luta pelo fim da exploração do trabalho, sua busca por autonomia e a superação do modo de produção em que [sobre]vivemos. Os textos que publicados neste espaço examinam as diferentes relações estabelecidas, na história e no momento atual, entre animais humanos e os animais não-humanos, dentro da perspectiva dialética, materialista histórica e anticapitalista.

 

Esse texto busca apenas ser uma introdução a uma questão de maior urgência, qual seja: a necessidade de abolirmos toda relação de exploração - e mais do que isso, de naturalização dessa exploração - que construímos ao longo de séculos, enquanto animais humanos, em relação aos animais não-humanos.


Mais do que apresentar o tema, esse breve ensaio propõe uma crítica à visão supostamente apolítica do veganismo, que tenta afastar a intrínseca relação entre modo de produção e vida política, bem como à visão liberal, que entende não haver impedimento em vislumbrar um mundo futuro livre da exploração animal (humana e não-humana) e, ao mesmo tempo, ter uma ideologia marcadamente capitalista.


Antes de mais nada, temos que levar em conta que um purismo teórico por si só, distante de uma análise que, dialética e obrigatoriamente, deixa de levar em conta o contexto de uma sociedade nitidamente especista está longe de nos fazer chegar a mudanças concretas. Por este motivo, alguns comentários prévios se fazem necessários.


Devemos tomar consciência de que vivemos em uma sociedade que, historicamente, erigiu-se com base na exploração do trabalho, seja ele humano ou não-humano. E, falando especificamente em relação aos animais não-humanos, é de se perder de vista as diversas, criativas e cruéis formas que o engenho humano criou para explorar a força de trabalho desses seres. E, com o surgimento do capitalismo, mais do que nunca, é certo que os animais não-humanos passaram a ser vislumbrados como meras mercadorias, desprovidas de consciência própria, vida subjetiva (ou seja, autonomia) e incapazes de sentir desejos e emoções. De certa forma, objetos que passam a receber um valor de mercadoria quando se apresentam ao mercado.


Mas isso não é novidade, convenhamos, pelo contrário: quando estamos a falar de capitalismo, ser tratado como mera mercadoria é a primeira e a mais essencial regra, seja você um animal humano ou um animal não-humano.


Assim, temos que o especismo (assim como o classismo, o racismo, o sexismo) é um aspecto estrutural da sociedade em que vivemos. Pessoas veganas que, apesar de abolir a utilização de exploração animal não-humana de suas vidas, de todas as maneiras possíveis, não realizam uma crítica do modo de produção em que vivemos e das bases estruturantes de nossa sociedade, terão que contentar-se apenas em apagar alguns incêndios focalizados.


Isso quando, no intuito de apagar um incêndio, acabam por produzir um outro, muito maior — haja vista pessoas veganas que pregam que deveríamos realizar testes de fármacos em presidiários, pessoas veganas que enxergam no punitivismo a solução ideal para qualquer tipo de desvio social, pessoas veganas que se deliciam com produtos industrializados colocados no mercado por grandes multinacionais (que também vendem da carne aos ossos de animais não humanos) e, por fim, mas não menos importante, pessoas veganas que acreditam que vão salvar seus países por meio do voto (para não falar especificamente de eleitores de uma agenda marcada essencialmente pela necropolítica militarizada e institucionalizada).


Isso porque, na ausência de consciência política e consciência de classe, essas pessoas veganas acríticas se deixam mover pelo mais raso sentimentalismo e, acreditando fielmente estarem contribuindo para o avanço da sociedade rumo à igualdade entre os indivíduos que habitam este planeta, sejam eles humanos ou não-humanos, apenas reforçam um veganismo elitista, classista e, muita das vezes, abertamente racista — pensemos nas pessoas veganas que são contra a utilização de animais em rituais religiosos, mas apontam todas suas críticas em direção às religiões de matriz africana, esquecendo propositalmente de apontar a utilização de animais não-humanos em tantas outras religiões, sejam muçulmanas ou cristãs (discussão essa que, por si, renderia muitos outros textos à parte, não cabendo agora um maior aprofundamento).


Consciência política é necessária, porque só assim nos tornamos aptos a tomar atitudes coletivas que, de fato, são capazes de modificar as bases da estrutura especista em que se solidifica nossa sociedade. Consciência de classe, porque necessitamos compreender de uma maneira contextual e dialética, de onde nossa luta parte e para onde queremos que ela caminhe.


Assim, a proposição de medidas punitivistas, ou nitidamente bem-estaristas (reformistas), não fará o solo debaixo de nossos pés mexer-se. E sem que o solo debaixo de nossos pés se mova, em pé se manterá toda a estrutura especista que, diariamente, transforma vidas em assombrosos lucros para empresas privadas.


Por tal motivo, é preciso que se entenda que a luta pela libertação animal não-humana está intrinsecamente ligada à destruição do modo de produção capitalista.


Isso porque, seria um paradoxo manter as estruturas especistas que funcionam como base de nossa sociedade e, ao mesmo tempo, procurar por igualdade material para os animais não-humanos. Ora, pensemos em um castelo de cartas, não há maneira de retirarmos as bases que sustentam todo o castelo (animais não-humanos explorados, classe operária, mais-valor, exploração social do trabalho, exploração do trabalho não pago, etc) sem fazer com que a estrutura, como um todo, venha abaixo. Assim, o fim da exploração animal não-humana necessita focar suas atividades de militância em disposições que busquem substituir a estrutura especista por uma estrutura social que reconheça esses seres não-humanos como subjetividades dotadas de consciência, autonomia e interesses próprios que não podem, de maneira alguma, serem violados.


Nesse sentido, nosso principal alvo precisa, necessariamente, ser o mercado. Seja o mercado agropecuário, que está ligado não só a exploração de animais não-humanos, mas também à utilização de trabalho humano escravo e situações de trabalho extremamente degradantes, aptas a insensibilizar, quando não, adoecer e matar, um sem número de indivíduos que são, por conta do contexto material em que estão inseridos, obrigados a aceitar empregos precários e desumanos. Mas não só, devemos também atacar o mercado de animais domésticos, o mercado de animais criados para a experimentação científica, o mercado de animais criados para divertimento humano, entre tantos outros que tem por estrutura o especismo.


É preciso empreender um esforço no sentido de compreender onde encontram-se as fissuras no capital, que insiste em transformar vidas em mercadorias, para enfim cavarmos em conjunto esforço a destruição desse modo de produção.


Ademais, precisamos ter em conta que o veganismo, no mundo em que vivemos, é um privilégio, mas não por questões econômicas, visto que a soberania alimentar é atingida de maneira muito mais eficaz por meio de uma alimentação livre de exploração animal não-humana. O veganismo é um privilégio em relação ao acesso ao conhecimento necessário para uma tomada de posição, visto que, no mundo em que vivemos, a possibilidade de criação de uma consciência de classe, infelizmente, não é igualitária diante da disparidade socio-econômica em que vivemos.


E aqui, precisamos ter cuidado para não cairmos num elitismo classista intelectual, não se trata disso, trata-se meramente de analisar o contexto social em que vivemos e entender que o acesso ao conhecimento é, indubitavelmente, desigual de uma maneira generalizada. Ou seja, existem classes sociais que conseguem ter acesso à informações que possibilitam a tomada de posição em relação à libertação animal, enquanto outras classes possuem uma dificuldade material imensamente maior para acessar os mesmos conteúdos.


E isso se dá, essencialmente, por conta da maneira em que a sociedade capitalista organiza seu modo de produção. Novamente, somente podemos afirmar tal ponto de maneira contextual e genérica. Também por esse motivo é que o foco de pessoas veganas deve ser o ataque às estruturas especistas que exploram animais não-humanos como meras mercadorias. Isso porque a destruição desse modelo de sociedade acarreta, em seu processo, a tomada de consciência política e de classe necessária para que as pessoas criem uma autonomia indispensável a ensejar a mudança de um hábito tão enraizado quando a exploração animal não-humana.


Por este motivo, é necessário sempre relacionarmos as explorações no mundo capitalista, das diversas formas em que costumam aparecer: seja por meio da objetificação de um animal não-humano, seja por meio da extração de mais-valor, seja por meio da propriedade privada dos meios de produção, seja por meio do encarceramento em massa, seja por meio da redução, quando não retirada, de direitos historicamente conquistados pela classe trabalhadora, seja por meio da manutenção do patriarcado, etc.


Afinal de contas, são todas essas cartas, em conjunto, que sustentam a edificada, porém frágil, estrutura do capital.


Também por este motivo, é necessário que as pessoas que se engajam em pautas progressistas, sejam elas revolucionárias ou meramente reformistas (há um oceano de distância entre essas pautas e aqui, simploriamente, estão sendo citadas sem um maior embasamento crítico, até mesmo porque encaram a questão animal de maneira semelhante) tenham em consideração que, a abolição da exploração dos animais não-humanos é essencial, não só porque busca ampliar nossa esfera de consideração moral, mas também porque está, de maneira inerente, relacionada à exploração humana, em suas mais diversas formas (e aqui nem trataremos da questão ambiental, limitando-nos à esfera de exploração do capital em relação ao trabalho).


Ora, a manutenção de toda a estrutura especista engendra a manutenção de situações de exploração de seres humanos. Não sendo possível falar em reforma de uma organização que, em primeiro lugar, não está apta, por conta da demanda (milhões de animais precisam ser, diariamente, assassinados), em organizar-se de maneira distinta, que não como indústria intensiva de exploração (lutar pelo bem-estar animal é o mesmo que lutar por melhores condições de exploração do ser humano pelo ser humano, por exemplo. E, da mesma forma, acreditar que cada família seria capaz de criar e abater seus próprios animais não passa de um argumento utópico).


Em segundo lugar, a indústria em torno da exploração animal é também uma indústria da exploração do trabalho humano na sua mais perversa forma, obrigar que seres humanos trabalhem assassinando diariamente outros seres, vivendo em meio a situações precárias de trabalho, desenvolvendo doenças psicológicas graves, trabalhando muitas vezes em situações análogas à escravidão, significa colaborar com a manutenção do status quo social.


Há muito mais a ser dito, no entanto, esse texto tem meramente um caráter crítico introdutório, trazendo ao pensamento o modo pelo qual estão intimamente relacionadas as diversas maneiras utilizadas pelo capital a fim de extrair, em última instância até o osso de suas vítimas, o seu precioso lucro. De tal sorte, esse breve ensaio permanece em aberto, em busca de apontamentos hábeis a construir, em conjunto, uma luta estruturalmente anticapitalista e, consequentemente, antiespecista, anticlassista, antiracista, antisexista. Somente quando pessoas veganas militantes passarem a olhar, tanto separadamente, para cada uma das cartas que compõe as bases e estrutura, bem como para o castelo do capital em sua totalidade, é que seremos capazes de promover uma luta concreta hábil a trazer igualdade material para todos os seres que, conosco, dividem esse planeta, comumente chamado de lar.

 

postscriptum I: apontamentos, críticas, sugestões, que busquem construir um diálogo são mais do que bem vindos e podem ser encaminhados para: antiespecismocritico@gmail.com. Afinal de contas, como dito, esse texto é meramente um panorama um tanto quanto genérico e introdutório acerca dos imbricados e distintos meios de exploração do capital sobre o animal humano e não-humano.


postscriptum II: o Antiespecismo Crítico é um coletivo de pessoas que trabalha na elaboração, estudo e tradução de escritos que tratam a libertação animal enquanto luta anticapitalista. Acesse nossa página para saber mais, medium.com/@antiespecismocritico.

 

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