primeira nota sobre o objeto






A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores. Por Natan Schäfer




Texto publicado por Jean Schuster (1929 - 1995) na revista Bief nº 12 de 15 de abril de 1961. Jean Schuster foi diretor da revista Médium e redator-chefe da revista Le surréalisme, même. Desde o início de sua participação no movimento surrealista, aproxima-se dos comunistas dissidentes e da ala mais crítica da esquerda de então. Foi o executor testamentário de André Breton e encarregado por ele da manutenção dos arquivos surrealistas e da direção da revista L’Archibras, publicada após sua morte. Jean Schuster foi um dos líderes do movimento interno que propunha a malfadada autodissolução do movimento surrealista em 1969, marcada pela publicação do artigo “O quarto canto” no jornal Le Monde em 4 de outubro de 1969.

Com frequência a mão ignora o que é perscrutado pelos olhos. O que é conhecido pelo coração contém por sua vez, na oscilação das coisas, esse mesmo coração sobre o qual dizemos que bate. O espírito investe o objeto, mas o objeto guarda seu segredo e é ele que dá sua cor ao espírito e o decifra. O espírito tem a cor e a forma de um número limitado de objetos, absorvidos ao longo do tempo, por petição de princípio. O conhecimento se dá às avessas. O objeto está em postura irônica em relação ao espírito e lhe empresta sua carcaça visível para melhor ocultar sua substância e seu movimento. O movimento se dá de acordo com uma gramática à qual o homem é surdo, pois ele acredita na sua ciência, inventário de si mesmo e dos objetos, ciência do reflexo, da circunstância e da prova. O mundo dito real, aquele do homem triunfalmente ornado pelas carcaças do objeto, é um aspecto débil do mundo imaginário. Um pacto sancionou o simulacro. A cada dia que passa o poeta mutila uma cláusula do documento.


Por Jean Schuster Traduzido por Natan Schäfer

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