primeiro julgamento: a comuna

Atualizado: 4 de mar.



Publicamos aqui um pequeno trecho do julgamento de Louise Michel que faz parte do nosso livro “Tomada de Posse”, escrito pela autora. Vida longa à Comuna e seu legado!

 

Anais da Gazette des Tribunaux. Sexto Tribunal Militar. Presidido por M. Delaporte, Coronel da 12a. Cavalaria. Audiência de 16 de Dezembro de 1871.

(…) Como secretária da conhecida organização dedicada à “melhoria das operárias por meio do trabalho”, Louise Michel organiza o famoso Comitê Central da União das Mulheres, bem como comitês de vigilância responsáveis pelo recrutamento de paramédicos e, nos momentos finais, de trabalhadoras para atuar nas barricadas, talvez até mesmo mulheres incendiárias.

Uma cópia do manifesto, encontrado na prefeitura do 10ème arrondissement, revela o papel desempenhado por Michel nos comitês antes mencionados, durante os últimos dias do conflito. Reproduzimos o texto de modo literal:

“Em nome da revolução social que proclamamos, em nome da reivindicação dos direitos de trabalho, igualdade e justiça, a União das Mulheres pela Defesa de Paris e pelos Cuidados dos Feridos se opõe com toda sua força à ultrajante proclamação aos cidadãos, publicada antes de ontem, por um grupo de reacionários.

“Esta proclamação sustenta que as mulheres de Paris apelam à generosidade de Versalhes e demandam paz a todo custo.

“Não, não é a paz que as mulheres trabalhadoras de Paris exigem, mas sim a guerra até a morte.

“Hoje, conciliação seria traição. Seria renunciar a todos os anseios da mulher trabalhadora que exige a revolução social absoluta, a aniquilação de todas as relações jurídicas e sociais existentes atualmente, a abolição de todos os privilégios, toda exploração, a mudança do reinado do trabalho pelo capital. Em uma ordem: a emancipação do trabalhador pelo próprio trabalhador!

“Seis meses de sofrimento e traição durante o cerco, seis semanas de árduas lutas contra os aliados aproveitadores, as ondas de sangue derramadas pela liberdade - são estes nossos títulos de glória e vingança!

“A luta atual só pode ter como resultado o triunfo da causa popular (…) Paris não recuará, pois carrega a bandeira do futuro. Chegou a hora derradeira! Abram alas para as trabalhadoras! Para trás com seus torturadores! Ação! Energia!

“A árvore da liberdade cresce, regada com o sangue de seus inimigos!

“Todas unidas e inabaláveis, criadas e esclarecidas pelo sofrimento que as crises sociais lhes causaram, profundamente convencidas de que a Comuna, representando os princípios internacionalistas e revolucionários do povo, traz em si as sementes da revolução social, as mulheres de Paris provarão à França e ao resto do mundo que elas também saberão, como sabem seus irmãos, no momento de maior perigo, nas barricadas e no muros de Paris, se a força contrária ameaçar romper os portões, dar seu sangue e sua vida para a defesa e o triunfo da comuna, que é também o triunfo do povo! Assim, vitoriosos, até mesmo ao se unirem e compreenderem os interesses comuns uns dos outros, homens e mulheres trabalhadoras, todos solidários por um último esforço (…)” [Esta frase final permaneceu incompleta].

“Vida longa à República Universal! Vida longa à Comuna!” Louise Michel agitava as paixões das massas, pregava guerra sem piedade e descanso e, como uma loba faminta por sangue, causou a morte dos reféns através de seus esquemas diabólicos. Consequentemente, há bases para julgar Louise Michel pelos seguintes:

  1. Crime com objetivo de derrubar o governo;

  2. Crime com o objetivo de causar a guerra civil, encorajando os cidadãos a se armarem uns contra os outros;

  3. Crime de porte ilegal de armas explícito, por razões insurrecionais, tendo delas se servido e tendo trajado uniforme militar;

  4. Crime de fraude - escrita de terceiros por meio da falsificação de identidade;

  5. Crime de falsidade ideológica - uso de documento falso;

  6. Cumplicidade, mediante conspirações e incitações, no assassinato de pessoas mantidas reféns pela Comuna;

  7. Cumplicidade nas prisões ilegais, seguidas de tortura física e assassinato, auxiliando conscientemente os autores dos crimes nos atos por eles praticados.

Tais crimes estão previstos nos artigos 87, 91, 150, 151, 59, 60, 302, 341, 344 do Código Penal e no artigo 5º da Lei de 24 de maio de 1834.

Interrogatório da Ré

Juiz: Você escutou os atos de que é acusada. O que você tem a dizer em sua defesa?

Ré: Eu não quero me defender. Eu não quero ser defendida. Pertenço inteiramente à revolução social e declaro que aceito a responsabilidade por todas as minhas ações. Eu as aceito completamente e sem qualquer reserva. Você me acusa de estar envolvida no assassinato dos generais? A minha resposta para essa acusação é sim. Se eu estivesse em Montmartre quando quiseram atirar no povo, eu não teria hesitado em abrir fogo naqueles que deram ordens como aquela. Entretanto, não compreendo a razão de terem sido baleados, uma vez que haviam sido feitos prisioneiros, e considero isso um notável ato de covardia! Quanto à queima de Paris, sim, eu participei em tal ato. Era minha intenção criar uma barreira de fogo para impedir os invasores de Versalhes. Eu não tive nenhum cúmplice, agi por conta própria. Também sou acusada de ser cúmplice da Comuna! É claro que sou, uma vez que o que a Comuna queria acima de tudo era a revolução social, esta que é também o meu desejo mais profundo. Além disso, sinto-me honrada em ser considerada como uma das agentes da Comuna que, em todo e qualquer caso, não esteve envolvida, como vocês bem sabem, com os assassinatos e os incêndios: participei de todas as reuniões do Hotel de Ville e afirmo que jamais houve qualquer hipótese de assassinato ou incêndio. Querem saber quem são os verdadeiros culpados? A polícia. Mais tarde, talvez, a luz brilhará sobre esses eventos a respeito dos quais hoje é tão natural culpar os partidários da revolução social. Um dia eu propus à Ferré uma invasão à Assembleia. Eu queria duas vítimas, M. Thiers e eu mesma, pois teria sacrificado minha vida e havia decidido derrotá-lo.

J: Em seu pronunciamento, você diz que a cada vinte e quatro horas um refém deveria ser baleado?

R: Não, minha intenção era apenas ameaçar. Mas, por que eu me defenderia contra isso? Eu já lhe disse que me recuso a fazê-lo. Vocês são os homens que me julgarão; estão abertamente diante de mim; vocês são homens e eu… eu sou apenas uma mulher. No entanto, eu olho diretamente em seus olhos. Sei muito bem que qualquer coisa que eu diga não mudará minimamente a sua sentença. Desta forma, eu tenho uma única coisa a dizer antes de me sentar. Nós nunca quisemos nada além do triunfo dos princípios da Revolução. Eu juro por nossos mártires caídos nos campos de Satory, por nossos mártires que saúdo abertamente e que, um dia, encontrarão sua vingança. Mais uma vez, eu pertenço a vocês; façam comigo o que quiserem. Tirem a minha vida se quiserem. Não sou a mulher que disputaria seus desejos nem por um instante.

J: Você declara não aprovar o assassinato dos generais, porém, é dito que quando teve conhecimento do crime, exclamou: “Eles foram baleados. Serve-lhes bem.”

R: Sim, eu admito ter dito isso. (Lembro, inclusive, que o fiz na presença dos cidadãos de Le Moussu e Ferré).

J: Então você aprova o assassinato?

R: Se me permitem, o que eu disse não é prova alguma. As palavras que proferi visavam encorajar o impulso revolucionário.

J: Você também escreveu em jornais. Em Le Cri du Peuple, por exemplo?

R: Sim, não escondo isso.

J: Todos os dias estes jornais exigiam a tomada dos bens do clero e outras medidas revolucionárias similares. Estas eram, então, opiniões das quais você compartilhava?

R: Claro que sim. Note, entretanto, que nunca quisemos tomar estes bens para nós mesmos. Pensamos apenas em entregá-los ao povo para seu bem-estar.

J: Você demandou a abolição dos Tribunais?

R: Pois eu sempre tive exemplos de seus erros. Lembro-me do caso Lesurques e de tantos outros.

J: Você confessa o desejo de assassinar M. Thiers?

R: Certamente… Já o confessei e volto a fazê-lo. (…) Tradução de Fabiana Gibim.

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