princípio de equivalência e sua média elevada

Atualizado: 17 de jul. de 2021



A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores. Por Natan Schäfer


 

Jehan Mayoux (Cherves, 1904 - Ussel, 1975) foi um poeta e libertário que juntou-se ao grupo surrealista de Paris no início de 1933, enviando um texto-collage a André Breton e Paul Éluard, publicado por eles no número 5 da revista Le surréalisme au service de la révolution. Ao recusar-se a alistar-se no exército na segunda grande guerra, Mayoux é condenado a cinco anos de prisão. Foragido, é capturado pelas autoridades de Vichy e deportado pelos alemães à Ucrânia. Apesar disso, segue inelutavelmente insubmisso e cheio de bons-humores até 1975. Não por acaso, Mayoux torna-se, na palavras de Alain Joubert, “grande amigo de André Breton, [e] cúmplice privilegiado de Yves Tanguy e Benjamin Péret”. Suas obras completas foram publicadas pelas edições Peralta, em 1976. Até onde temos notícia, a tradução de “Princípio de equivalência e sua média elevada”, texto originalmente publicado na primeira edição da revista La Brèche (dirigida por André Breton), em outubro de 1961, é o primeiro escrito de Jehan Mayoux publicado em português.

 

Princípio de equivalência e sua média elevada

1. Manipulação O operador escolhe uma maçã de boa qualidade; a reineta do Canadá, no começo da primavera, é sem dúvida a mais adequada ao caso, porém contanto que se escolha um espécime bem formado, quase todas as variedades de maçã podem ser utilizadas. Caso utilize-se uma lâmina de dimensões suficientes e bem afiada, é relativamente fácil, mediante uma prática razoável, de obter-se, através de um corte rigorosamente reto, duas metades de maçã idênticas.

2. Banalidade Tomando a metade esquerda entre o polegar e o indicador da mão direita e a outra metade entre os dedos correspondentes da mão esquerda, você conseguirá aplicar com facilmente as duas superfícies cortadas uma sobre a outra, fazendo-as coincidir com exatidão. A maçã reaparece inteira; só uma linha imperceptível informa os iniciados que ela compõe-se de duas metades (mas qual maçã ainda não traumatizada não comporta duas metades?).

3. Experiência Ao invés de reconstituir a maçã por aplicação direta, podemos fazê-lo com a interposição de uma lâmina de vidro. A segunda metade da maçã, situada além da tela transparente em relação aos espectadores, é tão visível quanto no caso precedente. As duas metades estão, de fato, separadas por um intervalo correspondente à espessura do vidro e não podemos dizer que elas estão literalmente grudadas; mas para cálculos teóricos consideraremos que este distanciamento, reduzido a quase nada graças ao emprego de um vidro extra-fino, é nulo.

4. Dificuldade Podemos reproduzir a experiência substituindo o vidro por uma placa opaca pintada com alguma substância fosca qualquer. Fazemos então as seguintes constatações: a) A segunda metade da maçã, situada além da tela, fica invisível para o observador situado à frente da tela. b) esta metade posterior pode ser retirada sem que os fenômenos observados modifiquem-se: sua presença ou ausência não exercem nenhuma consequência sobre o espectador. Nota. Ao colocar as duas metades em posições simétricas com relação à sua separação (cuja espessura teórica, lembramos, deve ser considerada como nula), realizamos uma ilustração concreta do adágio: “verdade aquém, erro além”.

5. Homologia Uma vez adquirido o mecanismo de substituição, nada nos impede de realizar as operações já descritas utilizando um espelho plano cuja face reflexiva será voltada na direção do ou dos espectadores. Estes podem constatar: a) que, uma vez que as duas metades foram colocadas em seus lugares, a maçã aparece reconstituída (como no número 3), sempre sujeita a uma pequena falha, teoricamente desprezível; b) que, se retiramos a metade posterior, o aspecto da maçã, do modo como ela é visível para eles, não é alterado. O fenômeno é sistemático daquilo que foi assinalado mais acima no número 4. a): enquanto a metade presente permanecia invisível, neste momento a metade ausente continua visível. Certos comentadores chegarão ao ponto de dizer que não há somente simetria, mas sim identidade: tanto num como noutro caso a presença ou ausência da metade posterior não modifica em nada aquilo que pode ser observado pelo espectador; ausente ou presente no primeiro caso, ele não a vê; presente ou ausente no segundo, ele a vê.

6. Peripécia Mais frequentemente do que poderíamos acreditar acontece de uma das metades da maçã desaparecer ao longo da manipulação: ela é furtada por uma criança ou um macaco em meio ao público, comida pelo próprio operador distraído depois de cortá- la em quatro partes, etc… O mais simples a fazer-se nestes casos é rapidamente modelar uma metade de maçã postiça em miolo de pão.

APLICAÇÃO Vemos de imediato a envergadura teórica desta série de experimentos. Antes de tirar o partido ofensivo que ela nos oferece, assinalemos um dos serviços práticos que ela pode prestar-nos. Ela permite resumir com clareza e elegância tudo que os homens disseram e escreveram sobre a alma ao longo de seis mil anos: Se a alma existisse, ela não deixaria de ficar invisível como a metade de maçã presente no número 4. a); Se a alma não existisse, ela seria visível como a metade ausente no número 5. b).


Tradução de Natan Schäfer

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