quando o juiz entrou, ninguém se levantou

Atualizado: 2 de mar.


Colagem por Fábio Bá


Já fazia 12 anos que Ricardo Flores Magón havia deixado o México para viver nos EUA, onde ele acreditava que não seria perseguido brutalmente pelas forças ditatoriais mexicanas. Nesse momento, o ano de 1916, ele encontraria uma lutadora que iria ajudá-lo a sair de uma de tantas prisões que sofreu durante sua vida e também onde deparou-se com sua morte poucos anos depois. Já bastante conhecida do público geral estadunidense e das fileiras políticas libertárias do mundo, essa senhora, então com seus 47 anos e que ainda possuía um vigor e uma energia tão grande que criava admiração aos jovens camaradas, chamava-se Emma Goldman.

Flores Magón, nascido em Oaxaca, filho de povos milenares da região, não saberia que muitas décadas após sua morte, o levante Zapatista de Chiapas trazia nas mãos sementes da sua vida revolucionária.

Ricardo, acompanhado sempre de seu irmão Enrico, que já havia lhe salvado a vida de um assassino contratado pela ditadura de Porfírio Diaz, no México, encontravam-se presos na prisão de Los Angeles. O crime era o de terem enviado "materiais indecentes" por meio do correio dos EUA. Tratava-se do seu jornal Regeneración que, fundado em 1900, havia sido o instrumento contrário mais severo à ditadura de Diaz e uma das principais vozes para a organização da luta dos trabalhadores durante toda a existência.

Magón, nos primeiros anos de vida, conviveu com povos que viviam tradições comunalistas na Serra Mazateca, povos que nunca acataram a dominação espanhola e que ainda resistem em suas terras. Quando a família mudou-se para a capital e aos seus olhos todo o aparato corrupto e imoral do Estado ficou nu e cru, resistir à propriedade capitalista tornou-se algo incorporado de sua infância e que caminharia em sua trajetória de radicalização intelectual.

A Califórnia, na altura de sua prisão, tinha todo seu aparato burguês empenhado no desmantelamento dos sindicatos de trabalhadores. Após a explosão de uma bomba em 1910 no prédio do Los Angeles Times, todos os líderes sindicais do país tiveram suas vidas cerceadas pela perseguição do Estado.

Os irmãos McNamara's, do Iron Workers Union (Sindicato dos Trabalhadores do Aço), confessaram a autoria do atentado num acordo que envolvia não serem sentenciados à morte e que as acusações não se estendessem à mais membros sindicais. No entanto, não foi suficiente, isso porque, apenas no Iron Workers Union, 46 pessoas foram levadas à julgamento e as garras do Estado colocavam mais e mais condenações numa fila longe de acabar.

O detetive William J. Burns empregava métodos que envolvia infiltrados em círculos anarquistas e entre um desses casos, Goldman esteve bastante próxima.

O filho de uma companheira de muitos anos tinha sido convencido a trabalhar para Burns, o que rendeu em mais um caso de prisão perpétua, apenas sob a palavra do infiltrado, sem outras provas. Emma acompanhava o julgamento que decorria em Los Angeles. Matthew Schmidt, ao ver seu destino já selado pela justiça, não deixou que seu espírito quebrasse e usou seu longo discurso final para estabelecer as causas por trás da guerra social.

Os irmãos Magóns, desde o princípio do exílio, mantinham contato com as lutas decorrentes no Mexico. Ricardo Flores Magón mantinha também conversas com revolucionários europeus. É dele a tradução ao espanhol de "A conquista do Pão", de Kropotkin, que chegou até seu companheiro Emiliano Zapata e ao seu grupo. No presente 1916, a casa dos Magóns foi invadida pela polícia e foram levados à cadeia com uma fiança estabelecida em dez mil dólares. O valor altíssimo não permitiu aos seus companheiros próximos, todos muito pobres, juntar o montante para sacá-los de lá.

Emma, nas suas incansáveis turnês de palestras e sempre próxima de muitas figuras progressistas no país, começou uma campanha juntamente com Alexander "Sasha" Berkman para poder soltar os irmãos Magóns.

Foi uma tarefa árdua pois a influência da burguesia mexicana nos EUA era forte. A imprensa foi convencida que o "problema" vindo do México poderia também ser seu e então os pintava como indivíduos altamente perigosos, de forma tão forte que mesmo nos círculos políticos radicais, havia quem acreditasse que não passavam de bandidos. Entretanto, quaisquer dúvidas produzidas em alguns companheiros iriam embora logo a seguir num episódio inesquecível.

Ao final de algum tempo, a campanha teve sucesso e os irmãos que duvidavam da possibilidade de serem afiançados encontraram-se surpresos e felizes, como Emma conta em sua autobiografia.

Quando foram levados à audiência, o tribunal estava completamente lotado de mexicanos: "Quando o juiz entrou, ninguém se levantou, porém quando os Magóns foram trazidos, ergueram-se para eles e se curvaram. Foi um gesto magnífico que deixava claro o lugar ocupado pelos dois irmãos nos corações daquele povo simples."


Texto por Vinícius Buenaventura.

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