remédios varo (1908 - 1963) é surpresa

Atualizado: 17 de jul. de 2021


Catalogue des ombres [Catálogo das sombras], 1935, Remedios Varo
 

A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.

 

Nascida na Espanha e radicada no México, Varo fez parte das atividades do movimento surrealista, inclusive emparelhando um trecho do mais íntimo do seu caminho com o de Benjamin Péret. N’A Fresta desta semana, um biombo: a apresentação de Remedios por si, numa entrevista publicada no livro Cartas, sueños y otros textos (Ediciones ERA, 2006); posteriormente, uma crítica intitulada “Aparições e desaparições de Remedios Varo”, extraída do livro Corrente alternada (1973), do nobel Octavio Paz.

 

Uma entrevista inédita

1. Você era surrealista antes de chegar ao México? — Sim.

2. Há algo no ambiente mexicano que tende a estimular esta forma particular de arte? — Creio que pintaria da mesma forma em qualquer lugar do mundo, posto que isso provém de uma maneira particular de sentir.

3. De onde vêm suas ideias? Como você chegar a um tema específico de um quadro? — Da mesma maneira que outras ideias tomam corpo: a partir de sugestões, por associações de ideias, etcetera.

4. Quando você começa um quadro, você já tem decidido que forma ele vai tomar ou é um processo espontâneo no qual o tema desenvolve-se automaticamente? — Sim, eu o visualizo antes de começar a pintar e trato de ajustá-lo à imagem que me formei.

5. Você pensa que o surrealismo está em declínio? — Não creio que possa estar em declínio em sua essência, já que é um sentimento inerente ao homem.

6. É uma forma de arte que tem uma demanda geral ou é principalmente destinado a colecionadores? — Pelo crescente número de obras dedicadas a esta forma de arte e pela quantidade de reproduções que se editam, creio que é de interesse geral.

7. Você pensa que o surrealismo contribuiu com a arte em geral? — Na mesma medida que a psicanálise contribuiu com a exploração do subconsciente.

8. Favor fazer um resumo de sua carreira. a. Onde você nasceu? — Anglés, Gerona (Espanha).

b. Onde estudou arte? — Na Escuela de Bellas Artes de Madrid.

c. Quando começou a interessar-se pelo surrealismo? — Tomei contato com o grupo surrealista em 1937.

d. Você é tanto escritora quanto pintora? — Às vezes escrevo como se traçasse um esboço.

e. Existem determinados contatos ou eventos em especial que influenciaram seu estilo de pintar? — Conscientemente, não. No entanto, não há dúvidas de que pessoas ou acontecimentos influenciaram meu modo de pintar de uma forma não deliberada.

f. .Exposições. Paris: 2 exposições coletivas em 1938; México, D.F.: Galería Diana (individual), Galeria Excélsior, Proteo, Antonio Souza e Palacio de Bellas Artes (coletiva).

 

Aparições e desaparições de Remedios Varo Com a mesma violência invisível do vento ao dispersar as nuvens, mas com maior delicadeza, como se pintasse com o olhar e não com as mãos, Remedios desanuvia a tela e na sua superfície acumula claridades.

Em sua luta com a realidade, alguns pintores violam-na ou cobrem-na de signos, fazem-na estourar ou enterram-na, esfolam-na, adoram-na ou negam-la. Remedios a volitaliza: em seu corpo já não é sangue que circula, e sim luz.

Pinta lentamente as rápidas aparições.

As aparências são sombras dos arquétipos: Remedios não inventa, lembra. Só que estas aparências não se parecem com nada, nem com ninguém.

Navegações no interior de uma pedra preciosa.

Pintura especulativa, pintura espelhante: não o mundo ao contrário, o contrário do mundo. A arte da levitação: perda da gravidade, perda da seriedade. Remedios ri, mas sua risada ressoa em outro mundo.

O espaço não é uma extensão, mas sim o ímã das Aparições.

O tema secreto de sua obra: a consonância — a paridade, a perda.

Pinta, na Aparição, a Desaparição.

Raízes, folhagens, raios astrais, cabelos, pêlos de barba, espirais de som: fios da morte, fios da vida, fio do tempo. A trama se tece e destece: irreal o que chamamos vida, irreal o que chamamos morte — só a tela é real.

Remedios antiparca.

Máquinas da fantasia contra o furor mecânico, a fantasia maquinal.

Não pinta o tempo, mas os instantes nos quais o tempo repousa.

Em seu mundo de relógios parados ouvimos o fluir das substâncias, a circulação da sombra e da luz: o tempo amadurece.

Não surpreende porque pinta surpresa.

As formas buscam sua forma, a forma busca sua dissolução.

Octavio Paz

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