repressão-pesada e repressão-leve






 



 

O texto que trazemos hoje é parte do nosso novo lançamento, "Desejo e Revolução. Trata-se do texto "Repressão-pesada e repressão-leve". É Guattari falando: "É evidente que uma transformação social não poderá ocorrer sem a classe operária: mas é igualmente evidente que nada acontecerá nesse sentido se o movimento operário não se livrar dos partidos, dos sindicatos e dos burocratas de toda espécie que controlam suas estruturas atuais. Hoje, não se pode falar da Classe operária – com C maiúsculo. Existem muitas classes operárias. Uma parte da aristocracia operária se aliou objetivamente à burguesia, por exemplo na Alemanha e nos Estados Unidos, se comportando como um dos melhores suportes da ordem existente. Uma outra classe operária está aparecendo, recusando essa integração, sentindo-se mais próxima dos milhões de desempregados, milhões de mulheres em luta por sua emancipação, milhões de trabalhadores imigrantes que são transplantados de um país ao outro e dos milhões de jovens sem futuro e esperança… Para mim, as antigas minorias (regionais, sexuais etc.) deveriam encontrar os caminhos de uma aliança revolucionária com toda essa nova classe operária que está nascendo".

 

Ajoblanco: Um dos aspectos que foi muito destacado recentemente é o fenômeno daquilo que se está chamando de “germanização” crescente da Europa (e mesmo do resto do mundo). Na sua opinião, em uma perspectiva global, qual é a importância dessa questão?

Félix Guattari: Creio que não se pode separar isso que eu chamaria de repressão pesada, aquela que consiste em destruir fisicamente e moralmente, por exemplo, os presos, os advogados da extrema-esquerda alemã, da repressão “leve”, aquela que consiste em intoxicar a população através da grande mídia e também controlar e esquadrinhá-la, por exemplo, através das técnicas psiquiátricas de setorização, da “psicologização” da vida familiar, do desenvolvimento dos métodos de controle pedagógicos nas escolas ou ainda através de uma certa concepção dos lazeres, do esporte comercial etc. A repressão pesada, presente nos métodos de condicionamento do tipo skinneriano (tal como são ilustrados no filme Laranja Mecância), ou as repressões leves que chegam pela sugestão publicitária, pela psicanálise etc., são complementares. O objetivo fundamental é um esquadrinhamento das massas no qual elas mesmas participam o máximo possível de seu próprio esquadrinhamento. É para este fim que são difundidas as técnicas de repressão leve. Um modelo de sociedade, um modelo de família, um modelo de consumo, são injetados nas massas. O poder se esforça para infantilizar as relações humanas, desresponsabilizar a relação de cada indivíduo com a sociedade. As demandas de cuidado, assistência, segurança, estão sendo muito infladas. Com a colaboração de seus prolongamentos políticos, sindicais e culturais, o poder tende a vigiar os mais ínfimos atos de nossa vida. Toda pessoa que escapa, por uma razão ou por outra, do sistema geral de controle social é remetida para os sistemas especializados de esquadrinhamento. Em certas cidades, chegaram a inventar bairros inteiros reservados aos marginais. Tende-se a instituir locais de sobrevivência para a enorme massa de pessoas que não conseguiram se integrar às engrenagens da produção. E se um punhado de irredutíveis não só conseguirem escapar a esse duplo sistema mas também justificarem politicamente sua recusa de integração, caem em cima deles, são denunciados na imprensa, tornam suas vidas impossíveis (Cf. o filme Katarina Blum). São encurralados para se lançarem em ações desesperadas… E, ao longo de suas Odisseias, quando não são abatidos pela polícia, o sistema penitenciário ao qual estão submetidos fazem de tudo para destruir suas personalidades, os conduzir ao suicídio ou os levar à loucura. Eu não sei se os métodos de repressão alemães serão generalizados para o resto da Europa. Cada situação particular será, provavelmente, a ocasião de uma adaptação desse casal: repressão leve-repressão pesada. Penso que se trata de um problema que encontramos sob as formas mais diversas tanto na URSS quanto nos Estados Unidos, na Europa, nos países desenvolvidos e nos países do terceiro-mundo.


Ajoblanco: A propósito da luta da classe operária, você pensa que se trata de uma “engrenagem” já integrada à máquina social, de um meio de luta saudosista, que perdeu sua validade, ou você o enxerga como um indispensável caminho para a abertura de novas alternativas?

Félix Guattari: É evidente que uma transformação social não poderá ocorrer sem a classe operária: mas é igualmente evidente que nada acontecerá nesse sentido se o movimento operário não se livrar dos partidos, dos sindicatos e dos burocratas de toda espécie que controlam suas estruturas atuais. Hoje, não se pode falar da Classe operária – com C maiúsculo. Existem muitas classes operárias. Uma parte da aristocracia operária se aliou objetivamente à burguesia, por exemplo na Alemanha e nos Estados Unidos, se comportando como um dos melhores suportes da ordem existente. Uma outra classe operária está aparecendo, recusando essa integração, sentindo-se mais próxima dos milhões de desempregados, milhões de mulheres em luta por sua emancipação, milhões de trabalhadores imigrantes que são transplantados de um país ao outro e dos milhões de jovens sem futuro e esperança… Para mim, as antigas minorias (regionais, sexuais etc.) deveriam encontrar os caminhos de uma aliança revolucionária com toda essa nova classe operária que está nascendo.


Ajoblanco: Na mesma direção, você pensa que convém colocar a questão de novas formas e novos meios de luta na sociedade atual? A grande mídia teria algum papel a desempenhar nesse domínio?

Félix Guattari: As grandes mídias exerce uma função fundamental na política de controle social e na formação da força de trabalho que tendem a ser postas a serviço do Capital. Com efeito, penso que novas formas de luta implicam o desenvolvimento de um novo tipo de expressão das massas. Hoje, não podemos se contar com líderes falando em nome da base através de editorias em jornais ou revistas políticas. As massas têm necessidade de se expressar diretamente através de seus próprios jornais, nos muros, por intermédio de rádios livres, tal como é o caso atualmente na Itália. Não se trata, de modo algum, de celebrar o culto do espontaneísmo, mas de tomar consciência que a expressão organizada, centralizada, do movimento operário e dos movimentos revolucionários, tornou-se completamente esclerosada. Penso que de toda essa efervescência espontânea, que assistimos atualmente, sairão novos tipos de organização, novos tipos de sensibilidade, que ninguém, hoje, pode definir.


Ajoblanco: Existe um ponto bem concreto que nós gostaríamos que você tratasse: para você, qual foi o papel que a Espanha desempenhou durante o período da ditadura nesse processo de “germanização” generalizada de que falávamos? Você acredita que a Espanha em 1977 continua a desempenhar o mesmo papel ou algo novo? E por que?

Félix Guattari: Não acredito que a ditadura fascista na Espanha tenha desempenhado um papel importante no processo de “germanização” que você falava. O