reruralizando o mundo - parte III de III

Atualizado: 11 de jul. de 2021


Collage de Raoul Hausmann

último crime: A intenção dessa coluna é trazer material crítico, preferencialmente inédito em nossa língua, para contribuir com as discussões que permeiam seres não humanos e humanos em e sua luta pelo fim da exploração do trabalho, sua busca por autonomia e a superação do modo de produção em que [sobre]vivemos. Os textos que publicados neste espaço examinam as diferentes relações estabelecidas, na história e no momento atual, entre animais humanos e os animais não-humanos, dentro da perspectiva dialética, materialista histórica e anticapitalista.

 

Este artigo é uma versão traduzida de "Riruralizzare il mondo (...) per recuperare lo spirito e la vita", de Mariarosa Dalla Costa, entregue no Terra e Libertà/CriticalWine convenção realizada no Centro Sociale La Chimica, em Verona, de 11 a 13 de abril de 2003. Foi publicado em italiano em M. Angelini et al. (Eds.). 2004. Terra e Libertà/Critical Vinho. Roma: DeriveApprodi. Traduzido do italiano para o inglês por Enda Brophy.

 

Reruralizando o Mundo, de Mariarosa Dallacosta parte III de III

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Outro fato, igualmente significativo, é que as redes voltadas para a recuperação de uma relação diferente com a terra, que propagam a agricultura orgânica, o acesso a alimentos frescos e genuínos, estão sendo organizadas nos países capitalistas mais ricos. Nos Estados Unidos, desde 1986, agricultores resistiram [e ainda resistem] ao modelo dominante de plantio, fundaram a National Family Farm Coalition [1]. Outros exemplos, e significativos, foram criadas nos anos noventa nos EUA, bem como no Canadá e, na França, é claro, surgiu a experiência de "agricultura de camponeses", a partir de José Bové. O Community Food Security Coalition (Coalizão de Segurança Alimentar Comunitária) [2] formado nos Estados Unidos, envolvendo produtores, consumidores e vários outros temas, que unem - sob o slogan de “segurança alimentar para a comunidade” - simultaneamente a Costa Atlântica ao Pacífico. Esse programa não só pôs em prática uma agricultura orgânica, mas assegurou a distribuição de seus produtos localmente, permitindo acesso aos cidadãos de baixa renda, por meio de vários tipos de arranjos, a pontos de distribuição de alimentos a baixo custo, além de fornecer o necessário transporte para que a comida chegue até essas pessoas.

Declarando sua intenção de instalar um "um sistema nutricional mais democrático", reuniu 125 grupos* [ver nota anterior] responsáveis por conectar bancos alimentares, redes de fazendas familiares, organizações sociais (que raramente colaboraram com tais programas em rede no passado) e, obviamente, também funciona como um esforço para unir pessoas, colocar em contato pequenos agricultores urbanos ou rurais, bancos de alimentos, cozinhas comunitárias voltadas para pessoas de baixa renda. Da mesma forma, a San Francisco League of Urban Gardeners (Liga de Jardineiros Urbanos de São Francisco), se auto-organizou em torno deste mesmo problema alimentar, tornando-se, então, peça-chave na luta por condições mais dignas de reprodução [da vida], desde a moradia até os parques públicos, disponibilizando para a comunidade capacidades, habilidades de trabalho e conhecimentos gerados localmente.

O primeiro fato a se notar aqui é o desejo [will] de uma relação distinta no que se refere à terra, um desejo que se realiza por meio da agricultura: o primeiro passo para uma diferente relação de vida em sua totalidade. Um projeto alimentar diferente para um projeto social diferente. Isto é particularmente evidente quando olhamos para aquele amplo movimento de iniciativas que são conhecidas pelo nome de ecologia social ou bio-regionalismo ou desenvolvimento econômico comunitário; que tendem a recolocar o desenvolvimento no sentido do desenvolvimento da terra, ao lado de uma forma outra de gestão da terra (que se dá pela nutrição, pela moradia e pelo espaço público-comum). Uma gestão outra das habilidades para o trabalho e do conhecimento: voltado para o fortalecimento e a defesa das raízes de um contexto social contra sua miséria e a erradicação de seus habitantes-cidadãos, que é decretada pela economia global.

Da mesma forma, o fato da terra representar estabilidade habitacional, além de ser uma fonte de nutrição, levou ao desenvolvimento, nos Estados Unidos, dos Public Land Trusts [3], concebidos como uma forma de resguardar o meio ambiente. A partir de iniciativas como essas, a comunidade é capaz de reunir fundos para a compra de terra. O objetivo é preservar essa terra como um pedaço de natureza intocada ou construir casas sobre ele, que podem ser vendidas (somente a casa e o terreno sobre o qual são construídas). É uma forma de manter o preço de uma casa acessível e, portanto, tangível para uma população economicamente desfavorecida.

Mesmo no caso francês, de agricultura com base camponesa, o plano para um projeto social diferente - a partir de seus declarado princípios - é bastante óbvio. Acima de tudo, a solidariedade internacional entre agricultores contra a mais dura e mais destrutiva competição que a globalização neoliberal quer impor. Além disso, estão os princípios da valorização social e econômica do trabalho e da atividade humana. A recusa do produtivismo, que é claramente expressa por Bové, quando diz: “nosso objetivo e nosso trabalho não são os da produção: ocupamos um espaço, administramos e participamos do vínculo social com a terra". Uma gestão do campo que respeite pessoas, meio ambiente e animais [não-humanos]. Pensamento que se realiza quando não se quer aumentar sua fazenda, porque o campo deve representar empregos para muitas pessoas, não querer ter mais animais do que aqueles que a terra mantém, assumir a responsabilidade da manutenção da vida presente na terra, e muito mais. Por outro lado e, simultaneamente, o tema da nutrição e dos riscos em relação à [falta] dela, são fundamentais para a posição política que tem como compromisso desenvolver, cada vez mais, a mercantilização da saúde, educação e da cultura.

Em suma, podemos dizer hoje que a terra, a agricultura e a nutrição constituem temas emergentes de muitas redes auto-organizadas. Desenvolvido, em particular nos anos noventa, com global movimento de agricultores, vindo à tona, de maneira vigorosa, a figura [do trabalhador] que estava ausente, de cujo trabalho todos nós dependemos - todos os dias - para a básica reprodução de nossas vidas. Se a ressignificação do desenvolvimento é particularmente importante em relação à questão agrícola, isto só alimenta o ressignificação de outros aspectos da vida. Globais são os direitos, globais são as lutas, acima tudo, pelo direito universal a uma alimentação saudável, variada e não uma padronizada, estranhada em relação à sua própria e às tradições culturais e específicas da terra: trabalhada por mulheres e homens, em vez de violadas pela sociedade.

E, se for verdade, como dizem agricultores colombianos auto-organizados em torno do cultivo de variedades em risco de extinção, que o Espírito está dentro da natureza que nos rodeia - nas árvores e nos rios -, reruralizar o mundo é necessário para recuperar esse Espírito, bem como para recuperar a Vida.

 

Notas do Tradutor: [1] National Family Farm Coalition nasceu em 1986, em Washington, DC, com o intuito de mobilizar agricultores familiares para a produção de alimentos à preços acessíveis. Alimentos comunitários, saudáveis e livres de dominação corporativa. A National Family Farm Coalition é formada, atualmente, por 30 grupos de membros, representando em 42 estados, que lutam por direitos da terra, preços acessíveis, economias locais. Além de proporcionar alimentos livres do domínio corporativo, também se empenha na luta pelo direito à vida e ao acesso à terra para comunidades pequenas comunidades rurais. [2] A Community Food Security Coalition foi uma organização fundada nos EUA e formada, em seus últimos anos*, por 325 organizações concentradas em ações voltadas para a justiça social e econômica, preservação do meio ambiente, direito à nutrição, agricultura sustentável, desenvolvimento comunitário e iniciativas contra a fome. A coalizão dedicou-se a construir sistemas alimentares fortes, sustentáveis, locais e regionais para garantir o acesso a alimentos nutritivos e culturalmente próprios, locais. [3] Fundada em 1972, a Public Land Trusts é responsável por criar parques de conservação, além de garantir terra para que sejam adquiridas a um custo abaixo do mercado. OBSERVAÇÃO: não se pode deixar de notar que as iniciativas apontadas pela autora, muito embora auto-organizadas e independentes, não necessariamente se colocam contra o modo de [re]produção mercadológico proposto pelo sistema financeiro global neoliberal em sua totalidade. Basta ver algumas soluções encontradas por estas organizações, dispostas no próprio texto, e acessíveis a qualquer pessoa que se interesse em conhecer mais a fundo, por meio de uma simples busca nos mecanismos apropriados.

 

Tradução de Alex Peguinelli. Para comentários e sugestões enviar e-mail para: antiespecismocritico@gmail.com

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