residência secundária

Atualizado: 17 de jul. de 2021



A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores. Por Natan Schäfer

 

residência secundária

Moro na rue de Douai, 29, 9éme Paris, no quarto andar. Escrevo numa folha branca que moro na rue Douai, 29, 9éme Paris, no quarto andar. Escrevo que escrevo numa folha branca que moro… Levanto da minha escrivaninha e me dirijo à grande janela que dá para a rua. À minha frente o rue de Douai, 27. Se levanto os olhos, avisto uma estreita porção de céu delimitada pelo lintel da minha janela e pela aresta do telhado em frente; poderia, creio eu, tranquilamente calcular em metros quadrados a superfície desse pedaço de céu. Abaixo os olhos: a metade do calçamento, alguns carros estacionados, a calçada, lojas, a entrada de um hotel. Vou abrir minha janela, irei até a varanda: se me debruçasse um pouco avistaria o boulevard de Clichy de um lado, a rue Pigalle do outro, teria toda a rue de Douai sob meus olhos; do alto do quarto andar dominaria o bairro, teria o sentimento de ter a situação sob controle. Logo seria tomado de vertigem: não demoraria para modelar minha respiração a partir do caminhar dessa moça que passa na calçada em frente, para me confundir com esse carro vermelho que ultrapassa um carro preto, para me tornar um semáforo ou um pisca-pisca, enquanto os longos tetos brancos dos ônibus flutuariam como grande peixes mortos sobre minha vista líquida. Prefiro ficar atrás da minha janela fechada. A vidraça me preserva do contágio do mundo, me protege contra esta permanente distração que o sabor do ar, a sinfonia dos motores, a cor de um céu muito extenso, adoram cultivar em mim quando estou lá fora. A observação rigorosa disso que me circunda exige uma certa assepsia, ao mesmo tempo que uma estrita delimitação do objeto examinado. Caminharei então da direita para a esquerda atrás da vidraça. Assim não posso esperar ver mais que essa porção da rue de Douai que vai da rue Fontaine até a rue Blanche, mesmo me espremendo nos ângulos formados pela minha janela — ela é larga: 3 metros e 50 — contando as paredes do cômodo. Paisagem cotidiana, desinteressante, tão neutra, tão pouco provida de existência que me parece capaz de desaparecer a qualquer momento. Sempre acho possível que amanhã ou depois de amanhã ao acordar eu me encontre diante de um terreno baldio ao abrir as cortinas como todas as manhãs: eu não manifestaria uma grande surpresa. Eis algo com que se inquietar e alegrar ao mesmo tempo. Posso realmente afirmar que moro na rue de Douai, 29, 9éme Paris, no quarto andar? Se não, onde é que estou? Como me convencer da realidade desse cenário que tenho diante dos meus olhos? Ficar olhando para ele durante horas e esperar que a peça comece? Mas se estou esperando uma peça, encontro-me em plena ficção teatral, o que tenho à minha frente não passa de um hotel de papelão que espera pelos atores de sabe-se lá qual drama ou vaudeville. A menos que este imóvel não seja pintado sobre uma cortina que mascara a verdadeira cena e adia sem cessar o momento de se erguer. E se não há, se não haverá jamais espetáculo, a inutilidade, o absurdo deste hotel são intoleráveis. Não esqueci minhas primeiras experiências de tédio. Passei minha infância e depois minha adolescência em uma casa muito antiga de um bairro popular do 14ème arrondissement. O apartamento ficava no sexto andar, todas as janelas davam para um escuro pátio interno, mas nas proximidades nós estávamos cercados somente por casas mais baixas que a nossa, o que permitia que meus pais se consolassem do desconforto do domicílio, repetindo que tínhamos uma vista inexpugnável de de Paris; de fato, era possível distinguir ao longe a Torre Eiffel, o Palácio Chaillot, etc. Bastava não prestar atenção aos telhados vizinhos que dominávamos; eu não via nada em especial além deles, somente eles me interessavam. Devo ter passado horas e mais horas de ócio — esse ócio tão particular da infância que proporciona ao mesmo tempo raiva e disponibilidade emburrada — com a testa colada na vidraça para ver, para derreter o mundo lentamente como um torrão de açúcar. Desde então o tédio é para mim antes de mais nada uma certa disposição de telhados, de papel de piche, de chapas e uma trama de canaletas e calhas inextricável, depois nada além duma tela esbranquiçada que cola na testa como uma vidraça. O telefone. “Alô… não, senhor… sim, é meu número sim… não, você está enganado, esse telefone é particular… não, não moro na rue Blanche… de nada, senhor”. Chego perto da janela; mesmo quadro. Se eu tentasse descrever isso que vejo. O esforço intelectual exigido pela descrição minuciosa me permitiria sem dúvida escapar de um bom punhado de armadilhas. Tentemos. À esquerda minha vista se interrompe numa placa saliente de um hotel de seis andares, situado na esquina da rue Fontaine com a Mansart: Le filles de Eva. Hôtel. A fachada está pintada de um ocre bonito, novinho, as janelas, estreitas, não tem venezianas; o térreo é ocupado por uma brasserie (vejo um pedaço do balcão, duas mesas, algumas cadeiras): CHEZ BOUDON, c’est bon. Na calçada, perto da entrada do café, na extrema esquerda do campo varrido pelo meu olhar, um placa de trânsito “sentido proibido”. Não consigo ver mais para lá, estou de fato preso; esse painel que eu nunca tinha notado antes assume de repente uma estranha importância. Mas ao mesmo tempo que afirma sua presença com tamanha intensidade, ele se destrói; elemento de uma linguagem (sinal do código de trânsito), renuncia à sua significação: ele me proíbe uma rua que não existe, encontra-se atravessado em meu caminho e tudo que posso fazer é colidir com esse obstáculo insólito ou dar meia-volta. Essa faixa branca horizontal sobre fundo circular vermelho não oferece nem mais nem menos sentido que a risca de aço com que o mar atravessa o pescoço cortado do sol se pondo. “Ela foi reencontrada. O que? — A eternidade É a água de mão dada Com o sol.” Se bem que tem o buraco da rue Mansart, porém imediatamente o primeiro imóvel da rue de Douai se opõe a qualquer fuga. De fato, a altura quase igual dos prédios, juntamente com o ângulo muito agudo formado pelas duas ruas, me dá a sensação muito clara de que a rue Mansart não existe. Essa única fileira oblíqua de rebites que vejo no chão é sem dúvida um vestígio de uma antiga faixa de pedestres. Não tem espaço nenhum entre o hotel da rue Fontaine e o 25 da rue de Douai, os dois imóveis são colados um ao outro e se minha casa endireita o palanque curvado pela água, parafraseando La Fontaine, não vejo o que poderia impedi-la de, na mesma cajadada, aplainar a imagem dessas duas construções que apenas uma perspectiva ilusória empena um pouco. Por isso assisto maravilhado ao espetáculo de prestidigitação permanente que me é oferecido por essa casa desconcertante. Automóveis que surgem de repente do meio das pedras ou mesmo pedestres apressados que desaparecem, engolidos pelas paredes carnívoras. Como descrever o 25 da rue de Douai? Um bloco maciço, enegrecido. Cinco andares, sendo que o último tem varanda. Velhas venezianas de madeira; algumas foram retiradas. Porque logo esse detalhe? Porque privilegiar de saída essas janelas sem pálpebras? Se amanhã na rua alguém me perguntar onde fica o 25 da rue de Douai com certeza vou pensar num imóvel em que faltam as venezianas de madeira em alguns andares (de resto serei incapaz de precisar quais) e, provavelmente a partir dessa única informação, entre milhares de edifícios parisienses que perdem algumas venezianas de madeira, estarei indicando, sem risco de me equivocar, o 25 da rue de Douai. Costuma-se se dizer que seria possível chegar de olhos fechados a um lugar que se conhece bem. Saber precisamente o endereço não tem importância nenhuma. Ao transeunte que quiser chegar no 25 da rue de Douai talvez responderei que ele deve primeiro seguir por tal ou tal rua, depois virar à direita, passar por tal praça, etc., sendo que o itinerário continuará abstrato. Se eu der o nome das ruas que ele deve pegar e da praça a atravessar, entrego-me a uma curiosa experiência de vasos comunicantes: esvazio o mundo de todos os sinais que ele me faz e que sei que sou o único a perceber, rejeito todos os pontos de referência que ele me propunha até então, denuncio as cumplicidades múltiplas que ele entretém comigo e o preencho de uma fria inteligibilidade; até que a comunicação entre o transeunte e eu seja perfeita; até o momento em que eu tenha volatilizado os obstáculos, tornando abstrato o caminho que nos separa do 25 da rue de Douai, até o momento em que eu não esteja muito longe de começar a pensar que a o edifício ao qual ele quer chegar no fim das contas talvez não fique no 25 da rue de Douai, mas que ele é incontestavelmente a casa à qual o transeunte tem que chegar. Da mesma forma que se fala de conteúdo manifesto e conteúdo latente dos sonhos, poderíamos falar de endereço manifesto e endereço latente. Ao receber minha correspondência não me espanto que o envelope estampe meu nome e endereço, mas sim que a carta seja efetivamente dirigida a mim, o que às vezes não deixa de me decepcionar. Também me parece que morei por muitos anos no interior, onde eu não poderia viver: nunca tenho testemunhos o bastante (recibos de aluguel, contracheques e outras “provas” irrisórias) para fingir que me convenço. Com que alegria acompanharia o desconhecido que se propusesse ajudar a encontrar uma residência cujo endereço ele não sabe; por mais que ele espontaneamente me dê somente um detalhe, o detalhe que em sua alma basta para fazer jorrar o lugar desejado por inteiro, sei que chegaremos sem erro no lugar certo. Já fiz essa experiência há um tempo atrás; lembro-me dessa jovem austríaca (ela morava em Linz, tinha 17 anos e era muito bonita) que assim encantou uma tarde dos meus 18 anos. Devia ser umas 16h e eu estava voltando para casa a pé pelo jardim de Luxemburgo quando, na esquina da rue Guynemer com a rue Vaugirard, em frente ao alameda do Seminário, uma moça me parou com timidez e me explicou num francês de colegial estrangeira estudiosa que ela veio da Áustria para conhecer Paris e se perdeu! Ela visitou Notre-Dame e o Panthéon com o grupo do qual fazia parte. Depois o organizador da viagem deu quinze minutos de liberdade para os turistas comprarem cartões postais: todo mundo deveria se reencontrar na frente do ônibus. Ela acabou caminhando por tempo demais: quando voltou, o ônibus tinha desaparecido e desde então ela estava vagando tentando voltar para o hotel onde o grupo estava hospedado. Eu lhe pedi o endereço: ela não se lembrava mais e tinha cometido a deliciosa imprudência de esquecer o cartão do hotel do qual bem lhe tinham dito que ela não deveria jamais se separar. Ela sabia somente que se tratava de um grande prédio cinza subindo uma rua estreita. Essa descrição sumária me fez dar risada. Ela riu também, depois voltou a ficar preocupada. Tranquilizei-a e convidado-a a continuar seu passeio comigo fui fazendo com que ela me dissesse quem ela era, do que ela gostava, o que ela já tinha visto em Paris: dessa conversa com certeza sairia alguma informação que me permitiria encontrar seu hotel. E foi efetivamente o que aconteceu, mas sou incapaz de dizer como; já no dia seguinte ao nosso encontro, não poderia reencontrar com exatidão o caminho de nossas palavras: a noite tinha apagado todos os vestígios e para isso seria necessário que a neve dos meus dias voltasse a ser virgem. Guiados somente pela agulha imantada de nossa curiosidade que indicava o norte de um ao outro, acabamos descobrindo o hotel que procurávamos: ficava numa ruazinha de Montmartre! Na hora de nos separarmos tínhamos passados mais de três horas juntos. De comum acordo a gente decidiu não se rever (apesar de que ela ficaria ainda alguns dias em Paris), porque então seria preciso que marcássemos um encontro e o fio do acaso uma vez rompido não se reata; tampouco trocamos endereços: seria ridículo. Deixei-a dizendo que se um dia eu passasse por Linz ficaria passeando por um bom tempo, ao acaso… Venezianas voadoras como os tapetes dos contos orientais — também lhes chamam de “persianas” —, vocês me fizeram viajar. Como sua ausência é fértil! Luz de sua ausência no fundo pálido da realidade compacta. Entrevejo a noite graças aos relâmpagos. Da mesma forma que às vezes uma só palavra faz lembrar de todo um discurso, a malha desfiada logo restitui a meia-calça e a perna e as venezianas voadoras deixam a sombra de suas lâminas na parede suja do 25 da rue de Douai. Como o todo se organiza ao redor das partes? Seria por agregação progressiva, ainda que inconsciente e muito rápida, de diferentes elementos? De qual ordem? O conjunto surgiria de uma só vez? Mas por que a partir desse detalhe e não de outro? Enfim, como não pensar que só existe verdadeiramente a parte se, com o passar dos anos, é somente dela que lembramos; se de um bairro no qual moramos por muito tempo lembramos somente da inclinação de um telhado, duma mancha de gesso fresco numa parede cinza e rachada, das flores rosa seco do papel de parede que ornava o quarto misterioso do vizinha da frente ou os gonzos enferrujados de uma veneziana de madeira desaparecida. Por conseguinte, qual ordem seguir na descrição? Irei de baixo para cima, da esquerda para a direita, ou começo seguindo o humor do momento, por exemplo, da segunda janela à direita no terceiro andar, em volta da qual vou reconstituir o edifício? Mas por que não começar descrevendo o sétimo andar desse imóvel que tem somente cinco? Toda descrição é arbitrária. A “achatada autossuficiência” dos romancistas denunciada por André Breton desde o primeiro “Manifesto do Surrealismo” é intolerável, pois o autor nos impõe uma descrição dentre mil, uma visão autoritária que nos priva de todas as demais possibilidades. A descrição romanesca torna-se uma coisa em si, um exercício gratuito, despojada de qualquer interesse e que não me traz nenhum tipo de informação sobre o objeto pois, neste caso, o objeto descrito é a descrição ela mesma! Entretanto, os imóveis à minha frente descrevem-se a si mesmos; não parecem seguros de ser o que são, têm a necessidade de designarem-se inequivocamente — curiosamente recorrendo às denominações mais impessoais: números, letreiros comerciais, outdoors —, de exibir sua individualidade, de hastear uma espécie de cartão de visitas. Imóveis abertos ao público, posso a qualquer momento escrever um poema com as palavras que vocês orgulhosamente carregam como decorações e atentar contra sua realidade provisória. É ambicioso demais quem quiser desenhar no espaço branco que separa as palavras o rosto imutável que vocês acham que apresentam.

25-27 rue de Douai CONFEITEIRO Martini JIMMY’S BAR Stella Artois Jimmy’s bar Stella Artois 25 Piles Mazda Philips Antargaz Philips Philips Gaz DROGARIA TINTAS VERNIZ H O T E L Paris NIGHT and DAY 27 HOTEL

Imóveis abertos ao público, motéis, ruas movimentadas, por mais que meu olhar lhes fixe, sou incapaz de lhes reter. Vocês flutuam como icebergs do degelo cotidiano. Eu teria que reservar um quarto no hotel em frente e ficar encarando um dia inteiro o quarto andar do 28 da rue de Douai. Pois somos levados pela mesma correnteza, percorridos pelos mesmo tremores, daí a aparente estabilidade — mas as rachaduras nas paredes não enganam, os abalos sísmicos são contínuos e meu coração é um sismógrafo, a cada segundo que passa ele me avisa que quando eu tiver parado de perceber o maravilhoso reacender do aquecimento central até seus ecos distantes, não terei mais nada a fazer neste astro morto a não ser contemplar indefinidamente em praias imóveis as falésias de cinzas junto ao mar petrificado. Astro morto. Sempre fiquei chocado com essa constatação que Einstein adicionou na lista de suas descobertas: dado que a luz se desloca a uma velocidade de 300.000 quilômetros por segundo e que vemos estrelas situadas a distâncias que medimos em milhares de anos-luz, nada nos garante que essas estrelas cuja luz chega até nós hoje não estejam, há milhares de anos, apagadas. Eis o suficientes para despertar dúvidas sobre a realidade presente. Último recurso: a fotografia; somente ela parece ter alguma chance de me fornecer uma imagem fiel do mundo. Ela ao menos apreende o objeto em seu conjunto, instantaneamente, não adiciona nem subtrai nada. É evidente que ela substituiria com vantagem todas as tentativas de descrição. Na página em branco me limito a escrever: do quarto andar do 28 da rue de Douai vejo… Se segue um discurso fotográfico eventualmente interrompido por alguns sinais de pontuação e breves interjeições, para representar o piscar dos olhos. Para ser mais exato, devo dizer: vejo isso hoje, sábado, 17 de fevereiro de 1968, de manhã, entre 5 para as 11h e 11h e 5. Este presente é mentiroso: sempre terei escrito a frase anterior antes de tirar as fotos ou depois! Mas nenhuma expressão de tempo convém à fotografia que fixa o tempo e para todos os relógios. Tenho aqui um testemunho único, uma combinação de cartas que nunca conseguiria de novo e que me garantiria a vitória se, mal dadas as cartas, o mundo parasse de ficar me impedindo de jogar. Amanhã, sob as mesmas condições, vou obter resultados sensivelmente diferentes: aquela janela estará fechada, lá terão trocado as cortinas, essa loja estará fechada, o vento noturno talvez terá arrancado um ou duas letras desse letreiro. Na melhor das hipóteses, essas fotografias me oferecem o estado da rue de Douai vista de um determinado local, num determinado dia, a uma determinada hora: as especificações se acumulam. Elas se aproximam como os mordentes de uma morsa. Não é impossível que no fim a morsa aperte somente o vazio. Supondo que essas fotografias constituam provas suficientes, terei com elas somente um testemunho da existência passada. A foto me traz uma mensagem idêntica àquela da luz das estrelas distantes. Todavia aceitemos esta mensagem. Evidentemente a fotografia coloca os mesmos problemas que o “original”, mas ela me oferece uma nova possibilidade que quero aproveitar. Tenho, reduzida, a realidade ao alcance da mão, posso intervir, tenho vantagem sobre a realidade. Posso por essas fotos no bolso, subir no topo da Torre Eiffel e, lá no alto, olhar para os números ímpares da rue de Douai, rasgar a rue de Douai, transformá-la em chuva de confete e deixá-lo cair sobre o Champ-de-Mars. Nada mais poderá atestar a existência da rue de Douai; terei sumido com todas as provas do crime. Vou olhar para minhas mãos implacáveis e elas estarão intactas: o sangue das fotografias não mancha. Terei as mãos brancas de um ilusionista insolente, demolidor de aparências e construtor de miragens. A angústia do deserto, de repente. Vou rápido pegar um táxi: Rue de Douai, 28, por favor”. Vou encostar nas paredes, vou bater os pés nos degraus da escada, vou lavar o rosto com água fria e vou sujar de carvão minhas mãos inocentes. Vou me precipitar em direção a janela: a rua, os imóveis, novamente ali, diante de mim. Vou sorrir com cara de bobo e darei um suspiro ansioso de alívio: “Veja bem, ainda não foi dessa vez!...” Vou ficar desesperado por não ter conseguido me manter à altura da minha loucura. Deixei-me intimidar. Na minha pressa para vencer a realidade, subestimei o adversário. Recomecemos sem impaciência. As aparências são moles, deve ser possível forçá-las e passar para o lado de lá. A fotografia permite uma experiência especialmente interessante: isolar um detalhe, ampliá-lo, depois ampliar um detalhe desse detalhe, etc. Num filme muito bonito do Antonioni chamado “Blow Up” o herói, fotógrafo profissional, dedica-se ao acaso a esse joguinho e descobre, ou pensa ter descoberto, um crime que está prestes a ser cometido. Gostaria muito de desvendar o mistério dessa janela fechada, certamente há um drama dissimulado nas dobras dessa cortina amarrotada. “Aquele que lado de fora olha através de janela aberta jamais vê tanto quanto aquele que olha para uma janela fechada”, afirma Baudelaire. Talvez não haja nada. Graças às ampliações sucessivas, talvez o máximo que eu consiga ver seja a trama da cortina e logo depois um branco, um desses inumeráveis vazios que tecem a malha, o nada. Terei esgotado o real como a uma provisão de água. Terei calado o cotidiano: vai chegar a hora do grande dilúvio do desejo que não vai ter mais nada para levar consigo além do mundo carcomido pelas meras vibrações de um terrível alarme de emergência mudo. Então, como esse herói do Antonioni que no fim do filme aceitar jogar uma bolinha imaginária para um alegre grupo de estudantes que fazem de conta que estão jogando tênis, amanhã, ao acordar diante de um terreno baldio que terá tomado o lugar do 27 da rue de Douai vou sair na rua, me dirigir até o terreno baldio e fazer de conta que sou um viajante que entra num hotel, pede por um quarto, sobe as escadas, coloca a chave na fechadura, fecha a porta, dirige-se à janela, abre-a e se debruça para olhar para fora. Não vou ter medo de cair… Nessa noite vou sonhar que moro no 28 da rue de Douai, em Paris (9ème), no quarto andar. Fevereiro 1968.

Claude Courtot

In: L’Archibras. Le surréalisme en mars 1969. dir. Jean Schuster. Le Terrain Vague: Paris, 1969.

 

Notas: [1] Na França muitas vezes as faixas de pedestres são marcadas somente com rebites circulares chumbados no chão. [2] Referência a “Quand l’eau courbe un bâton, ma raison le redresse”, de Jean de La Fontaine, Fabl. VII, 18