signo ascendente - parte II





A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores. Por Natan Schäfer



 

O sonho é um pesado Presunto Que pende do telhado. Pierre Reverdy Chego gavião e saio fênix. (Palavras 3ª alma, Egito) [nota]. [continua] Nos termos atuais das investigações poéticas não seria possível dedicar grande atenção a distinção puramente formal que pode ter sido estabelecida entre a metáfora e a comparação. Tanto uma como a outra continuam constituindo o veículo intercambiável do pensamento analógico e se a primeira oferece recursos de fulgor, a segunda (que julgamos a partir dos “belo como” de Lautréamont) apresenta consideráveis vantagens de suspensão. Evidentemente que além destas, as demais “figuras” que a retórica insiste em enumerar são absolutamente desprovidas de interesse. Só o gatilho analógico deixa-nos apaixonados: é somente através dele que podemos agir no motor do mundo. A palavra mais exaltante da qual dispomos é a palavra COMO, seja ela pronunciada ou calada [2]. É através dela que a imaginação humana mostra do que é capaz e o mais elevado destino do espírito é posto em jogo. Nós também repeliremos com desdém a afronta ignara que acusa a poesia dos tempos atuais de abusar da imagem e a convocaremos a uma luxúria cada vez maior neste aspecto. Teu peito que se adianta e impele o pano ondeante, Teu peito triunfal é um armário atraente Charles Baudelaire [3] Uma vez que o método analógico foi celebrado na antiguidade e na idade média e a partir de então suplantado pelo método “lógico”, que conduziu-nos ao impasse que bem conhecemos, o primeiro dever dos poetas e dos artistas é restabelecê-lo em todas as suas prerrogativas, com a condição de arrancá-lo das segundas intenções espiritualistas que, tendo se comportado em relação a ele sempre como parasitas, viciam e paralisam seu funcionamento. Os teus dentes são como o rebanho das ovelhas tosquiadas, que sobem do lavadouro (Cânticos dos Cânticos) [4] Lembramos que há trinta anos Pierre Reverdy, o primeiro a debruçar-se sobre a fonte da imagem, foi levado a formular esta lei capital: “Quanto mais a relação entre duas realidades aproximadas forem distantes e justas, mais forte será a imagem — maior será sua potência emotiva e sua realidade poética”. No entanto, embora esta condição seja absolutamente necessária ela não poderia ser tida como suficiente. Um outra exigência, a qual em última análise bem poderia ser de ordem ética, abre caminho ao seu lado. Tenhamos cuidado: a imagem analógica, na medida em que ela limita-se a iluminar com a mais viva luz as semelhanças parciais, não poderia ser traduzida nos termos de uma equação. Ela move-se num sentido determinado entre as duas realidades frente à frente, o qual não é de modo algum reversível. Da primeira destas realidades à segunda ela marca uma tensão vital voltada o máximo possível à saúde, ao prazer, à tranquilidade, ao agradecimento, às práticas consentidas. Ela tem por inimigos mortais o depreciativo e o depressivo. — Ainda que não existam mais palavras nobres, em revanche os falsos poetas não deixam de distinguir-se por aproximações ignóbeis, cujo modelo mais perfeito é este “Violão bidê que canta” de um autor de resto abundante nestes tipos de achados [5]. Eu via espíritos reunidos; eles tinham chapéus na cabeça. Swedenborg Tua língua Peixe vermelho no bocal Da tua voz. Guillaume Apollinaire Nós passamos por esta avenida plantada de seios azuis, onde o dia diferencia-se da noite somente por uma vírgula e a sardinha do besouro pelo mico e seu pó [6]. Benjamin Péret O mais belo luar lançado sobre o sentido geral e obrigatório que deve assumir a imagem digna deste nome é fornecido por este apólogo Zen: “Por bondade búdica, Bashô um dia modificou engenhosamente um cruel haikai composto por seu bem-humorado discípulo Kikakou. Tendo este dito: ‘Uma libélula vermelha — arranque-lhe as asas — uma pimenta’, Bashô substituiu: ‘Uma pimenta — coloque-lhe asas — uma libélula vermelha’. 30 de dezembro de 1947. Notas: [2] Em francês tu pode significar tanto o particípio do verbo calar como também o pronome pessoal da segunda pessoa do singular [3] Tradução de Júlio Castañon Guimarães in: Baudelaire, Charles. As flores do mal. Companhia das Letras, São Paulo: 2019. [4] BÍBLIA, Português. A Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição rev. e atualizada no Brasil. Brasília: Sociedade Bíblia do Brasil, 1969. [5] O verso em questão é de Jean Cocteau publicado em seu livro Poésie, de 1925. [6] A expressão “qui n'est pas piqué des hannetons” denota algo que se manifesta na sua força máxima, além de hanneton poder significar alguém meio maluco. Pó de mico é chamado em francês de poil à gratter, literalmente “pelo de coçar”.

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