irmã

Atualizado: 27 de jan.




Romare Bearden, City of Brass, 1965.
 

Na coluna Harlem desta semana, seguindo as reflexões anteriores de Chinua Achebe sobre a verdade da ficção, publicamos a tradução inédita de “Irmã”, um conto de Toyin Adewale. Publicado no número 31 da Revista Okike, em 1995, o conto de Adewale retrata uma tarde breve na vida de uma jornalista que retorna à sua cidade universitária e reencontra uma amizade passada.

Delicado e sutil, Adewale nos apresenta uma estória de amor e amizade que ultrapassa qualquer barreira. Seu foco preciso no cotidiano nos transmite a imagem das relações intersubjetivas da vida comum, reduzida a um mínimo denominador de sociabilidade e afeto. Toyin Adewale-Gabriel (Ibadan, 1969) é poeta, contista, romancista e crítica literária. Formada na Universidade Obafemi Awolowo, em Ile Ife, foi co-fundadora e cordernadora da Associação dos Escritores da Nigéria, assim como crítica literária dos periódicos The Guardian, Post Express e The Daily Times. Adewale-Gabriel escreve em inglês e alemão e, entre suas obras, destacam-se “Naked Testimonies” (1995), Breaking the Silence (1996) e Flackernde Kerzen (1999).

 

Estas pernas só podem ser dela. A saia ondulada também. À espera do poeta, vejo suas pernas de onde estou, no ponto em que a escada dobra bruscamente em direção à arena externa. A passos largos, ela entra no meu campo de visão, com a bolsa familiar, a bandana, sempre presente, e olhos prontos ao desafio. Vagarosamente, derreto em seu abraço.

“Folu” – ela diz meu nome errado e eu não faço questão de corrigir – “quando você chegou?”.

“Há pouco” – eu digo – “Você está bem. Sorriso radiante”. Digo que vim à caça do poeta para uma entrevista. “Você sabe como ele consegue tirar poesia da grama e esse tipo de coisa. Mas eu não posso pernoitar, a não ser que haja uma lua azul espetacular suficiente para me prender aqui”. Logo nos despedimos, combinando de nos encontrarmos em três horas.

No entretempo, me encontro com o poeta. Conversamos e, mais uma vez, me choco com seu dom oratório, sua capacidade em transpirar o frescor da palavra a ponto de algo novo acontecer a seus ouvintes. Na tentativa de jogá-lo contra a parede, eu pergunto “Qual deveria ser o núcleo temático da palavra séria, no seu julgamento?”. Ele ri e eu me sinto pequena.

“A palavra não pode ser amarrada como se amarra um punhado de vassouras. A palavra é fluida como o mar. Um homem escreve uma palavra e ela toma uma proporção maior que ele. Por mim, deixemos que tudo seja escrito: histórias de amor, thrillers, toda poesia, todo drama. Deixemos a palavra fluir”.

Tipo esperto! Realmente liso! Exploro mais: “Deixemos que tudo seja escrito... você escreverá tudo?”.

“Por ‘escrever tudo’ não quero dizer que joguemos a vida e o ofício no lixo. Quero dizer que devemos falar esteticamente pela verdade do nosso mundo”. Ele sorri e seu sorriso o faz parecer malicioso, no sentido que daríamos a um bebê vulnerável.

Investigo seus olhos na esperança de encontrar neles a revelação de alguma perspectiva mais ampla. Não encontro nenhum novo tesouro e me preparo para partir. Por que não ensaiar meu francês mínimo?? “Au revoir, Monsieur Poeta. Merci, obrigado pelo tempo e pela conversa”.

“De nada, minha jovem”, (como se ele fosse muito mais velho que eu...).

Meto-me debaixo de um sol sem sombra e rio enquanto os dias correm na minha memória. O incidente que me causa o riso? Um conhecido irlandês coça seu braço que descasca por conta do calor desinteressado do meio-dia de Lagos. Uma visão ao mesmo tempo lastimável e engraçada. Enquanto volto para a sala comunal, a vista da universidade assoma adiante e ao meu redor. Vejo o carnaval dos alunos, sua rainha, ingênua, monta um cavalo destemidamente. Garotos alegres de bebida cantam aos berros, “Avante Lagos! Abaixo as forças de opressão!”, e eu sinto uma fé sincera em suas verdades pessoais. Chego ao salão e subo os degraus pelos quais me lembro dela ter um dia me guiado. Adentro o corredor que leva a seu quarto. Não lembro qual é o número do alojamento. Ando devagar, espiando quarto após quarto. Talvez eu vislumbre seu rosto por trás de uma das janelas abertas. Chego ao fim do corredor, com fracasso. Me volto e, na metade do corredor entro com audácia no quarto à esquerda para perguntar por ela. Quando bato à porta, é a sua voz que escuto me convidando a entrar. Entro e não digo que errei o caminho. Meu sorriso brilha.

“Oi. Já acabou sua palestra?”

“Sim. Sente-se. Como foi a entrevista?”

“Boa. Tenho material para meu editor aproveitar e para tirar minha licença vencida”.

“Você parece cansada, vou te buscar um refrigerante. Não dá para vencer esse calor, sabe”.

“Querida, um copo de água bem gelada bate um refrigerante a qualquer hora. Me traz um copo de água gelada”.

Não há geladeira e ela tem de sair para buscar a água, que não pergunto de onde vem.

Encaro as paredes. Não há nada de novo. Vejo que ela ainda guarda seus cartões de aniversário antigos. Livros, uma bíblia, perfume e aqueles outros ingredientes que ajudam uma mulher a se manter em meio a uma desordem compacta. Seu quarto parece um lar, um lugar vivido. Panelas enfiadas embaixo da cama, chinelos despontando debaixo da poltrona. Vou até a mesa e vejo um poema inacabado, lendo pelas linhas iniciais.

“Abrace-me, Sob o sol deslumbrante, Ao coro dos pássaros matinais...”

Sorrio. “Sola!” - ela entra com a água. Agradecida, eu sorvo do copo e pergunto maliciosamente - “escrevendo um poema para uma nova paixão?”.

Ela responde, tímida, “Você pode dizer que estou me resolvendo. E Fola” – desta vez ela acerta meu nome – “você não pode partir hoje. Há alguns poemas novos que queria que você visse e sei que não adianta deixar você levá-los de volta a Lagos, porque lá você estará muito ocupada para lê-los. Então agora você está aqui e não te deixarei ir”.

“Tudo bem” – eu me entrego prontamente – “viajar de volta a Lagos neste sol quente não é uma perspectiva atraente. Além do mais, não precisam de mim no escritório até amanhã pela tarde”. Ela sorri, alegre, e eu continuo. “Posso aproveitar a chance para comprar umas lixas de unha no centro comercial da universidade. Você quer vir junto?”. Ela sorri e calça os tênis.

...Ao chegar o centro comercial, encontro as lixas na primeira loja em que entro. São vendidas por meras 7,50 nairas, mas estou faminta por um pouco de compra. “Por que não damos uma olhada em outras lojas?” – pergunto – “talvez encontremos algo mais barato”. Ela concorda. Saímos e entramos na próxima loja, em que as lixas são vendidas a 6 nairas. “Nigeria” – eu digo – “entre uma loja e outra, uma diferença de 1,50 naira”. Pego a lixa e vou ao caixa, mas sinto nos ossos que, em algum outro lugar, em alguma outra loja, acharei um preço ainda menor. Devolvo a lixa a seu lugar e partimos para outra loja. Me encanto com os perfumes, Chole’ Anais Anais... mas, enfim, sou pobre demais para comprá-lo. Com um suspiro, puxo Sola pela mão e deixamos o estabelecimento. À direita da entrada da próxima loja, vejo três meninos pequenos cobiçando os brinquedos expostos na vitrine. Um deles carrega uma garrafa que me chama a atenção. Olho mais perto e vejo que é um mini aquário!

“É sim” – ele diz – “por 10 nairas”.

Tomo o aquário de suas mãos e observo com atenção. Cinco peixinho dançando entre pedregulhos. A mesa de meu escritório ganharia com essa presença. “Menino” – eu digo – “aqui tem 8 nairas”.

“Certo” – ele diz;

“Que tal 6 nairas?”

“Não, tia! Eu estou vendendo com a garrafa, e as garrafas são caras! Você sabe!”

“6 nairas” – eu insisto.

“Está bem” – ele aceita e eu lhe dou o dinheiro.

Sola e eu admiramos os peixinhos, perdidos em seus charmes naturais. Um homem passa por nós e diz, baixinho “Mulheres tolas!”. Rimos uma para a outra e entramos na próxima loja. As lixas ali são vendidas por 4,50 nairas. Desta vez eu as compro e nós refazemos o caminho de volta à entrada da universidade. Escurecia. A lua já despontava, junto com as estrelas. Do outro lado da rua, um mercado noturno começava a ser montado. Abraçada ao aquário, encaro Sola nos olhos: tornaram-se desejosos. “Estou com vontade de comer milho assado e passear pelo mercado” – ela diz – “Vamos, eu ajudo a carregar o aquário...”. O apelo em seus olhos é intenso demais. E a ideia de perambular por um mercado noturno, comendo milho assado e carregando um aquário a esmo parece divertida. Além do mais, preciso de uns lagostins para fazer comida para os peixes. Nos voltamos e atravessamos a rua em direção ao mercado, passeamos até que encontramos uma menina assando milhos numa grelha sobre carvão. Paramos e perguntamos o preço: custam cinquenta kobos cada. “Tem certeza de que são frescos?” – Sola pergunta.

“Sim, tia” – ela responde rapidamente – “meu milho é fresquinho. Meu irmão mais velho colheu-os em nossa fazendo hoje pela manhã. Experimente esse pequenino aqui, vai ver que estou certa”. Experimentamos. Parece fresco, mas não temos certeza. Ainda assim, escolhemos duas espigas e pedimos à menina que as asse para nós. Sola vislumbra um toco de árvore a alguns metros de nós, em que nos sentamos, enquanto a vista e os sons do mercado se encerram ao nosso redor. A lua, cheia como um voto cumprido, brilha em silêncio. Lampiões a óleo iluminam o mercado como vagalumes na floresta da noite. Pessoas regateiam, dois cães ladram um ao outro, um bebê chora. A menina nos traz nossas duas espigas quentes. Sola estende a mão para pegar a sua com uma volúpia conquistadora. E ri musicalmente quando põe a espiga na boca como se uma flauta, seus dentes conquistando-a como um trompetista domina seu instrumento. Miro-a diretamente nos olhos. Nisto, amanhece em mim o simples fato de que a amo.

 

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