sobre o território da collage | sobre as fronteiras da imagem | sobre o território da imagem

Atualizado: 2 de mar.


Raoul Ubac (1910-1985), Penthésilée.

sobre o território da collage; sobre as fronteiras da imagem; sobre o território da imagem. "Um objeto é real não porque faz parte da natureza mas, isto sim, porque representa o desejo." (Hans Bellmer)

O desejo, guia estelar que nos orienta pelas profundezas da mente e seus abismos inexplorados. Bússola interior necessária que nos permite navegar em um mundo sempre caótico. A luz que nunca cessa de brilhar emanada pelas incontáveis telas cotidianas não pode ofuscar o farol interior. A collage é a linguagem do desejo pois permite, livremente, a construção de relações subjetivas revelando, como em uma iluminação, o objeto libidinal. “No início, fez-se a relação”, escreveu Bachelard.

A visão irreversível do corpo desejado esculpe na argila imaginal a forma do objeto buscado. O amor é a alma que anima essa creação como sugere Plínio contando-nos sobre Butades de Sicião [1]. O amor é aquilo que permite que relações sejam estabelecidas para dar continuidade ao movimento da vida. Ou seja, aquilo que nos põe em movimento, ou nos emociona. Objetos sem alma não passam de decoração para fantasias de uma mente abandonada. Cenografia para uma peça de um espectador solitário. O amor é via de mão dupla, assim como na collage, é necessário que caminhos se cruzem, realidades se encontrem, corpos colidam, desejos persistam e existam em conflito.

Um corpo em uma trajetória qualquer, meteórico, atravessando o cosmos, pode ser visto como inerte até que se choque com outro corpo. Os encontros geram luas, planetas, poeira e toda sorte de resíduos, que chovem no espaço interno e oco dos sujeitos, gerando matéria para que os templos mitológicos e semânticos sejam erguidos. Muitos deles liquefeitos pela lógica, que substitui o sonho pela alucinação ou a fantasia pela ilusão. Não se pode mais dormir. A luz artificial das máquinas plasmáticas impede que as sombras dancem.

“A collage é por excelência a linguagem do excesso.” [2] pois só o alimento não basta. Não é somente a neotenia prolongada, ou os nove genes de diferença com nosso primo mais próximo, que nos apartam das condições e circunstâncias pré-determinadas daquilo que chamamos de Natureza. O fenômeno da imagem, ou seja, a capacidade de representar a si mesmo, é uma singularidade humana. Não tendo se manifestado em nenhuma outra criatura conhecida por nós. O animal que habita nossos corpos é o único que se enxerga em relação com o mundo e não somente em função do mundo. Mesmo que está percepção seja, somente, parte de uma ilusão cognitiva dedicada a reprodução desse organismo, a habilidade humana de ver as imagens não pode ser descartada como mera ilusão perceptiva. As transformações culturais de nossa espécie adaptaram o meio a nós e não o contrário. “A mutação cultural foi substituindo a mutação biológica, com o gênero humano comprovadamente mantendo até hoje quase o mesmo capital genético da Pré-história e provavelmente o mesmo psiquismo...” [3] assim ao fazer collage, ou trabalhar com imagens, estamos conjugando a realidade e (re)apresentando sobre o mundo objetivo (lugar onde matéria e luz se encontram) a interpretação de uma realidade interna e sensível, que é tão profunda quanto aquela percebida pelos primeiros homo sapiens que esculpiram as Estatuetas de Vênus ou adentraram as cavernas para pintá-las. Contudo não há duvidas que esse processo é encoberto posteriormente por capas culturais e é, facilmente, cooptado por máquinas de propaganda publicitária ou política. Aqui se desenha uma linha divisória entre a imagem do desejo, a estrela guia, e as configurações, construções e produções visuais destinadas a serem veículos de discursos que não buscam estabelecer relações entre o ser e o meio, mas sim, tem por objetivo, empurrar, condicionar, convencer, discursar, vender ou manipular o sujeito em determinada direção.

Assim nos interessa as imagens que situam o humano, em sua condição ontológica, sempre em relação com aquilo que se encontra diante de si. Como o ser se relaciona com o outro, com o mundo e com sua própria presença. Como num fractal, as propriedades constitutivas da imagem se repetem em qualquer escala. O corpo, o pensamento da matéria, é a estrutura pela qual conjugamos a realidade. A liberdade da imagem acontece quando usamos essa capacidade para transformarmos a realidade em função da continuidade da vida, em oposição ao corpo conjugado e subjugado pelo discurso do outro sendo levado para sua anulação e consequente morte.

Por Bruno Barnabé

 

Notas: [1]: “Por duas vezes, a História Natural de Plínio, o Velho, se refere à origem da pintura. Nos dois casos e, em particular, no mito que descreve, identifica-a com a origem do retrato. O mito fala da invenção da modelagem em argila: «Ao utilizar também a terra, o ceramista Butades de Sycione foi o primeiro a descobrir a arte de modelar os retratos em argila; passava-se isto em Corinto, e ele deveu a sua invenção à sua filha que se tinha enamorado por um rapaz; como este ia partir para o estrangeiro, ela contornou com uma linha a sombra do seu rosto projetada na parede pela luz de uma lanterna; o seu pai aplicou a argila sobre o esboço, e fez um relevo que pôs a endurecer ao fogo com o resto das suas cerâmicas, depois de o ter secado.» [2]: Lima, Sergio. A Aventura Surrealista – Tomo1. Edusp – 1995 P. 321 [3]: Júnior, Hilário Franco. Os três dedos de Adão. Edusp – 201o P. 53

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