sombras brancas numa terra negra

Atualizado: 27 de jan.


Romare Beraten, Spring Way, 1964
 

Na coluna Harlem desta semana, uma breve reflexão de Langston Hughes sobre o Haiti. Em forma de notícia, quase uma crônica, Hughes reflete sobre a presença estadunidense no Haiti e, como consequência, no imperialismo e na hegemonia da cultura branca nas Américas.


Publicado originalmente em Crisis 39 (maio de 1932): 157.

 

Imagine um país em que a população nacional inteira é não-branca e você terá o Haiti - a primeira das repúblicas negras - e aquela terra pouco discutido ao sul. Para um negro vindo diretamente de Nova Iorque e aportando em Porto-Príncipe por barco à vapor, a capital é se faz sentir como se pisasse num mundo novo, num mundo mais escuro, num mundo em que as sombras brancas estão aparentemente ausentes; um mundo de seu próprio povo. Os oficiais alfandegários que inspecionam as bagagens serão negros, os taxistas serão negros ou negros claros, o hoteleiro provavelmente será pardo. Nas lojas, será atendido por vendedores negros. Nos bancos, serão os negros a descontarem seus cheques e a explicarem o câmbio haitiano. Se visitar a Câmara dos Deputados, descobrirá que o corpo governamental está repleto de rostos escuros, e mesmo o presidente da república terá um toque de cor em seu sangue. Através dos distritos nacionais, os camponeses, que perfazem o grosso da população, sorrirão por bondosos rostos negros e o visitante escuro da América se sentirá em casa e sem medo.

É sem dúvida desapontador, então, descobrir - caso já não se saiba - como as sombras brancas caíram por cima desta terra de cor. Antes de desembarcar, um marinheiro estadunidense esteve a bordo para checar seu passaporte e talvez você veja uma esquadra dos EUA ancorada no porto. Em terra, é bem provável que você se depare com um grupo de fuzileiro nos pequenos cafés, falando com sotaques “Cracker”, e bebendo ao modo turbulento estadunidense de sempre. Descobrirá que o Banque d’Haiti, com seus caixas e atendentes negros, na verdade está sob controle do National City Bank de Nova Iorque. Será informado de que todo o dinheiro coletado pela alfândega haitiana passa pelas mãos de uma controladoria estadunidense. Infelizmente, aprenderá pouco a pouco que a maior parte das lojas, com seus vendedores negros, são realmente propriedades de franceses, alemães ou judeus assírios. E se ler os jornais haitianos, rapidamente perceberá, por meio das reclamações inflamadas, que mesmo na Câmara dos Deputados, as cordas do governo são puxadas por políticos brancos na distante Washington, e que os fuzileiros estadunidenses são mantidos no país por meio de um tratado ilegal imposto ao Haiti por meio da força e nunca ratificado pelo Senado dos EUA. A pequena república de pele escura é segurada pelos cabelos por dedos brancos de estrangeiros antipáticos, e o povo haitiano vive hoje sob um tipo de ditadura militar apoiada por armas estadunidenses. Não é um povo livre.

Mas o Haiti se glorifica em sua história esplêndida, cravejada de nomes heroicos como Toussaint L’Ouverture [1], Dessalines [2] e Christophe [3]; grandes homens pretos que libertaram sua terra da escravidão e começaram a trabalhar em seu próprio destino nacional um século antes da libertação do negros estadunidenses pela Guerra Civil. Sob as poderosas lideranças acima mencionadas, os escravagistas franceses foram expulsos da ilha e o Haiti se tornou um país de pessoas pretas livres. Christophe construiu estradas e escolas, fábricas e moendas; estabeleceu leis e construiu uma grande cidadela no topo de uma montanha para defender a terra e criar um monumento em pedra que pode ser visto a milhas de distância, para que seus sujeitos possam olhá-la com orgulho. Ainda hoje, essa cidadela, majestosamente solitária contra as nuvens, a vinte milhas da cidade de Cape Haitien, é uma das maravilhas do Novo Mundo e uma das estruturas mais magníficas jamais construídas pelo homem. A história de sua construção, de como milhares de pretos trabalharam arrastando material e canhões de bronze pesadíssimos morro acima por anos, e de como suas paredes gradualmente começaram a despontar contra o céu, é belamente contada por Vandercook em Black Majesty [4], um relato da vida de Christophe.

Após a morte de Christophe em 1820, entretanto, o infortúnio se instaurou. Revolução após revolução, o país manteve-se turbulento. Políticos e politiqueiros ganharam o controle. A Cidadela, os palácios, as escolas e as estradas foram entregues ao abandono. Os pardos e os poucos pretos com dinheiro se distanciaram, como uma aristocracia, explorando os camponeses e fazendo pouco para melhorar o país, enquanto mantinham a cabeça erguida de modo orgulhoso e esnobe, em nada diferente dos antigos mestres franceses. Enviaram suas crianças para serem educadas no estrangeiro nos padrões culturais fúteis da classe alta europeia. O trabalho prático se tornou, para eles, desgostoso, e o trabalho físico indigno. Se se usasse sapatos, não se devia ser visto nas ruas carregando mesmo um pequeno pacote. Negócios e comércio foram deixados à iniciativa estrangeira. Sombras brancas começaram a cair pelo país à medida em que a aristocracia negra se tornava culta, e descuidada, pretensiosa e esnobe. Hoje, quem está lá são os fuzileiros.


Traduzido Por Gustavo Racy

 

Notas:


[1] Toussaint L’Ouverture (20 de maio de 1743, Cape Haitien - 7 de abril de 1803, Câteau de Joux), foi o maior líder da Revolução Haitiana e, logo em seguida, seu governador. Morreu aprisionado na França, sem ver a independência do Haiti em 1 de janeiro de 1804.

[2] Jean-Jacques Dessalines (20 de setembro de 1758, Vye Kay - 17 de outubro de 1806, Pont-Rouge), foi tenente-general das tropas de Georges Biassou e, depois, de Toussaint L’Ouverture. Havia servido como oficial do exército francês, tendo guerreado contra os britânicos e os espanhóis. Com a captura de L’Ouverture, tornou-se líder da libertação haitiana. Proclamou-se imperador do Haiti, erigindo um modelo napoleônico de império autoritário, hereditário e católico, que oficializou o francês e criou uma nobreza haitiana ao distribuir as terras dos colonos franceses entre seus oficiais. Foi assassinado e, com sua morte, o império foi abolido.

[3] Henri Christophe (6 de outubro de 1767, Granada - 8 de outubro de 1820, Milot), foi um atoproclamado rei do Haiti. Era general do exército haitiano quando se tornou presidente, em 1807. Revoltou-se contra o autoritarismo imposto por Dessalines, com quem entrou em conflito. Suicidou-se ao perceber que sua monarquia provocara a ira de revoltosos que terminaram, enfim, por proclamar a república.

[4] Black Majesty the life of Christophe King of Haiti. Livro de autoria de John W. Vandercook publicado em 1928. Vandercook foi um escritor britânico, nascido em Londres em 1902 e morto em Delhi, Nova Iorque, em 1963.

 

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