suor - parte I

Atualizado: 26 de jan.


Colagem por Fabiana Vieira Gibim
 

Zora Neale Hurston (17/01/1891 - 28/01/1960), foi uma escritora, antropóloga e cineasta estadunidense. Nascida no Alabama, escreveu mais de 50 contos, peças e ensaios, foi aluna da Barnard College e da Universidade de Columbia, focando-se em estudos etnográficos do folclore afro-estadunidense e caribenho, tendo sido aluna de Franz Boas.

Hurston foi, talvez, a figura feminina central do Renascimento do Harlem. Sua escrita quase naturalista, exaltando a linguagem vernácula do negro estadunidense, pintou retratos da realidade cotidiana da mulher negra, principalmente. Politicamente, Hurston foi uma republicana entusiasta da política de não intervencionismo da chamada “Velha Direita”, combatendo o comunismo e o New Deal apoiado por muitos de seus colegas do Harlem, como Langston Hughes, que, durante os anos 1930, foi um defensor da União Soviética. Entretanto, Hurston não pode ser considerada uma conservadora. Ao menos, socialmente. Seus textos demonstram grandes afinidades com o feminismo.

Em Suor (“Sweat”), de 1926, cuja primeira parte reproduzimos neste post, temos o relato de Delia, uma lavadeira da Flórida que luta contra a opressão de seu marido abusivo. O conto aborda temas como abuso físico, econômico e emocional e investiga os efeitos psicológicos dos relacionamentos abusivos, mas também se refere a uma situação socioeconômica específica dos EUA (análoga à do Brasil), em que as mulheres negras se tornavam os únicos sujeitos capazes de prover uma casa.

Suor foi publicado pela primeira vez na revista Fire!

 

Sobre a tradução

Hurston se serve de uma linguagem coloquial de difícil transliteração ao português. No original, os personagens têm suas falas escritas de modo a reproduzir o ritmo e a forma do sotaque negro da Flórida. Para evitar qualquer tipo de confusão, nossa tradução limitou-se a utilizar uma grafia mais coloquial, sem indicações propriamente regionais. Hurston também utiliza o termo “nigger”, palavra própria ao contexto estadunidense cuja profundidade enquanto injúria racial é difícil de reproduzir. Para todos os efeitos, traduzimos a palavra como “preto”, termo que pode ser, assim como a “n word”, utilizado tanto de forma amistosa quanto pejorativa. O contexto das falas é suficiente para identificar tal sentido.

 

Era onze horas numa noite dominical de primavera na Flórida. Qualquer outra noite, Delia Jones estaria na cama há duas horas. Mas Delia era uma lavadeira, e segundas-feiras eram importantes para ela. Ela coletava as roupas sujas no sábado após retornar as limpas. Domingo à noite após a igreja, ela as separava e punha as roupas brancas de molho. Isso a poupava quase metade do dia seguinte. Guardava as roupas que trazia para casa em um cesto grande posto no quarto, de forma muito mais arrumada do que se simplesmente as espalhasse pelo lugar.

Delia estava agachada no chão da cozinha ao lado de uma grande pilha de roupas, separando-as em pequenos montes de acordo com a cor, cantarolando uma melodia triste e imaginando onde seu marido, Sykes, havia ido com seu cavalo e sua pequena charrete.

Foi aí que algo comprido, redondo, mole e negro caiu sobre seus ombros e percorreu seu flanco até chegar ao chão. Delia foi tomada de um grande terror que amoleceu seus joelhos e secou sua boca, fazendo-a demorar um minuto inteiro antes que pudesse gritar ou se mexer. Vendo que era o grande chicote de couro que seu marido carregava quando conduzia, ela levantou seus olhos e viu-o parado à porta, curvando-se de rir de seu medo.

- Sykes, por que você jogou esse chicote assim em mim? – ela gritou para ele – Você sabia que eu ia assustar! Parece uma cobra e você sabe como eu tenho medo de cobra.

- Claro que sabia! Por isso que fiz! – ele bateu na própria perna e quase rolou no chão, rindo – Se você é tão tonta que tem um ataque por causa de uma minhoca ou uma cobra, eu não ligo que tô te assustando!

- Você não devia fazer isso. Deus sabe que é pecado. Um dia eu caio dura numa dessas. Outra coisa: onde você foi com minha charrete? Eu dou comida pro pangaré. Não é pra você ficar com ele por aí com um chicote.

- Você é mesmo uma preta reclamona! – ele disse, entrando no quarto.

Delia continuou a trabalhar, sem responder imediatamente.

- Eu já disse que é pra você deixar roupa de branco fora dessa casa.

Ele pegou o chicote do chão e olhou para ela. Delia continuou com o trabalho, foi até o quintal e voltou com um tubo galvanizado que meteu no tanque. Percebeu que Sykes havia juntado todas as roupas novamente com os pés e agora se punha no caminho dela, truculento, esperando com todas as forças, rezando, por uma discussão. Mas Delia deu a volta por ele, tranquila, e recomeçou a arranjar tudo.

- Da próxima vez eu jogo tudo para fora! – ele ameaçou, enquanto riscava um fósforo nas calças de veludo.

Delia não deixou de trabalhar, dando com seus ombros magros.

- Eu não quero encheção hoje Sykes. Acabei de vir da igreja.

Ele fez um barulho de desprezo.

- Sim, você acaba de chegar da igreja num domingo à noite e tá aí trabalhando. Você é uma hipócrita, uma daquelas cristãs que cantam, gritam, dizem amém e vai lavar roupa de gente branca no sabá.

Sykes pisou com força na pilha de roupas brancas, chutando-as desvairadamente enquanto cruzava o quarto. Sua mulher deu um grito de desânimo e rapidamente reuniu tudo mais uma vez.

- Sykes, pára de espalhar sujeira pelas roupas! Como é que eu posso durar até o sábado se não começar no domingo?

- Eu não ligo se você não dure até sábado! Eu tô é cansado de prometer a Deus e a homem e não vou mais aturar isso na minha casa. E não me faz careta também ou eu te sento a mão.

A mansidão habitual de Delia pareceu escorrer de seus ombros como um cachecol soprado pelo vento. Tinha-se posto de pé, seu frágil corpo e suas mãos nuas e nodosas bravamente desafiando o bruto diante de si.

- Olha só, Sykes, você foi longe demais. Eu tô casada com você faz quinze anos e eu lavo roupa faz quinze anos também. Suor, suor, suor! Trabalho e suor, choro e suor, oração e suor!

- E o que que isso tem a ver comigo? – ele perguntou, brutal.

- O que que tem a ver com você? Meu tanque encheu sua barriga de comida mais vezes do que você mesmo encheu. Meu suor pagou essa casa e eu acho que posso muito bem continuar suando nela.

Delia pegou uma panela de ferro de cima do forno e tomou uma pose defensiva, o que o surpreendeu bastante, vindo dela. Intimidado, ele não a bateu, como de praxe.

- Ah não! – ela urrou – aquela negra dentuça com quem você anda com graça não vai vir aqui não para se aproveitar do meu suor e sangue. Você não pagou por nada nesse lugar e eu vou ficar aqui até que eu bata as botas.

- Bom, é melhor você parar de me encher o saco ou então isso vai acontecer antes do esperado. Eu tô de saco cheio de você. Não sei o que fazer. Deus! Odeio mulher magrela! Um tanto surpreso por essa nova Delia, Sykes escapuliu pela porta e bateu o portão traseiro ao sair. Não disse onde ia, mas ela sabia. Ela sabia muito bem que ele não voltaria até quase o sol raia. Acabando o trabalho, Delia foi para a cama e demorou a dormir. As coisas haviam esquentado rápido!

Ficou acordada, deitada, pensando nos dejetos que se assomavam em seu matrimônio. Nenhuma boa imagem deixada pelo caminho. Qualquer flor havia sido há muito afogada no vale salgado que havia brotado de seu coração: suas lágrimas, seu suor, seu sangue. Ela trouxera amor à união e ele havia trazido desejo pela carne. Dois meses após o casamento, ele a havia dado a primeira surra brutal. Ela se lembrava de suas inúmeras viagens a Orlando, cheio de dinheiro e voltando sem um tostão, antes mesmo de o primeiro ano ter acabado. Ela era jovem e fraca, então, mas agora ela pensava em seus membros duros e musculosos, em suas mãos ásperas e nodosas, e se lançou numa dança infeliz no meio do grande colchão de penas. Tarde demais esperar pelo amor. Se não fosse Bertha seria outra pessoa. Este caso era diferente dos outros somente porque ela era mais abusada que as outras. Tarde demais para tudo exceto sua pequena casa. Havia-a erigido para sua velhice e plantado, uma por uma, as árvores e as plantas. Para ela, era amável. Amável.

De algum modo, antes do sono chegar, Delia ouviu-se dizer em voz alta: “Ah bem, o que quer que se passe pelas costas do diabo sobe pela barriga. Uma hora ou outra, como todo mundo, Sykes vai colher o que plantou”. Depois disso ela conseguiu construir ao redor de si um aterro espiritual contra seu marido. Suas conchas cortantes não mais a alcançariam. Amém. Ela dormiu e dormiu até que ele anunciasse sua presença chutando seus pés e roubando a coberta.

- Me dá essa coberta aqui! E deixa seus pé do seu lado da cama! Eu devia te encher a cara por me ameaçar com aquela panela.

Delia continuou sem respondê-lo. Uma indiferença triunfante a tudo que ele era ou fazia. * Como em todas as outras semanas, aquela foi uma semana repleta de trabalho para Delia e, no sábado, ela ia atrás de seu pônei, coletando e entregando roupas.

Era um dia quente de final de julho. Os homens do vilarejo chupavam cana apaticamente na soleira de Joe Clarke. Não jogavam as canas secas na grama, como de praxe, mas deixavam-nas pingando à beira da porta. Mesmo as conversas sofriam debaixo daquele sol. - Lá vem Delia Jones – disse Jim Merchant, quando o pangaré dobrou a esquina da rua em sua direção. A charrete vinha carregando um cesto cheio de roupa limpa.

- É! – concordou Joe Lindsay – Calor ou frio, chuva ou sol, como sempre, Delia vem aí entregando e buscando roupa no sábado.

- É bom mesmo, se ela quiser comer – Walter Thomas interrompeu – E ela era uma bela de uma moça antes de se engraçar com ele. Eu me ajeitava com ela, se ele não tivesse chegado antes.

Delia acenou rapidamente para os homens enquanto os ultrapassava.

- Muito trabalho acaba com qualquer mulher. Ele a surrou o bastante para ter matado três mulheres, que dirá ter acabado com sua aparência – disse Elijah Moseley – Como é que Sykes consegue aguentar aquela preta gorda com cara de atrasada com quem ele vem se pegando é que eu não sei. Eu juro que aquilo é o cão.

- Ah, e porque ela é gorda, é por isso. Ele sempre gostou de mulher gorda – completou Merchant – Ele estaria arranjado com uma há muito tempo se tivesse achado. Eu falei que ele veio dar em cima da minha mulher? Trouxe um cesto de noz-pecã que colheu no quintal pra ela. Sim senhor! Minha mulher! Ela disse pra ele levar tudo de volta para casa porque a Delia trabalha tão duro naquele tanque que ela acha que tudo naquela casa deve ter gosto de suor e sabão. Eu queria ter pegado ele no ato! Eu teria feito ele pegar fogo.

- Eu sei que ele faz essas coisas. Vejo ele sorrindo pra toda mulher que passa – Walter Thomas falou – Mas mesmo assim, ele deve ter tido que ser bem humilde para conseguir a mulher dele. Ela era bonita como um cachorrinho! E isso foi há quinze anos. Ele tinha tanto medo de perdê-la que ela até o fazia realizar umas tarefas caseiras. Nunca tiveram a mesma cabeça.

- Devia ter uma lei contra ele – disse Lindsay – Ele não bate bem da cabeça.

Clarke falou pela primeira vez:

- Não há lei no mundo que faz um homem ser decente se ele não tiver caráter. Tem um monte de homem que pega uma mulher como se estivesse chupando cana: é bonita, saborosa e doce no começo, mas aí eles apertam e espremem até secar cada gota de prazer que tem. Aí quando estão satisfeitos eles as tratam como cana chupada: jogam fora. Eles sabem o que fazem enquanto o fazem, e se odeiam por isso, mas continuam se apoiando nelas até que estejam vazias. Aí elas as odeiam por serem como a cana chupada e porque ficam no seu caminho.

- A gente devia pegar o Sykes e aquela mulher com quem ele está lá no pântano do Lago Howell e deitar o couro neles até que eles não consigam pedir piedade a Deus. Ele sempre foi um preto arrogante, mas desde que aquela branca do norte ensinou ele a conduzir um carro ele passou dos limites. A gente devia passar ele – sugeriu o Velho Anderson.

Um grunhido de aprovação ecoou pela soleira, mas era o calor que derretia suas virtudes cívicas e Elijah Moseley começou a provocar Joe Clarke.

- Vai Joe, fatia uma melancia aí para os seus clientes. Tá todo mundo derretendo.

- É isso aí, Joe, eu só preciso de uma dessas pra curar o banzo! – Walter Thomas juntou forças com Moseley – Vai Joe, a gente é tudo freguês e você não dá nada faz tempo. Escolhe uma daquelas grandes, das favoritas da Flórida.

- Me dá todo mundo vinte centavos e vai lá e corta – Clarke respondeu – Eu tô precisando de uma fatia também. Vai... vaquinha todo mundo. Eu empresto minha faca de carne.

O dinheiro foi rapidamente ajuntado e uma grande melancia foi trazida. Naquele momento, Sykes e Bertha chegaram. Um silêncio caiu sobre a soleira e a melancia foi guardada.

Merchant guardou a lâmina do canivete e foi até a porta da loja.

- Vai Joe, me dá um pedaço de barriga de porco e uma libra de café. Quase esqueci que era sábado, preciso ir para casa. E com isso, a maioria dos homens também partiu.

Naquele exato momento, Delia passou de novo, voltando para casa, enquanto Sykes fazia um gordo pedido para Bertha. Que Delia visse aquilo lhe dava prazer.

- Pode pedir o que quiser, benzinho. Espera um pouco Joe. Dá duas garrafas de refresco de morango pra ela, um quarto de ervilhas e um chiclete.

Como isso eles deixaram a loja, Sykes lembrando Bertha que aquela era sua cidade e que ela podia ter o que quisesse.

Logo depois os homens voltaram e comeram sua melancia.

- De onde o Sykes tirou aquela mulher? – Lindsay perguntou.

- De Apopka. Acho que estavam limpando a cidade quando ela apareceu. Ela parece um pedaço de carne com cabelo em cima.

- Ela sem dúvida sabe guinchar – Dave Carter adicionou – Quando ela tá prestes a rir ela abre a boca até a nuca. Nem jacaré do Lago Bell ganha dela. [continua]