suor - parte II

Atualizado: 26 de jan.


Colagem por Alex Peguinelli
 

Neste post publicamos a segunda parte do conto “Suor”, de Zora Neal Hurston. Nela, vemos o rápido desfecho da relação abusiva entre Delia, a lavadeira, e Sykes, seu marido.

Como ocorre já na primeira parte, o conto é repleto de simbologia. Desde o nome da personagem principal, que pode ser associado à Bíblica Dalila, que emascula Sansão, aos diversos objetos que aparecem no texto: o chicote e a cobra, símbolos associados, neste contexto, à masculinidade e ao falo (mas também ao mal); a cor branca das roupas, sempre relacionadas a Delia; as flores e as árvores, especialmente o cinamomo, perto do qual Delia obtém conhecimento, numa espécie de inversão do mito de Adão e Eva, desta vez um mito emancipador do feminino.

Como na primeira parte, ativemo-nos a uma tradução que não tenta reproduzir os maneirismo e formas de falar da Flórida negra, atendo-nos, ao invés disso, a uma simples transcrição mais coloquial da fala dos personagens, reproduzindo certos hábitos comuns do português brasileiro. Entretanto, para manter um exemplo do texto original, mantivemos o spiritual que Delia canta em sua volta da igreja em inglês.

 

Bertha estava na cidade há três meses. Sykes pagava o aluguel de um quarto na Della Lewis, a única casa da cidade que a aceitava. Ele a levava frequentemente ao Winter Park para dançar, mostrando que era o grande praça do estado todo.

- Claro que você pode ter aquela casa! Eu tiro aquela mulher de lá. Aqui é tudo meu e você pode ter o que quiser. Eu odeio mulher magrela. Você é que é boa mesmo, meu Deus! Você vai ter tudo o que quiser. A cidade é minha e você pode tudo.

Os joelhos gastos de Delia haviam rastejado no Getsêmani e subido as rochas do Calvário inúmeras, inúmeras vezes naqueles meses. Ela evitava os citadinos e os pontos de encontro em um esforço de ser cega e surda. Mas Bertha anulava isso a um tal nível com sua prepotência, chegando a ir à sua casa para chamar Sykes do portão.

Delia e Sykes brigavam o tempo todo, agora, sem intervalos pacíficos. Dormiam e comiam em silêncio. Duas ou três vezes, Delia tentou uma amizade tímida, somente para sentir repulsa a cada vez. Era claro que as brechas deviam permanecer em aberto.

O sol queimou de julho a agosto. O calor descia do céu como um milhão de flechas ardentes queimando cada ser vivo sobre a terra. A grama sumia, as folhas escureciam, as cobras cegavam trocando de pele e cachorros e homens enlouqueciam. Dias de cão!

Um dia, Delia voltou para casa e se deparou com Sykes. Preguntou-se porque haveria chegado antes dela, mas entrou em casa em silêncio, ainda que ele estivesse parado na porta da cozinha e ela tivesse que pedir para que saísse do caminho, ou então passar por baixo de seu braço. Evidentemente, ele não abriu espaço. Delia notou uma caixa de sabão ao lado dos degraus, mas não prestou atenção a ela em particular, sabendo que ele é quem devia tê-la trazido. Enquanto ela passava por baixo de seu braço ele o estendeu e de repente a puxou de volta, rindo.

- Olhe ali na caixa, Delia. Eu te trouxe uma coisa!

Delia quase caiu sobre a caixa, tropeçando. Quando viu o que continha, quase desmaiou. - Syke! Syke! Meu Deus! Tira essa cascavel daqui! Tira! Deus tenha piedade!

- Eu não tenho que fazer nada. A única obrigação que eu tenho é morrer. Não adiante fingir que você tá com medo dessa cobra! Ela vai ficar aqui até morrer. Não vai me morder porque eu sei como mexer. E ela não vai arriscar perder as presas mordendo essas suas canelas magras.

- Não Syke! Não deixa essa coisa aqui para me fazer morrer de medo. Você sabe que eu tenho medo até de minhoca. Essa é a maior cobra que eu já vi! Mata, Sykes, por favor!

- Não vem me pedir pra fazer algo pra você. Fica andando por aí se achando. Não... não vou matar não. Eu acho que ela é mais bonita que você, até! E quem não gostar que vá embora.

A vila toda logo soube que Sykes tinha uma cobra e veio ver e fazer perguntas.

- Como diabo você pegou uma cobra desse tamanho, Syke? – Thomas perguntou.

- Ela tá empanturrada de sapo. Nem consegue se mexer. Foi por isso. Eu sou encantador de cobra, sei como mexer. Isso não é nada, eu poderia pegar uma todo dia, se quisesse.

- O que ela precisa é um belo porrete de madeira na cabeça. Essa é a melhor forma de encantar uma cobra.

- Não, Walt, você não conhece essas cascavéis diamante como eu – Sykes, disse, num tom de voz superior.

A vila toda concordou com Walter, mas a cobra seguiu lá. Sua caixa permaneceu à porta da cozinha com sua tela. Dois ou três dias depois, havia digerido seus sapos e literalmente voltou à vida. Chocalhava a cada movimento pressentido na cozinha e no quintal. Um dia, quando Delia desceu os degraus da cozinha, pode ver suas presas cor de giz, curvadas como cimitarras, presas aos cabos. Dessa vez ela não fugiu de olhos arregalados, como de costume, mas ficou prostrada um longo tempo na porta, numa fúria vermelha que crescia a cada segundo que olhava para aquela criatura que era seu tormento.

Aquela noite ela tocou no assunto assim que Sykes se sentou à mesa.

- Sykes, eu quero aquela cobra longe daqui. Você me fez passar fome e eu aturei, me bateu e eu levei, mas você acabou comigo trazendo esse bicho pra cá.

Sykes encheu uma xícara de café e bebeu tudo antes de responder.

- Eu não ligo pra como você se sente. Essa cobra não sai daqui até que eu queira que ela saia. Quanto à surra, você não levou nem perto do que vai levar se ficar comigo.

Delia empurrou seu prato e se levantou da cadeira.

- Eu te odeio, Sykes – ela disse, calma – Eu te odeio do mesmo jeito que sua amante te ama. Eu aturei e aturei até ficas às tampas. Por isso eu peguei minha carta da igreja e mudei minha filiação pra Woodbrige, pra não ter que receber o sacramento com você. Eu não quero te ver perto de mim. Você só quer ficar por aí com aquela mulher, mas faz isso longe de mim! Eu te odeio como um vira-lata.

Sykes quase babou o pedaço de broa e vagens que mastigava, espantado. Limpou-se com dificuldade, deixando crescer a fúria para responder.

- Eu tô é feliz que você me odeie. Tô cansado de você pendurada em mim. Eu não te quero. Olha esse pescoço mole! Suas pernas e braços tortos são o suficiente pra um homem desejar a morte. Você parece um filhote de capeta. Não tem como você me odiar mais do que eu te odeio. Eu te odeio há anos.

- E esse seu couro preto também não dá em nada para mim. Essa sua pele frouxa com essas orelhas balançando do lado parecendo umas asas de urubu. E nem pensa que eu vou sair da minha casa. Da próxima vez que encostar em mim eu vou contar lá na casa dos brancos. Cansei – Delia disse tudo isso sem sinal de medo e Sykes saiu de casa, ameaçando-a, mas sem esboçar o menor movimento para levar as ameaças a cabo.

Aquela noite, Sykes não voltou. Como o dia seguinte era domingo, Delia se alegrou em não ter que discutir antes de preparar o pônei e se deslocar quatro milhas até Woodbrige, onde Delia permaneceu para o serviço noturno (o banquete do amor), que era caloroso e espirituoso. Os ares emotivos levaram seus problemas e privações domésticas para longe e a fizeram voltar casa cantando: Jurden water, black na’col’ Chills de body, not de soul An’ Ah wantah cross Jurden in uh calm time [1] Delia foi do celeiro à porta da cozinha e estancou.

- Qual o problema, diabo, você não morre não? – ela disse para a caixa em que a cobra ainda se encontrava. Silêncio completo. Delia entrou em casa com esperança renovada. Talvez a ameaça de recorrer aos brancos tivesse assustado Sykes. Talvez ele estivesse arrependido! Quinze anos de miséria e comiseração haviam levado Delia a um lugar em que ela esperava qualquer coisa que a fizesse ultrapassar suas inibições.

Buscou por um fósforo atrás do fogão. Havia somente um.

- Aquele preto não é capaz de garantir nada nem para salvar o próprio pescoço, mas sabe bem usar tudo que eu trago pra essa casa. Agora ainda me levou meia caixa de fósforos. E ele ainda me trouxe aquela mulher na minha casa.

Ninguém senão uma mulher poderia dizer como ela sabia disso antes mesmo de riscar um fósforo. Mas ela sabia e isso novamente a enfureceu.

Delia buscou os tubos galvanizados para deixar as roupas de molho. Desta vez ela decidiu por não trazer a cesta do quarto. Iria até lá e dividiria as roupas. Pegou o lampião e foi até o pequeno quarto, onde a cesta estava ao lado da cama branca de ferro. Ali ela poderia se sentar e descansar enquanto trabalhava, pegando as roupas através das grades da cama.

- Eu quero cruzar o Jordão na calmaria – ela cantava. O clima do “banquete do amor” retornara. Retirou a tampa da cesta quase brincando. Foi então que, movida pelo horror e pelo terror, saltou em direção à porta: a cobra estava na cesta! Movia-se vagarosamente, de início, mas enquanto Delia dava voltas apavoradas, saltando de medo, começou a se mexer vigorosamente. Delia viu-a desfilar sua horrível beleza da cesta para a cama, pegou o lampião e correu o mais rápido que podia para a cozinha. O vento que entrava pela porta aberta apagou a chama, somando ao terror. Ela correu até a escuridão do quintal, fechando a porta atrás de si antes de baixar o lampião, escalando o celeiro, sem se sentir segura no chão.

Por uma hora ou mais, ela ficou esparramada, destruída, sobre o feno.

Finalmente se acalmando e conseguindo pensar, Delia foi tomada por uma raiva fria e sanguínea. Horas disto. Um período de introspecção, um espaço de retrospecção e então uma mistura de ambas. Depois, uma calma horrível.

- Eu fiz o melhor que pude. Se vai tudo mal, Deus sabe que não é culpa minha.

Assim adormeceu, um sono leve, e acordou sob um céu cinzento. Ouviu um rugido alto vindo debaixo. Espiou e viu Sykes na pilha de lenha, destruindo uma caixa coberta de cabos. Ele correu à porta da cozinha e ficou por ali alguns minutos antes de entrar, além de mais alguns minutos dentro antes de fechar a porta.

O cinza do céu se espalhava. Delia desceu sem medo, agora, e se agachou abaixo da janela baixa do quarto. A cortina baixada isolava o amanhecer e fechava a noite do lado de dentro, mas as paredes finas não seguravam som algum.

- Aquela bruxa está acordada agora!

Delia se espantou com o tremendo zumbido do lado de dentro, que todo lenhador conhece com um som ilusório. A cascavel é um ventríloquo. Seu zumbido soa à direita e à esquerda, à frete e atrás, perto dos pés, em todos os lugares, menos ali onde ele realmente está. Aí daquele que adivinha errado! A menos que esteja preparado para se bancar. Às vezes a cascavel ataca sem fazer barulho.

Do lado de dentro, Sykes não ouvia nada até derrubar a tampa de uma panela de cima do fogão, tentando alcançar a caixa de fósforos no escuro. Havia gastado os seus na casa de Bertha. A cobra pareceu acordar sob o fogão e Sykes correu rapidamente para o quarto. A despeito de todo o gim que tomara, sua cabeça começava a voltar para o lugar.

- Meu Deus – ele disse – Se desse só para eu acender uma luz!

O guizo parou por um momento, enquanto Sykes permanecia paralisado. Esperou. E parecia que a cobra também esperava.

- Ah, foda-se a luz! Eu achei que a cobra ia estar doente – Sykes murmurava para si mesmo quando o guizo recomeçou, bem abaixo de seus pés. Bem antes disso, a habilidade de Sykes para pensar havia se tornado instinto primitivo e ele havia pulado para a cama.

Do lado de fora, Delia ouviu um grito que poderia ter vindo de um chimpanzé louco, de um gorila. Todo terror, todo horror, toda raiva que aquele homem podia expressar sem um som reconhecidamente humano.

Deu-se um rebuliço tremendo e outra série de gritos animalescos, com o guizo intermitente do réptil. A cortina foi violentamente arrancada da janela, deixando entrar a aurora vermelha e mostrando uma enorme mão marrom agarrando o puxador, seguido de golpes surdos sobre o piso de madeira, pontuando o barulho ainda depois da interrupção abrupta do guizo da cascavel. Delia podia ver e ouvir isso tudo desde seu esconderijo debaixo da janela e se sentiu mal, rastejando sobre as Mirabilis e se esticando na terra fria para se recuperar.

Ali permaneceu.

- Delia! Delia! – ela podia ouvir Sykes chamando-a em um tom desesperado, como se não esperasse resposta alguma. O sol subia enquanto Sykes chamava. Delia não podia se mexer: suas pernas tinham virado geleia. Não se mexeu. Sykes chamava e o sol continuava a subir.

- Meu Deus – ela ouviu-o dizer – Meu Deus do céu – ela ouviu-o tropeçando e se levantou de seu leito de flores. O sol começava a esquentar. Ao se aproximar da porta, ouviu seu chamado esperançoso:

- Delia, é você?

Perto da porta, Delia viu Sykes rastejar. Avançou alguns centímetros em sua direção. Era o que conseguia. Delia viu seu pescoço horrivelmente inchado e um único olho aberto, brilhando com esperança. Uma onda de pena forte demais para suportar afastou-a daquele olho que não podia deixar de ver o tanque. Ela lhe daria o lampião para ver. A cidade de Orlando, com seus médicos, estava longe demais. Delia mal conseguia alcançar o cinamomo perto do qual esperava, no calor crescente, enquanto, dentro de casa, ela sabia que um rio frio corria, extinguindo aquele olho que, a esta altura, devia saber, também, aquilo que ela já sabia.

 

[1] Água do Jordão, escura e fria/O corpo, não a alma, esfria/ E eu quero cruzar o Jordão na calmaria.

 

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