surrealismo em quadrinhos

Atualizado: 16 de set. de 2021


Maurice Henry. 1943. A Dança do Dorminhoco.
 


A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.

 

Artigo publicado no número 10-11 (outono de 1979) de Cultural Correspondance - Surrealism & its popular accomplices, revista de esquerda voltada à política e cultura editada de 1975 a 1985 por Paul Buhle, Marcia Blair e Ron Weisberger em Providence, Rhode Island (EUA). Com o texto que traduzimos abaixo, Franklin Rosemont (1943 — 2009), marido de Penelope Rosemont e um dos principais animadores do Grupo Surrealista de Chicago, apresenta uma série de ensaios nos quais contribui com com a aproximação entre surrealismo e quadrinhos, além somar-se na defesa, ilustração e elevação da nona arte. Os ensaios que Rosemont anuncia nesta apresentação dizem respeito aos seguintes quadrinistas: George Herriman, Gustave Verbeek, Milt Gross, E.C. Segar, Bill Holman, Chester Gould, Jack Kent, George Carlson, Basil Wolverton e Carl Barks. Embora não exaustiva, o que vemos configurar-se nesta seleta é uma espécie de análogo aos míticos L’anthologie de l’humour noir e Le surréalisme et la peinture, ambos de André Breton, assim como Les dingues du nonsense, de Robert Benayoun. Até onde temos notícia, semelhante livro jamais foi editado.


Surrealismo em quadrinhos Estranhamente muitos dos que se encantam com desenhos e gostam de ler hesitam quando estes são combinados, como nos quadrinhos. O desprezo generalizado para com os quadrinhos reflete os preconceitos burgueses contra todas formas verdadeiramente populares de expressão, agravado pelo secular desdém “civilizado” pelas crianças. Por isso, os quadrinhos ainda são tidos como meios preeminentemente juvenis. Os primeiros quadrinhos eram de fato voltados às crianças. Porém os editores logo viram que milhões de adultos estavam lendo por sobre os ombros dos pequenos. A anomalia continua: embora seja “oficialmente” um gênero infantil, bem mais da metade de seus leitores são adultos. Na sua infância, os quadrinhos apresentavam uma infantilidade preponderante. Porém, antes de mais nada, eram auto-conscientemente insaciáveis, como se soubessem que estavam crescendo, e por isso tinham fome de tudo que estava à vista, afirmando com fúria sua maestria sobre qualquer obstáculo. “As pessoas são usualmente boas”, disse o Buster Brown, de Richard Outcault, “quando não há nada melhor para fazer”. Com frequência os primeiros personagens de quadrinhos não pareciam saber bem o que estavam fazendo; entravam em enrascadas involuntariamente, contra si mesmos. E o mesmo se dava com os quadrinhos enquanto meio. E é sob os pretextos de “entretenimento” e até mesmo de “turbinar a circulação” que a poesia encontra aí um inesperado refúgio. Indo para além da literatura, para além da “arte”, os quadrinhos apontam para um novo tipo de poesia “hieroglífica”. Neste sentido, significativamente, vários surrealistas exploraram os quadrinhos como meio, especialmente nos últimos anos. Alguns dos quais são Karol Baron, Paul Colinet, Maroin Dib, Robert Green, Maurice Henry, Matta, Jacinto Minot, Hal Rammel, Ribitch Rikki, Pierre Sanders e Martin Stejskal, dentre outros. Alguns de seus trabalhos são reproduzidos nesta edição de CC. Um estudo especial sobre a contribuição do surrealismo aos quadrinhos haveria de ser realizado. Enquanto isso, nestas páginas começamos pelo começo, com o objetivo de especificar algumas das contribuições dos quadrinhos ao surrealismo.

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