teses sobre a revolução cultural

Atualizado: 27 de jul.


Colagem por Rodrigo Corrêa
 

Teses sobre a Revolução Cultural


1. O objetivo tradicional da estética é o de fazer sentir, na privação e na ausência, certos elementos passados da vida que, através de uma mediação artística, escaparam à confusão das aparências, sendo estas aquilo que sofre o reinado do tempo. O grau de sucesso estético se mede, pois, por uma beleza inseparável da duração e que tende mesmo a uma pretensão de eternidade. O objetivo dos situacionistas é a participação imediata em uma abundância de vida passional através das variações de momentos perecíveis resolutamente arranjados. O sucesso de tais momentos só pode consistir em seu efeito passageiro. Os situacionistas vislumbram a atividade cultural, do ponto de vista da totalidade, como método de construção experimental da vida cotidiana, desenvolvida permanentemente pela extensão dos prazeres e pela desaparição da divisão do trabalho (a começar pela divisão do trabalho artístico).


2. A arte pode deixar de ser um relato sobre a sensação para que se torne uma organização direta de sensações superiores. Trata-se de produzirmos e não de coisas que nos escravizam.


3. Mascolo [1] tem razão ao dizer (em “Le Communisme”) que a redução da jornada de trabalho pelo regime da ditadura do proletariado é “a certeza mais segura que possa dar de sua autenticidade revolucionária”. De fato, “se o homem é uma mercadoria, se ele é tratado como uma coisa; se as relações gerais dos homens entre si são relações entre coisas, isto se dá porque é possível comprar seu tempo”. Entretanto, Mascolo conclui apressadamente que “o tempo livremente empregado de um homem” é sempre bem gasto, e que “a compra do tempo é o único mal”. Não existe liberdade no emprego do tempo sem a posse dos instrumentos modernos de construção da vida cotidiana. O uso de tais instrumentos operará o salto de uma arte revolucionária utópica a uma arte revolucionária experimental.


4. Uma associação internacional de situacionistas pode ser considerada como um sindicato de trabalhadores de um setor avançado da cultura ou, de modo mais exato, como um sindicato de todos aqueles que reivindicam o direito a um trabalho que é impedido pelas condições sociais atuais.


5. Nos encontramos praticamente separados da dominação real sobre os poderes materiais acumulados por nosso tempo. A revolução comunista não foi concretizada, e ainda nos encontramos nos quadros da decomposição das velhas superestruturas culturais. Henri Lefebvre [2] enxerga esta contradição como estando exatamente no centro de um desarranjo especificamente moderno entre o indivíduo progressista e o mundo, e nomeia a tendência cultural que se funda sobre esse desarranjo de “romântico-revolucionária”. A insuficiência da concepção de Lefebvre consiste no fato de fazer da simples expressão do desarranjo um critério satisfatório para uma ação revolucionária na cultura. Lefebvre renuncia, assim, a toda experiência de modificação cultural profunda, satisfazendo-se com um único conteúdo: a consciência do possível-impossível (ainda muito distante), que pode ser expressa sob qualquer forma que tome dentro do quadro de decomposição.


6. Aqueles que pretendem ultrapassar a velha ordem estabelecida em todos seus aspectos não podem se fixar à desordem do presente, mesmo na esfera da cultura. É preciso lutar também na cultura, e não esperar pela aparição concreta da ordem do futuro em movimento. É esta possibilidade, já presente entre nós, que desvaloriza todas as expressões nas formas culturais conhecidas. É necessário encaminhar todas as formas de pseudo-comunicação à sua total destruição, para que um dia se alcance a comunicação real e direta (e nossa hipótese de trabalho de meios culturais mais elevados: a situação construída). A vitória será daqueles que saberão criar a desordem sem amá-la.


7. No mundo da decomposição podemos testar nossa força, mas não podemos empregá-la. A tarefa prática de superar nosso desacordo com o mundo, isto é, de superar a decomposição por meio de algumas construções superiores, não é romântica. Seremos “românticos revolucionários”, no sentido dado por Lefèbvre, exatamente no grau de seu fracasso.


INTERNACIONAL SITUACIONISTA #1, 1958 Guy Debord

Tradução de Gustavo Racy

 

Notas:

[1] Dionys Mascolo (1916-1997). Membro da Resistência, militante político e ensaísta francês. Aderiu ao PC Francês em 1946, influenciado por Edgar Morin e rapidamente se desilude com a situação, indo contra a pretensão do Partido de intervir no campo artístico, principalmente. Também foi próximo do Surrealismo, que recebeu bem seu livro "Le Communisme". Aí, ficou próximo de André Breton e Jean Schuster. Além disso era companhia frequente de Maurice Merleau-Pontu, Claude Roy Maurice Nadeau e Jean-Pierre Vernant. [2] Henri Lefebvre (1901-1991), foi um filósofo, sociólogo e geógrafo do materialismo histórico francês. Grande responsável pela difusão do marxismo na França do Século XX, foi aluno de George Gurvitch, redator da La Nouvelle Critique e figura importante no movimento anticolonial e antinuclear. É conhecido por sua "Crítica Cotidiana" (que inspirou a Internacional Situacionista), além de "A Produção do Espaço" e suas análises de sociologia urbana e rural.

 

Conheça o canal no youtube da sobinfluencia edições:







63 visualizações0 comentário