therèse plantier (1911-1990)

Atualizado: 29 de jun. de 2021


Colagem por @atofalh0


A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.

 

Thérèse Plantier (1911-1990) é uma mulher cuja aventura orientou-se pela revolta contra a opressão feminina e rumo à libertação da mulher inteira.

Ela, que definia o amor como uma “fremente necessidade”, casou-se quatro vezes, sendo que aos 70 que conheceu seu último marido Robin Morlot, ele então com 25 anos, o qual viria a cometer suicídio depois do falecimento de Thérèse.

Muito próxima de Simone de Beauvoir e Violette Leduc, realiza estudos críticos sobre filosofia, antropologia, etnologia, etc., propondo um “femonismo integral”, conceito que sintetiza um feminismo holístico, expresso tanto em sua obra teórica quanto poética.

Em dezembro de 1964 Vincent Bounoure propõe na revista do movimento surrealista La Brèche uma audaciosa enquete sobre as representações eróticas. A resposta de Thérèse Plantier — que traduzimos e publicamos pela primeira vez em português n’A Fresta— faz Breton parabenizar-lhe por sua “violenta vontade de vertigem”, ao que Thérèse responde: “Eu me expresso somente enquanto surrealista. Ainda não chegamos num tempo no qual podemos expressar-nos de outra maneira”.

Dentre suas produções destacamos Os anjos diabólicos (Les Anges diaboliques, éd. Confluences, 1945) e O discurso do macho - Logos spermaticos (Le Discours Du Mâle - Logos Spermaticos, Anthropos, 1980), ambas inéditas em português.

 

Primeiras respostas à enquete sobre as representações eróticas

A engenhosidade dispensada na enumeração das posturas dos parceiros sexuais no ato de fazer amor [1] tem como contrapartida o silêncio no que diz respeito às posições mentais e às representações imaginárias associadas ao mundo objetivo. Será que daríamos crédito às palavras de amor se elas não portassem a esperança de fusão entre o real e imaginário cujo encontro dos amantes é uma forma de alegoria? É digno de interesse que um parceiro ausente (inacessível; de acordo com a preferência?) possa substituir-se imaginariamente ao real. Mas este eclipse tem somente o valor de um exemplo simples. Lembremos que a imagem poética ganha em potência com a distância que separa ordinariamente os objetos que ela aproxima. Solicitamos que sejam respondidas às seguintes questões:

- Como caracterizam-se suas representações imaginárias no ato de fazer amor? Elas são justificadas por um juízo de valor? São espontâneas ou voluntárias? sucedem-se numa ordem fixa? Qual?

- Como elas interferem na representação objetiva que você tem do seu parceiro(a)? De você mesmo(a)? Do seu entorno?

- O espetáculo interior conserva na vida cotidiana vestígios das representações que se oferecem a você no ato de fazer amor?

- Do seu ponto de vista elas têm uma relação com a sua criação poética? * THÉRÉSE PLANTIER

Me desculpem por eu falar aqui somente de mulheres. Não sei o que pensa uma porta, um castor, um bacharel ou ainda não sei o que eu penso quando não associo a particularidade de um gesto à de uma palavra. Se me denomino com a palavra mulher, falarei aqui somente em nome disso, nome que é o mesmo dos demais seres nos quais aceito reconhecer-me. Se por acaso os machos (homens) se reconhecem em nós, tanto melhor para eles e para todo mundo.

A imagética erótica da menina parece-me nula até a idade de três, quatro anos. No bebê o erotismo permaneceria conceitual, ligado à proibições, o que não significa que ele não tenha acesso ao plano dos prazeres intensos. A imagem ainda não nasceu. Sem futuro nem passado, a menina-bebê vive no interior de um conchada rachada, de uma capucha e quando ela olha, enegrece. Eu mesma só experienciava o gozo quando proibido, gozos indeléveis. A qualidade que dá cor a cada sensação, qualidade cuja persistência depende de uma escolha devida ao temperamento, nomeio erótica quando ela atinge um certa intensidade, mesmo se não é associada a uma parte do corpo, mesmo se, por exemplo, ela depende da ideia que me faço do proibido. Eu devia ter três anos (pude certificar-me remetendo-me às datas em que minha família ocupou residências diversas); meu pai e minha mãe me levaram ao jardim que uma platibanda separava do jardim da proprietária, com a qual eles estavam brigados, estendendo sua reprovação à filhinha desta senhora, e proibindo-me de brincar com a menininha, um pouco maior que eu. Lembrarei-me sempre dos alegres e saltitantes transes que meu coração experimentava quando meu humilde corpo errava pelas aléias do jardim, de mãos dadas com a menininha proibida, assim como do terror com o qual dedicava-me a esta frágil volúpia, que poderia ser destruída em questão de segundos pelo chamado dos meus pais; mas o que eles estavam fazendo para estarem impedidos de me chamar?

Tenho muitas outras lembranças. Não seria meu gosto por dourado e alaranjado ao longo de toda minha vida devido à paixão com a qual roubava pequenas insígnias — duas mãos de cobre encimando uma fita —, das quais meu pai era depositário em nome de alguma Fraternidade? Mas então, nada de símbolos, de imagens substitutivas: o ato, levado a cabo na revolta, o medo e a ansiedade (“estás tremendo, carcaça!”) e, destas sombras, jorrando, vermelha, a volúpia.

A representação imaginada [2], o duplo, nasceu em mim mais tarde, entre quatro e seis anos, ao mesmo tempo que o orgasmo, descoberto por acaso e sem possibilidade de associá-lo a esta restrição que chamamos de corpo, ou ao contexto social que chamamos de amor. Dediquei-me à trepar nas coisas, como a maioria das crianças dessa idade (se elas vivem nas árvores estão de posse dos prolegômenos do erotismo). O atrito da minha barriga contra um magro tronco onde, encerrado-o com minhas pernas, eu ia subindo, um dia desencadeou o orgasmo, fazendo-me deslizar até o chão, atordoada. Que sorte! Dali em diante ninguém além de mim deslocava-se verticalmente ao longo dos fustes rígidos. Sem nenhum tipo de segundas intenções, pode-se dizer que fiz amor durante um certo tempo, achando isso tão natural que jamais veio-me a ideia de contar para alguém, assim como ninguém se gabaria por ter tomado um copo d’água. Depois, com cerca de dez ou onze anos, na época da pré-puberdade, ou época na qual faltavam-me árvores, pois eu havia sido enviada para o liceu, enfim, na época na qual não mais convém a uma menina mostrar sua calcinha aos meninos zombeteiros, parei de ter orgasmos e esqueci completamente disso, sem saber que não ignorava mais nenhum dos prazeres que supostamente um marido deve arranjar para você.

Por outro lado — pois isso jamais se deu ao trepar nas coisas —, comecei a sonhar, a arranjar volúpia, assim como horror, a partir de imagens às quais colocava-me voluntariamente à disposição. E, do mesmo modo que o sonho não interferia no orgasmo, ele não suprimia o gosto por violar o proibido. Acredito que foi por essa idade que fazia enemas numa coleguinha, sem ter orgasmo, mas sentindo a mais viva das satisfações. Sem dúvida alguma haviam me dito que tocar o traseiro dos outros é “caca”. Deste modo, dedicava-me secretamente a isso com a maior frequência possível, mas num sentido de seriedade e revolta na qual mais tarde reconheceria minhas necessidades de Revolução. Quanto à sonhação voluptuosa, praticava na em solitude, não sem entregar-me nesse domínio ao excesso para o qual impelia-me um caráter de fogo. Instalava-me debaixo das alcachofras do jardim (podem ver que eu não era nada alta! Mas não tratava-se mais do jardim de Bon-Secours. Dou-me conta de que minha primeira infância se passou nos jardins), ou mesmo nas duas barras de ferro onde era colocada a roupa para ferver no escaldador. Aos meus pés o monte de cinzas, ou um cubo de terra erguido por mim para servir de estrado à minha boneca, inspirava-me as mais loucas imagens tingidas de sadismo. C0m cerca de seis anos, não eram poucos os elementos que eu possuía. De um lado, o gozo formidável provocado por violar a proibição; de outro, orgasmos deveras negligenciáveis; depois a sonhação voluptuosa com imagens frequentemente combinadas com histórias (nascimento de uma poesia?); por fim, e ainda não falei disso, a angústia com a morte. Acordava suada na minha caminha para gritar, tão alto que minha mãe vinha correndo: “Não quero morrer!”. Mas as sensações sucediam-se umas às outras, carregadas de terror ou prazer, ou dos dois juntos, sem que eu tivesse o poder de sobrepor-me a elas por racionalizações: isto veio mais tarde, com a puberdade, cujo papel talvez tenha sido de amaciar as emoções. Erotismo, morte e revolta cobriram minha infância com o brilho de cacos de vidro espalhados na estrada.

Será que todas as crianças vagam entre conceitos, imagens e necessidades? Pode ser que algumas menininhas, criadas em apartamentos fechados, não descubram o orgasmo. Aquelas cujos pais amáveis adoram ter por perto sem dúvida sentem menos que eu a necessidade de comunicação e o gosto pela Revolução. Mas a sonhação, a imaginação chegam até elas mesmo assim? Quem sabe? Dosagens sutis e arriscadas obrigam-nos a sermos adultas. Da minha parte, estava preparada para não contentar-me com a confusão. Eis-me púbere, provida de estilhaços ressoldados, ao menos é o que penso. O ato de fazer amor estava disposto de modo revelar-se para mim enquanto tal? Parece-me que não. O pensamento vinha-me ao acaso, como o orgasmo ou a volúpia, mas pode ser que eu deva isso ao meu caráter de entusiasmar-me com o que me acontece (de essencial, naturalmente, pois o resto, ou os acontecimentos, muitas vezes não me divertem). Dedicava-me apaixonadamente aos métodos, de modo algum estes ensinados pelos professores mas, sim, por estas pessoas sobre as quais glosa a Universidade: os escritores. Eu li. Aqui talvez estejamos alcançando a origem da criação poética. Se na época da puberdade continuada pela adolescência apresenta-se cultura à uma criança sensível e colérica, ela liberta-se dos seus medos e de seus arrebatamentos nesta cultura, a qual depois jamais perderá seus fulgores de paixão. Transferir a explosão da infância à cultura considerada como um novo modo de existência, tal é a origem das poesias de rimbaudianas e das vicissitudes deste estilo de vida (pedantismo acreditar que não se é poeta por não escrever; mesquinharia pensar que o melhor de uma personagem passa à sua escrita; xucrice não permitir a finesse perder a vida).

Pois bem, foi-me difícil levar a sério o ator de fazer amor, aquele no qual é preciso ser dois para desencadear o orgasmo. Que eu saiba o ato de fazer amor, ou o coito, não tem relação alguma com o orgasmo. Eles não vêm pelos mesmos caminhos, o coito sendo um ato implicado no social, contrariamente ao narcisismo infantil. O “amor” dá as costas à infância, onde no que diz respeito ao prazer sexual tudo acontecia na cavidade uterina, não preenchida por gêmeos. Muito do que eu tinha de sonhações e arrebatamentos desaguou, por equívoco de pedagogia, naquilo que se convém reservar ao rigor intelectual, de modo que sobrava-me bastante para afeiçoar-me ao desenvolvimento de certos órgãos tendo em vista sobressaltos recatados. Meus parceiros sexuais, ainda que os escolhesse dentre os mais distintos espécimes, graças ao meu gosto pela forma, no momento crucial raramente mostravam-se à altura dos meus sonhos e paixões. Na primeira vez em que me entregava a um deles, num cenário deveras exaltante de colinas perfumadas por manjeronas, numa noite de lua cheia, não tive a impressão de ter cometido uma proeza, tampouco de ter violado um tabu. Naturalmente, nada de prazer. Simplesmente uma participação devida ao aroma gostoso dos bosques. Nem o rapaz nem eu — aposto que estávamos previamente empanturrados de juras de amor — tínhamos nada o que FAZER juntos. Entretanto, não há dúvida alguma que o prazer sexual exige dos adultos uma preparação que denominamos desejo. Mas se amor est laetitia, concomitante idea causae externae [3], com a entrada do Outro num jogo no qual prescindíamos dele sem problemas, Spinoza exprime-se como onanista arrancado de seus sonhos, como criança desapontada, como eu. Ele distingue absolutamente o orgasmo — produto das cócegas da excitação — da ideia de sua causa externa, o orgasmo sendo obtido de dentro, como o mais elementar dos terrores. Ele não vê como o primeiro poderia ligar-se ao segundo, senão por um inexplicável acaso, o qual faz surgir ao mesmo tempo, concomitantemente dois fenômenos, um pertencente ao domínio das sensações e o outro ao das ideias ou representação, ou ainda, em termos freudianos, das imagens. Para ele, todas as imagens são lícitas na medida em que são concomitantes não ao ato de fazer amor, mas à excitação, e não podemos conhecer nenhuma causa externa a não ser a ideia que nós nos fazemos dela. Contudo, acontece que durante o coito duas imagens sobrepõem-se: uma relativa à causa externa, ou parceira; a outra, ou outras, em relação com as verdadeiras causas do orgasmo, as quais, por ventura, podem mesmo representar uma parte do parceiro. Mesmo a mulher que se acredita ou que acreditamos ser a mais desprovida de imaginação, sabe: a sensação “pura”, a vaginal, copula com uma representação, a do falo de seu parceiro de time. Mais intensa é a representação que ela se faz do orgão local, mais intenso é o titilar. É preciso defender-se do preconceito da simplicidade: não existem humanos instintivos, os quais identificam-se com uma conduta exclusiva. De fato, quanto mais as pessoas abandonam-se ao que elas pensam ser a simplicidade dos instintos, mais neuróticas elas são; quanto mais elas parecem grosseiras, mais complexos são seus atos. A viva representação do falo do homem desejado, dos seus lábios ou de qualquer outra parte do seu corpo, é somente um fetichismo. Fora da comunhão intemporal, ou da desunião temporal, não há amor.

Pois acredito no amor, nos encontros apaixonados, na persistência dos dourados e vermelhos nos objetos cotidianos que a alegria transfigura, acredito na descoloração total do mundo quando o ser amado se vai. Mas jamais soube grande coisa sobre meu parceiro de coito, fosse ele amado, desejado ou suportado. “Em psicologia não dispomos, escreve Raymond Becker (todavia um homem!), de um conceito de realidade deveras evidente para elaborar um critério objetivo com relação a isso”. Também tenho de confessar que as transferências eróticas de uma representação à outra me são familiares. Sem que isso exerça a menor influência sobre meus sentimentos. Até mesmo observei que a concordância das minhas representações imaginárias com minhas representações objetivas na maioria das vezes significavam somente uma ausência de sentimentos amorosos. Meu interesse pela imagem que me faço do falo e da pessoa utilizada no coito se dá com frequência, é triste mas verdadeiro, em razão do interesse que devoto ao portador do órgão. Eu me gabo. Deveria somente dizer que sempre me pareceu que me abandonaria aos mais fortes gozos nos braços de um homem desprovido de consciência, de um ser de pura aparência. Não seria este ser aquele cuja realidade objetiva se fundiria no imaginário? Então seria preciso que eu concluísse que é somente na medida em que durante a cópula substituímos o ser amado por um diversidade de imagens, que em seguida na nossa vida cotidiana substituímos a imagem ideal do ser amado aos objetos banais. Não o recriaríamos no não-desejo à medida que o esquecemos no desejo? Talvez esta seja uma atitude de poeta. Mas como saberei alguma coisa sobre aqueles que não o são?

 

Notas: [1] Nota do tradutor: Assim traduzimos a expressão francesa acte d’amour (literalmente, ato de amor), correntemente traduzida por ato sexual, para sublinhar o ato e o amor, envolvidos num fazer que de sá a partir do encontro entre corpos desejantes. [2] N.do t: em francês, imagée, algo como imageada - portanto, ligeiramente diferente de imaginada (imaginée). [3] “Amor é a Alegria concomitante à ideia de uma causa externa”, trecho extraído da parte três (“Sobre a origem e a natureza dos afetos”), da Ética de Baruch Spinoza, na tradução de Roberto Brandão.

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