traços neocoloniais

Atualizado: 27 de jan.


Colagem por Rodrigo Corrêa
 

Em São Paulo um adolescente haitiano entrou no ônibus e reconheceu um ex-colega de trabalho brasileiro, também adolescente. Apesar do entusiasmo, sentaram-se separados. Um tempo depois, o brasileiro juntou-se ao haitiano e perguntou muito pausadamente:

– Ainda tá naquele trabalho?

– Sim

– Eu tô em outro que folga sábado e domingo. De segunda a segunda pra mim não dá.

Entre muita dificuldade para entenderem um ao outro e alguns silêncios constrangedores, o brasileiro insistiu:

– Você tá morando onde?

– Na Sé

– Sozinho?

– Com mais 3

– Sua família?

– Não, amigos. Família tá no Haiti.

– Mora com o Fet?

– Sim, Fet meu primo.

– Fet é seu primo? Não sabia! Então é família, pô!

– Sim! (risos)

– E queria voltar pro Haiti?

– Sim, mas não dá

– Muito caro?

– Isso também. Uns 3 mil reais!

– Nossa! Mas tá juntando?

– Tô, mas falta muito... muito mesmo…

Tive que descer do ônibus antes do fim da conversa. Bem antes da Sé. Muito longe do Haiti.


***


Um documentário na TV fala sobre a febre dos grupos de dança de suingueira entre os jovens das favelas do Recife. Esse subgênero do axé se fundiu com o brega, o frevo, outros ritmos e, na periferia recifense, organizam-se times, ensaios, festas e campeonatos. O assunto gera polêmica entre os pais. Um deles, evangélico recém-convertido, recorre ao conceito de livre-arbítrio ao falar do filho, que é gay. Diz já ter gostado da dança antes da conversão mas declara: "é incompatível com Jesus". O outro pai tem a pele preta como a do filho, que trabalha em sua produtora de mega-eventos. Apoia a dança desde que o filho trabalhe:

- Se for igual meu filho, que trabalha, eu concordo. Mas tem muito jovem que só dança.

- E quem dança sofre muito preconceito?

- Claro, pois é algo de periferia, né. Aí o povo discrimina. E é até algo de cor: dificilmente você vê um loirinho dançando suingueira.


***


Eneida dos Reis diz que o negro brasileiro de pele clara e de classe-média transita entre 2 mundos. Parcialmente integrado pela condição econômica, convive em espaços em que a negritude é rara, mas é visto como inferior nesses espaços pela sua condição racial. Frantz Fanon comenta que nas colônias francesas do Caribe era normal que os negros classificassem seus filhos numa escala de hierarquia entre “do mais claro ao mais escuro”. Kabengele Munanga denuncia que o negro no Brasil é sempre tratado com distinção ("moreno, neguinho, preto, escurinho, de cor"), mas quando assume sua negritude e luta contra o racismo ouve que "nem é tão preto assim!".


O Brasil racializa para excluir e exalta a miscigenação para fingir que integra, apagando o signo racial. Infelizmente, a experiência da própria violência racista é a régua para perceber-se negro. Frantz Fanon, novamente, ensina que a dominação colonial faz com que os colonizados reproduzam o mesmo preconceito e discriminação do qual são vítima –“A arma mais forte do colonizador é a mente do colonizado” – dialogando com o famoso trecho de Marx e Engels no livro “A Ideologia Alemã”: “As ideias dominantes em uma sociedade são as ideias da classe dominante”.


Em um fim de semana de 2015 fui nos bowls de skate do Arpoador, no Rio. Na pista, havia uma meia-dúzia fumando maconha e outros aparentemente vendendo. Tudo tranquilo, mas um clima estranho. Estava voltando para a praia com minha companheira, dois policiais vinham subindo, um negro e um branco, e um deles me parou. Eu estava só de bermuda e chinelo e ele mandou mostrar o que eu tinha nos bolsos. Mostrei e ele mandou mostrar o bolso de trás também. "Pode ir". Minha companheira, branca, estava com uma bolsa mas ele não pediu para ver. O policial que me abordou tinha a pele muito mais escura que a minha.


Fazia uns 4 anos desde minha última abordagem.


Nessa, um policial federal branco me revistou e abriu minha mala no meio da rodoviária de Joinville, Santa Catarina, pois, segundo ele, "alguém havia assaltado a lanchonete". Em 2015, meu primeiro assalto de fato: levaram meu celular. Um assaltante negro e um branco, em Curitiba. O negro devolveu meus documentos: “ele tá colaborando, devolve a carteira aí”.


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É preciso explicar uma confusão muito comum: racismo não é só quando uma pessoa xinga, agride ou mata a outra unicamente por sua cor de pele. Racismo significa ser, durante toda uma estrutura de vida, prejudicado por ser negro.


O Racismo no Brasil é estrutural.


Está na base do capitalismo brasileiro e reproduz uma desigualdade econômica, social e ideológica: vê a pele escura como símbolo de subalternidade (de inferioridade, de contra-beleza, de criminalidade, etc) e vê a vida do negro com menos valor. Portanto, matar o negro é mais aceitável, traz menos consequências e menos comoção.


Se o episódio do fuzilamento dos 5 jovens no Rio de Janeiro acontecesse com um carro de garotos brancos voltando da Gávea para Copacabana, a polícia agiria da mesma forma? Não.


Logo, o homicídio foi racista sim. Fruto da mentalidade racista brasileira, da promoção do racismo institucional pelo estado brasileiro. Se existem negros na Polícia Militar do Rio, isso só mostra que: 1) a colonialidade brasileira ainda faz com que sujeitos racializados reproduzam o mesmo racismo do qual são vítima, pois o modelo de identificação é o branco; 2) a corporação esvazia a subjetividade de seus soldados durante sua formação e fomentando a crença da "guerra à um inimigo interno", criada na Ditadura.


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É comum ouvir pessoas afirmarem que as análises que consideram a classe como categoria fundamental, e não como apenas mais um “recorte”, acabam negligenciando as particularidades da questão racial brasileira.


Por outro lado, acompanhamos a visão de autores como Clóvis Moura, Florestan Fernandes e Neusa Santos Souza, que colocam raça e classe como elementos indissociáveis do capitalismo brasileiro.


Simultaneamente, o racismo estrutural determina a exploração de classe e a exploração de classe determina o racismo estrutural. Assim como Heleieth Saffioti, esquecida feminista brasileira, trabalhou o termo patriarcado-capitalismo por entender patriarcado e capitalismo como “duas faces de um mesmo modo de produzir e reproduzir a vida”, é possível afirmar que vivemos em um racismo-capitalismo brasileiro. Embora seja o racismo – assim como o patriarcado – historicamente anterior ao advento do capitalismo, “a formação social capitalista agudiza as contradições atuantes em qualquer sociedade centrada na propriedade dos meios de produção”.


Sabemos que nas sociedades em que domina o modo-de-produção capitalista há uma contradição fundamental entre a classe proprietária e a classe dos “que não possuem propriedade ou capital e que, portanto, são forçados a vender sua força produtiva aos detentores de ambos”. No Brasil, na passagem do escravismo para a república, a manutenção da propriedade e do capital, foi cuidadosamente preparada pelo poder tradicional colonial para se manter como classe dominante. Quanto mais próximo da classe proprietária brasileira, mais brancos se vê. Quanto mais próximo da classe que conta apenas com a venda da sua força-de-trabalho para sobreviver, mais negro se é no Brasil.


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“Não levamos a ingenuidade até o ponto de acreditar que os apelos à razão ou ao respeito pelo homem possam mudar a realidade. Para o preto que trabalha nas plantações de cana em Robert só há uma solução, a luta. E essa luta, ele a empreenderá e a conduzirá não após uma análise marxista ou idealista, mas porque, simplesmente, ele só poderá conceber sua existência através de um combate contra a exploração, a miséria e a fome.” — Frantz Fanon, 1952


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Texto de Rafael Bessa.

 

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