trajetórias feministas do operarismo - parte II & III

Atualizado: 2 de mar.


Colagem por Alex Peguinelli

Link para a primeira parte do texto ao fim do post.

 

O trabalho contra o trabalho: perspectivas de luta As pesquisas operárias [inchieste operaie] conduzidas à época dos Quaderni Rossi permitiram identificar, para além das lutas organizadas, um conjunto de práticas espontâneas, não necessariamente conscientes, particularmente formas de sabotagem e certa passividade respeitante ao próprio trabalho. Se, em certos casos, essa passividade espontânea pode ser um freio quanto à tomada de consciência e à atividade revolucionária, à vontade de luta, amiúde constitui uma “forma elevadíssima de luta operária”[10], visto que demonstra uma recusa em colaborar. Para que esta desemboque numa atividade revolucionária, será preciso superar tal passividade: a classe operária “deve reconhecer-se como potência política. Deve negar-se como força produtiva”[11]. Essa recusa ao trabalho, enfatizada pelo operarismo, será reconhecida por Mariarosa Dalla Costa na queda significativa da taxa de natalidade no pós-guerra, interpretada nos termos da recusa ao trabalho de procriação:

“As mulheres aumentaram sua capacidade de rejeitar o controle do Estado sobre a procriação […]. Desde então, a família, lugar central do trabalho não remunerado e da dependência pessoal, revela-se como o principal terreno em que as mulheres são capazes de resistir e de organizar-se a nível de massa.” — Mariarosa Dalla Costa, “Reproduction et émigration”, in Collectif L’Insoumise (Org.), Le foyer de l’insurrection: textes sur le salaire pour le travail menager. Genève: L’insoumise, 1977.

Enquanto, para Tronti, o trabalho era um meio de combater a racionalidade capitalista, ao organizar dentro dela e contra ela “a crescente irracionalidade dos operários organizados”[12], o grupo Movimento di Lotta Femminile de Pádua ressaltava não a recusa radical da procriação, mas, antes, uma separação desse modo de reprodução ante o planejamento racional que o capitalismo lhe impunha. Denunciando o controle do capital, que busca impor às mulheres ritmos de procriação funcionais às necessidades dele, elas escrevem:

“Começou a circular certa literatura que convoca as mães, particularmente as mães europeias, a uma responsabilidade social pelo planejamento da produção dos filhos. A isso logo respondemos que o tipo de responsabilidade social que propomos não é, em absoluto, o que consiste em ajustar o nível salarial; mas o que destrói qualquer nível salarial, qualquer mecanismo salarial, de modo que possamos, todas, fazer todos os filhos que quisermos e apenas quando quisermos […]. Fazer amor toda vez que quisermos, fazer filhos toda vez que quisermos em um clima sereno, cálido e belo.” — Movimento di Lotta Femminile di Padova, “Maternità e aborto”, in Dalla Costa, Potere femminile e sovversione sociale, pp. 110-1.

Para as mulheres, trata-se de acabar com o papel que o capitalismo lhes confere: se a classe operária, como parte integrante do capital, deve lutar antes de tudo contra si mesma, para aquela parte da classe operária constituída pelas mulheres, trata-se em particular de “recusar precisamente o papel feminino que o capital inventou para nós”[13]. A questão do salário era central para o operarismo porque os confrontos com as reinvindicações salariais cristalizavam a luta pelo poder operário. Mediante a questão do salário, buscava-se tornar politicamente operante a recomposição de classe. Do mesmo modo, não obstante a reinvindicação dum salário para o trabalho doméstico por certo intentasse atacar o mais-valor e, além disso, contivesse aspirações de justiça, importava a reivindicação em si mesma, pois promovia a luta das mulheres e a organizava em torno da consciência de uma subjetividade comum em que uma perspectiva revolucionária poderia se apoiar. O objetivo, portanto, não é tanto o de ser paga, ou melhor paga, pelo trabalho realizado quanto o de estabelecer uma luta contra esse trabalho enquanto tal e, a partir disso, contra a organização da sociedade que o relegou às mulheres. O apoio dos operaristas a reivindicações locais e localizadas, muito específicas e concretas, que prometiam fundamentalmente uma mudança quantitativa e não qualitativa da situação de exploração na qual se encontravam os operários deve ser compreendida nesse contexto. Como escreve Steve Wright em Storming Heaven, “para esses operários, falar de salários mais altos e de ritmos de trabalho mais lentos possuía uma concretude ausente de grande parte da propaganda de esquerda, enquanto a luta para conquistá-los continha a possibilidade de uma nova identidade coletiva”[14]. Pensemos agora na afirmação de Kathy Weeks, que descreve o movimento “Wages for Housework” como um “projeto reformista com aspirações revolucionárias”[15]. Trata-se, portanto, de, por intermédio dessas reivindicações concretas, dar início a um processo de desidentificação, com vista a justamente “romper a identificação capitalista”[16]: “nós queremos chamar de trabalho o que é trabalho para que, ao fim, possamos redescobrir o que é amar e criar nossa sexualidade, a qual nós nunca conhecemos"[17]. Em termos trontianos, essa redescoberta significa opor à valorização capitalista a autovalorização proletária, ao valor de troca, o “valor de uso”, a “liberação de novas necessidades”[18]. Conquanto a questão de quem deveria pagar o salário doméstico – o Estado, os capitalistas – nunca tenha sido verdadeiramente resolvida, faltou ao movimento sobretudo um lugar concreto de enfrentamento, o que acabou por limitar suas chances de sucesso. Se a luta por essas reivindicações desempenhou essencialmente um papel de tomada de consciência, e se, por esse motivo, ajudaram diversas mulheres a afirmar-se, a recusar o trabalho a elas imposto ou a afastar-se de certas concepções de feminilidade e de passividade que possuíam, essa tomada de consciência por si só não pôde desempenhar um papel decisivo para uma melhora estrutural das condições das mulheres. Como se vê hoje, a questão da divisão do trabalho entre setores produtivo e improdutivo é resolvida somente com a “exportação” desse trabalho, por parte das velhas “working class housewives”, para as mulheres imigrantes. Atualmente, o trabalho doméstico é, muitas vezes, remunerado, mas com uma integração ao mercado que não emancipa nem as mulheres que o realizam nem aquelas integradas aos setores do trabalho “produtivo”. É a partir dessa constatação que pretendo interrogar a possiblidade de reatualização das perspectivas feministas operaristas para pensarmos as lutas atuais. Luta feminista e compromissos No que diz respeito à luta feminista, a questão do lugar de enfrentamento, tanto hoje quanto à época, é uma questão não resolvida. Essa questão está ainda mais viva hoje, uma vez que, desde então, foram desenvolvidas formas de trabalho mais flexíveis, mais independentes, mais precárias, mais “feminizadas”[19]. A esfera da reprodução, portanto, não é mais essa fábrica oculta, atrás da produção, mas está integrada à estrutura produtiva. Nesse contexto de subsunção total da sociedade ao capital, as relações de domínio se exacerbam e, além disso, levam a uma maior confusão: ante a difusão, a disseminação das dinâmicas de extorsão do trabalho imaterial, torna-se mais difícil saber como e contra o que se organizar[20]. Portanto, identifico diversos problemas nas reivindicações feministas atuais, quer se trate do movimento feminista “hegemônico”, “institucional”, ou do movimento que se tornou mais visível estes últimos anos e que se afirma “inclusivo” e “intersecional”. Primeiramente, a relação com o Estado. Embora os mecanismos pelos quais o Estado e suas instituições sejam muitas vezes e corretamente identificados pelo movimento feminista como agentes (instrumentos) de opressão, este continua a voltar-se ao Estado como fornecedor e promotor, por um lado, de direitos, e, por outro, de repressão. No fim das contas, tanto a área institucional do feminismo quanto seus setores mais radicais exprimem a questão central nos termos únicos dos “direitos das mulheres” (aos quais se adicionam, conforme o contexto, outras minorias sexuais e/ou de gênero). Assim, permanecem limitadas a uma abordagem substancialmente individualista. Trata-se de um obstáculo difícil de superar, pois certo número de direitos deve ainda ser conquistado ou garantido, e, de fato, o Estado é o único que tem o poder de concedê-los. Mas é precisamente por isso que a relação com o Estado deve tornar-se uma relação de força, mesmo que corramos o risco de nos defrontarmos com outro obstáculo, mais problemático: o de recorrer ao Estado como aparelho repressivo contra aqueles que violam esses direitos, não obstante os pressupostos racistas e classistas que sempre acompanharam a repressão. A esse respeito, o apoio de certo feminismo – nesse caso, o feminismo hegemônico francês – às leis islamofóbicas ou que penalizam o trabalho sexual é um exemplo claro dum “feminacionalismo” que permite a algumas feministas ver seus interesses convergir com os dos promotores do Estado (neo)liberal e imperialista. Na realidade, esses dois obstáculos se dão ao mesmo tempo, pois é em razão do fato de que o Estado (democrático, ocidental), a princípio, é um garante dos direitos das mulheres que se pode, de vez em quando, permitir-se legitimar suas políticas imperialistas em nome do próprio progressismo, além de reprimir, no interior de suas fronteiras, aqueles que são especificamente suspeitos de não lhe aquiescer. Para o movimento feminista, então, seria mais que profícuo retornar às teorias feministas operaristas, que nos recordam como o Estado não tem nada a oferecer às mulheres além de uma maior integração à lógica do mercado para melhor responder às necessidades do capital. Quanto a isso, pouca coisa mudou desde a análise que o Lotta feminista fez do aborto. É verdade que o aborto agora é legalizado[21]. Mas, em grande parte, ele manteve seu caráter de imposição às mulheres de sua situação econômica ou profissional. Signo dos investimentos tecnológicos realizados nessa área, o congelamento de óvulos pode se tornar uma prática encorajada, e mesmo patrocinada, por certas empresas... De todo modo, uma das principais denúncias do movimento feminista continua a ser a atribuição maciça de contratos de jornada parcial às mulheres, como se o problema fosse representado pelo tempo parcial e não pelo saário reduzido que o acompanha. Nesse contexto, as feministas devem apoiar os movimentos pela diminuição do tempo de trabalho: o fato de ter e de criar filhos não deve ser obstáculo ao ganho de dinheiro, mas uma razão para se trabalhar menos. Assim, evidentemente não se trata de contratar tempo de trabalho para a privatização da reprodução social, mas, ao contrário, de usar as reivindicações de diminuição do tempo de trabalho como alavanca no contexto duma relação conflitiva com o Estado capaz de, ao mesmo tempo, reivindicar investimentos públicos nesses setores. Pleitear trabalhar menos não deve, para as mulheres, implicar um melhor equilíbrio da “divisão do trabalho doméstico” com seus cônjuges, mas, ao invés, o deslocamento do lugar de enfrentamento, do espaço doméstico, onde as mulheres são mais vulneráveis, para o espaço público da luta coletiva. O movimento feminista deve recordar-se desta frase de Tronti:

“Dizemos que todo elo dessa corrente oferecerá a ocasião de um embate aberto, de uma luta direta, de um ato de força; e que o elo em que a corrente se partirá não será aquele em que o capital é mais fraco, mas aquele em que a classe operária é mais forte.” — Tronti, “Vecchia tattica per una nuova strategia”, in Operai e capitale, pp. 99-100.

Se transpusermos essa perspectiva para o movimento feminista contemporâneo, um fato interessante será revelado, pois logo se nota como ele busca atacar prioritariamente o domínio sobre as mulheres exercitado pelos homens mais fracos: os homens de classe operária, os homens não-brancos. Se, com essa consideração, Tronti nos mostrava onde não atacar, trata-se agora de determinar onde as mulheres são mais fortes. Que isso não desagrade o movimento feminista hegemônico, mas na França os movimentos recentes que levaram maior número de mulheres às ruas para manifestar sua dissidência foram, duma parte, “A marcha pela dignidade”, dirigida por um coletivo de mulheres contra o racismo e a violência policial, e, doutra, as manifestações feministas em favor das trabalhadoras do sexo e contra a islamofobia, que, sozinhas, foram capazes de levar mais gente às ruas que a marcha oficial do 8 de março pelo dia da mulher. Se essa perspectiva pode parecer ao movimento feminista um compromisso quanto a seus fins, permanece o fato de que entre o compromisso com o Estado e um compromisso com a classe operária, é sempre melhor optar pelo segundo.


[10] Tronti, “Marx, forza-lavoro, classe operaia”, in Operai e capitale, p. 228. [11] Ibid., p. 263. [12] Tronti, “Il piano del capitale”, in Operai e capitale, p. 80. [13] Silvia Federici, “Salários contra o trabalho doméstico”, in O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista, trad.: Coletivo Sycorax, São Paulo: Elefante, 2019. [14] Wright, Storming heaven, cap. 5, p. 111. [15] Kathi Weeks, The Problem with Work: Feminism, Marxism, Antiwork Politics, and Postwork Imaginaries, Durham; London: Duke University Press, 2011, cap. 3, p. 136. [16] Nicole Cox e Silvia Federici, Counter-Planning from the Kitchen: Wages for Housework: A Perspective on Capital and the Left. Now York: New York Wages for Housework Committee, 1976, p. 8, apud weeks, The Problem with Work, cap. 3, p. 130. [17] Federici, “Salários contra o trabalho doméstico”, in O ponto zero da revolução, p. 49, tradução corrigida. [18] Centro di Ricerca per l’Azione Comunista, L’operaismo tra mito e lustrini, § 3. Disponível em: http://www.autprol.org/public/news/doc000330201012002.htm [19] “A feminização do trabalho é a aplicação a todos os indivíduos dos dispositivos de assujeitamento historicamente e antes de tudo aplicado às mulheres, é a captura, o desvio e a integração à esfera da produção de um tipo de valorização até então negligenciada, que passa brutalmente pela esfera dos afetos – o amor, o zelo, o cuidado, a cooperação, a solidariedade, a partilha –, que é entendida como exterioridade absoluta do mundo do trabalho produtivo e que foi tradicionalmente relegada às mulheres”. Judith Revel, “Devenir-femme de la politique”, Multitudes, v. 12, pp. 125-33, 2003, p. 127. [20] De acordo com diversos pensadores operaristas, dos quais se destacam Mario Tronti e Antonio Negri, o trabalho submetido ao capital se caracteriza por um processo de socialização cada vez maior, dado primeiramente no interior de um espaço produtivo circunscrito, como a oficina e a fábrica, e posteriormente no espaço ampliado da esfera social. O conceito de trabalho imaterial, criado, em âmbito (pós-)operarista, por Maurizio Lazzarato e Antonio Negri é uma das mais recentes tentativas de descrever esse trabalho desenvolvido na dita “fábrica-social”, isto é, no terreno produtivo ampliado. Caracterizam o trabalho imaterial tanto a produção de mercadorias que não se definem por seu aspecto material (como softwares e algoritmos) e a prestação de serviços (como principalmente o de cuidados) quanto a exigência de competências intelectuais, comunicacionais e afetivas, anteriormente ausentes do chão de fábrica, na produção informatizada. [nt] [21] Recorde-se que a autora se refere ao contexto europeu e, sobretudo, francês. [nt]


Maio Insurgente

  • Este texto é a parte II e III da tradução de nosso companheiro e colaborador Jefferson Viel, a quem somos muito gratos, do texto Traiettorie femministe dell’operaismo, de Morgane Merteuil.

  • Este é o texto #03 da nossa parceria com a GLAC edições, Maio Insurgente. Textos inflamáveis produzidos nos ecos revolucionários de Maio ao redor do mundo.



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