um livro ou um prato de comida

Atualizado: 2 de mar.



Colagem por Fabiana Vieira Gibim

Hoje, às cinco e meia, como de costume acordei junto com a minha mãe, na cama única que temos dividido num quartinho na casa da minha tia que, cozinheira, já estava batendo panelas cedo.

Vi minha mãe cambalear pra se vestir, tonta da compenetração do sono, cansada, inchada. Caminha até as panelas junto da minha tia, começa a trabalhar no que te resta. 200g, 250g, “gente fitness não come muito, malha mais que come”, ri. Coloca tudo nos potinhos, cuidadosamente organizados de acordo com a tabela nutricional freestyle do que pensamos ser o “balanceado”. Cozinha até às 11 horas e, de bicicleta com três máscaras, uma luva de látex e eu na garupa, sai para entregar as encomendas de marmitinha na porta da Santa Casa. Minha mãe tem 58 anos, há alguns deles encontra trabalho em brechas que abre aos socos - faz crochê, vende roupas de brechó, cozinha almoço para vender.

Chega na muretinha da Santa Casa e se senta, com a caixa plástica improvisada e espera, em companhia do risco e do perigo, alguém comprar a sua comida. Todo dia ao meio dia, na tentativa cega da vida, palitando os dentes com a morte. A minha mãe lê o mesmo panfleto de vacinação que transborda aos montes do balcão do hospital. De vez em quando circula uma palavra ou outra com a caneta, enrola ele nos dedos, faz desenhos apressados nas figuras, nas porcentagens de mortos, nos laudos, nas pesquisas. Ontem eu dei uma cópia de Tomada de Posse para ela; leu comigo um pouquinho e sempre reclama: “você sempre com essas coisas, tem que ter um equilíbrio”, pisca a língua, confusa. Diz pra eu parar de ler, prefere passar um tempo em silêncio, olha fixo para um casal de capivaras que toma sol como quem espera o cérebro dilatar um pouquinho, repousar no canto do crânio, dormir a vida que foi drenada no suor da pedalada de chinelinho, na falta de sono ou na lágrima que cai quando não vende nada.

De vez em quando minha mãe não vende nada. Volta pra casa às quatro, frustrada. Sentada do meu lado, almoçando tarde o arroz puro que sobrou, me confidencia: “viu, como as pessoas entubadas comem?"


Texto de Fabiana Gibim, editora da sobinfluencia.

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