uma hora com neel doff - parte I de II

Atualizado: 3 de fev.


Colagem por Alex Peguinelli
 

Nesta primeira meia hora de “Uma hora com Neel Doff”, traduzimos parte da entrevista da autora holandesa a Frédéric Lefèvre, publicada no Les Nouvelles Littéraires, em 21 de dezembro de 1929.

Neel Doff (1859-1942), foi uma importante autora holandesa radicada na Bélgica. Mais conhecida por sua “Sinfonia da Fome”, trilogia semi-autobiográfica, Doff foi uma autora de sensibilidade crua, geralmente ligada ao naturalismo. Feminista, Doff militou para que as vozes femininas fossem ouvidas, tanto no texto quanto no próprio campo literário. Seus romances, proletários por definição, retratam a vida do subproletariado do final do Século XIX, bem como das simplicidades complexas da vida emotiva e do cotidiano.

Por ser mulher e estrangeira, foi-lhe negada a oportunidade de receber o Prêmio Goncourt, maior distinção literária da França. Ainda assim, foi autora de renome entre seus pares, principalmente entre os colegas anarquistas e socialistas, como Laurent Tailhade, Octave Mirbeau, André Baillon, Georges Duhamel, entre outros artistas de diferentes expressões. Nesta primeira parte da entrevista, Doff fala um pouco de si, de sua vida, da experiência da miséria nas duas primeiras décadas de sua vida até a publicação de seu primeiro romance, Dias de Fome e Desamparo, em 1911. Adquira Dias de Fome e Desamparo, de Neel Doff.

 

Neste sábado recebi o novo livro de Neel Doff, composto por duas grandes novelas: Elva, que intitula o volume, e Dans nos bruyère. Junto ao livro, ao invés de uma dedicatória, uma carta com o endereço da autora em Bruxelas. Por algum motivo que não posso identificar, eu imaginava que Neel Doff, com justeza a escritora mais célebre da Europa e do mundo, morava em alguma vila perdida na Holanda.

Sem um segundo de hesitação, tomei o primeiro trem, que partia em meia hora e, às duas e meia, soava a campainha de Neel Doff, que mora no bairro de Porte de Namur.

Comovi-me como há muito não acontecia. Neel Doff deveria ter estado presente na minha coluna Horas com... há muito tempo, entre Thomas Hardy, autor de Jude, the obscure e Tess of the d’Uberville, com quem tive o prazer de passar um dia inesquecível em sua casa em Max Gate, Dorchester, poucos anos antes de sua morte, e Johan Bojer [1] ou Ramuz [2]. Neel Doff faz parte da falange pouco numerosa de escritores autênticos, para quem escrever é uma necessidade tanto quanto um ato; um ato necessário, mais frequentemente um ato revolucionário, um ato de revolta contra a baixeza e a mediocridade de uma existência tão dura para a maioria.

Neel Doff, a princesas dos escritores não-conformistas...

Jours de famine et détresse, Contes farouches, Keetje, Keetje trottin, Angelinette, Campine, Elva. Sete livros, sete obras-primas.

** Sou apresentado a uma governanta flamenga que se expressa dificilmente em francês e que sem dúvida é a substituta de Elva. De fato, ela tem um ar grave demais para que nela eu reconheça a donzela, por usurpação de ofício, que deu o nome ao último livro da grande romancista.

Simples, alegre, alerta e sorridente, Neel Doff me espera em seu grande escritório no primeiro andar. À parede dispõem-se pôsteres enquadrados de Toulouse-Lautrec, datadas de 1894 e 1895: May Milton [3], May Bedford, que cantava no Chat-Noir, Jane Avril, do Jardim de Paris. Outro poster, talvez o mais belo, é uma publicidade de um livro, Babylone d’Allemagne, de Victor Joze [4], presente em todas as livrarias! Impossível tirar meus olhos dos magníficos ulanos ali retratados. Em primeiro plano, um oficial atlético volta seus olhos a nós, devidamente arrogante. As mechas de cabelo que desaparecem têm um brilho estranho. Penso na glória e em Victor Joze. Victor Joze está morto, bem morto; Neel Doff é imortal, e é o romance natimorto de Victor Joze que foi revelado às massas pelo imortal Toulouse-Lautrec, ironicamente!

O livro, ocasião e objeto da ilustração, afundou para sempre no limbo de autores sem personalidade, enquanto o pôster segue lá, o que nos emociona e testemunha mais uma vez que um bom artista sabe permanecer fiel às pequenas coisas tanto quanto às grandes obras. Não há gênero ingrato, mas um constante dever de permanecer sempre igual a si mesmo. Neel Doff segue meu olhar e, sem dúvida, adivinha e partilha de meu pensamento. Pequena e charmosa, ela se instala diante de mim como se fosse continuar a digitar em sua pequena máquina portátil. Ao lado da máquina, um grande calhamaço de folhas datilografadas.

Peço desculpas por interromper seu trabalho.

- Não, não é um novo romance. Não estou inspirada neste momento e jamais me forço a trabalhar. Mas, como é preciso trabalhar de qualquer modo, quando estou em período de estiagem, eu me divirto com traduções. Esta é uma tradução de uma jovem holandesa desconhecida em França, Carry van Bruggen [5]: Het Huisje Aan de Sloot, que quer dizer O casebre à beira da córrego. Neste livro a autora descreve a vida de judeus pobres numa pequena cidade rural holandesa. É pitoresco e comovente.

** Miro minha interlocutora. Ela fala de forma vivaz, entusiasmada. Como são finos seus cabelos brancos! Que chama juvenil neste olhar imóvel! Que idade teria? Ela confessa, com coqueteria:

- Nasci em 27 de janeiro de 1858. Meu pai, um frísio robusto, era guarda civil e minha mãe era rendeira.

Terceira numa família de nove filhos, frequentei a escola intermitentemente. Era minha tarefa vestir, cuidar, acompanhar e vigiar meus irmãos e irmãs.

Meu pai era uma pessoa tão boa que não pode continuar como integrante da força policial, já que ele avisava aos caçadores ilegais que a polícia viria lhes buscar! Assim, nós partimos para Amsterdã, onde ele se tornou cocheiro. Um cocheiro com nove filhos significa uma miséria sem expressão! Para aqueles que não conheceram a miséria da qual partilhei por vinte anos, é difícil imaginá-la. Os ricos possuem uma falta de imaginação terrível a esse respeito e, de fato, não sei se isso é absolutamente culpa deles: a verdadeira miséria, aquela que vivi, é extremamente rica em nuances. A infelicidade deste tipo não reside somente em sofrer de fome, não é não conhecer a compostura, é ser malvestido, é não morar em lugar decente, não poder visitar as pessoas que você gostaria e ser reduzido a promiscuidades desagradáveis. Por vezes, vivemos numa cave dos bairros baixos de Amsterdã e sempre que uma inundação se produzia durante a noite, nos despertávamos bruscamente, semi-submersos...

Ser pobre é, sobretudo, não poder estudar como se deseja. É ser separada da beleza em todas as suas formas por milhares de obstáculos que são, em sua maioria, insuperáveis... Neel Doff se cala por um instante, olhando para longe. Ela suspira, agita uma mão como para espantar visões demasiado tenazes e retoma sua fala:

- Quando recebi seu telegrama me regozijei em vê-lo, mas me pus, ao mesmo tempo, inquieta. Você me parece um juiz de instrução. Que posso eu dizer-te sobre os apelos de Oriente ou sobre os Estados Unidos da Europa? Acima de tudo tenho medo de que me interrogue sobre Deus – ela diz, sorrindo – porque não sei nada dele, realmente nada!

Não sou nem ideóloga, nem doutrinária. Toda minha obra nasceu de minha miséria, miséria esta que suportei, junto aos meus, durante vinte anos e que me amorteceu pelo resto da vida, me tornando sensível a todas as misérias do mundo. Toda vez que vislumbro ao meu redor seres impossibilitados de se desenvolverem, crianças dotadas para o estudo, mas que não podem aprender porque devem ganhar a vida desde muito cedo eu revivo as angústias de minha adolescência.

Interrompo-a:

- Esta piedade que perpassa todos os seus livros, de Jours de famine et détresse a Elva, passando por Contes Farouches, Angelinette ou Keetje, comove ainda mais os leitores porque ela permanece improfessa. Você a faz surgir de suas próprias histórias, de sua atitude perante a vida, assim como ela nasce em nós cotidianamente do espetáculo mesmo da vida e não de princípios ou argumentos. Mas por que você esperou até 1911 para publicar seu primeiro livro?

- Se eu esperei tanto, foi porque eu detinha a cultura, mas não detinha instrução. Até meu vigésimo ano de vida, não sabia nada em francês a não ser a palavra non. Só aos vinte e oito anos meu marido me fez aderir ao Conservatório de Bruxelas, no qual se deu um trabalho extremamente sério de dicção e iniciação aos clássicos. Tratava-se de retirar o sotaque dos alunos, o que nunca é fácil: é necessário interromper a cada palavra mal pronunciada.

Mas o gosto pela leitura me era inato. Desde a tenra infância passei noites em claro lendo! A leitura foi minha paixão, maior mesmo que o amor.

- Você não havia escrito nada antes de Dias de fome e desamparo? Sua estreia foi com essa obra-prima?

- Eu escrevera um romance, sobre o qual comentei a Georges Eekhoud [6] na ocasião de uma exposição. Mas ele me cortou logo no início de forma tão jocosa que eu mesma rejeitei meu manuscrito, tirando-o da gaveta anos depois somente para queimá-lo. Sempre tive esse desejo de me expressar. Sempre o senti, como se uma nostalgia, como um apelo a qualquer coisa que me faltasse, uma lacuna, um pedaço.

** Num dia de inverno – eu morava, então, em Antuérpia – assisti de minha janela a um espetáculo que descrevo sob o título de Visão, nas primeiras páginas de Dias de fome e desamparo, nas quais concluo que: “São sempre os maltrapilhos a serem espancados”. Ao ver esse menino apanhar simplesmente porque era miserável, operou-se uma rememoração violenta de minha infância, em que me lembrei de cenas análogas nas quais meus irmãos foram os heróis, isto é, as vítimas.

Tomei em mãos um lápis e pequenos papeis e me pus a escrever. Tudo saiu de uma só vez, sem rasuras. Me lembro disso como se fosse ontem: era 28 de fevereiro de 1909, na avenida Sul de Antuérpia. Quando o caderno acabou, o livre estava pronto. Experimentei, então, uma maravilhosa sensação de apaziguamento e serenidade, como se tivesse vingado a minha infância, bem como a de todos aqueles miseráveis. Entretanto, a sensação durou pouco e foi novamente tomada por uma tristeza terrível. Entremeios, recebi a visita de uma amiga e quis lhe pedir sua opinião sobre aquilo que eu havia escrito. Ela achou aquilo tudo muito bom, “porém – ela disse – minha opinião não conta mito. Já que Laurent Tailhade [7] está se hospedando comigo, venha nos visitar para o chá e você mesma pode lhe mostrar seu livro”. Respondi ao convite e comecei a ler, notando que Tailhade não tirava os olhos de mim.

De tempos em tempos, intimidada e crendo que abusava da boa vontade, eu pausava a leitura, mas Tailhade me perguntava imediatamente se havia mais e me pedia que continuasse. Eu lia [...] e o livro. Quando terminei, Tailhade se levantou, e me tomou pelas mãos, apertando-as com emoção: “É admirável [...] mas, sobretudo, não altere nada. Ele disse duas vezes: “Não altere nada”. Voltei para casa contente e guardei meu manuscrito numa gaveta.

Não havia dito nada a meu amigo, até que um dia, alguns meses mais tarde, recebo uma carta de Laurent Tailhade me interrogando: “Onde estão nossos segredos literários?”. Meu marido demandou uma explicação e, quando soube de que se tratava, ele quis ter a opinião de Verhaeren [8] que, após a leitura do manuscrito, deu o seguinte veredicto: “É morto. É preciso galvanizá-lo, meter um pouco de vida”. Só mais tarde eu fui saber o que o poeta queria dizer com isso: ele queria retórica e palavras sonoras. [continua]

 

Notas:

[1] Johan Bojer (06 de março de 1872, Orkdal – 03 de julho de 1959, Oslo), foi um romancista, dramaturgo e contista norueguês muito traduzido para o francês. [2] Charles Ferdinand Ramuz (24 de setembro de 1878, Lausana – 23 de maio de 1947, Pully), foi uma escritor e poeta suíço de expressão francesa que versou sobre as esperanças e desesperos humanos, muito inspirado por outras formas de arte, como a pintura e o cinema. [3] Dançarina britânica, retratada na famosa tela Moulin Rouge (1892-1895), de Toulouse-Lautrec. [4] Jose Dobrski de Jastzebiec (1861, Wyszogród – 1933, Asnières-sur-Seine), foi um escritor e jornalista francês de origem polonesa. [5] Caroline Lea de Haan (1 de janeiro de 1881, Smilde – 16 de novembro de 1932, Laren), foi uma escritora neerlandesa, filha de um chazan, cantor judeu de tradição ortodoxa, que escreveu também sob os pseudônimos Justine Abbing e May. Van Bruggen foi uma apoiadora do feminismo, ainda que cética de seu momento, e teve uma relação conturbada com o establishment literário de sua época, sendo reconhecida por sua importância às letras neerlandesas somente depois de sua morte. [6] Georges Eekhoud (27 de mao de 1854, Antuérpia – 29 de maio de 1927, Schaerbeek). Importante romancista flamengo de expressão francesa. Foi um dos pilares do naturalismo belga, sendo parte dos movimentos Les XX (Os Vinte) e La Jeune Belgique (A Jovem Bélgica). Eekhoud foi um desafiador das morais, fazendo de seu romance, Escal-Vigor, um dos primeiros romances homoafetivos da tradição continental da época. São dele, também, Nouvelles Kermesses e La Nouvelle Cathage. [7] Laurent Tailhade (16 de abril de 1854, Tarbes – 2 de novembro de 1919, Combs-la-Ville), foi um polemista, poeta, militante anarquista e maçom francês. Escreveu sob inúmeros pseudônimos: Azède, El Cacheteo, Dom Junipérien, Lorenzaccio, Patte-Pelue, Renzi e Tybalt. Vinha de uma tradicional família de magistrados e oficiais ministeriais, que o forçaram em um matrimônio burguês, exilado no campo, na tentativa de conter sua vida boêmia literária. Foi fortemente influenciado pelo parnasianismo. [8] Émile Adolphe Gustave Verhaeren (21 de maio de 1855, Saint-Amand – 27 de novembro de 1916, Rouen), foi um poeta flamengo de expressão francesa. Influenciado pelo simbolismo, Verhaeren praticava versificação livre fortemente influenciada pelo anarquismo, situando muito de sua obra no pitoresco das grandes cidades. Como Eekhoud, foi membro da La Jeune Belgique. Entre suas principais obras estão, Les Villes tentaculaires, Les villages illusoires e Les villes meurtries de Belgique. Foi admirado por Max Elskamp, Maurice Maeterlinck, Stéphane Mallarmé, André Gide, Rainer Maria Rilke e Stefan Zweig, entre outros.