uma hora com neel doff - frédéric lefèvre parte II

Atualizado: 26 de jan.


Colagem por Rodrigo Corrêa

 

Nesta meia hora, apresentamos a segunda parte de “Uma Hora com Neel Doff”, entrevista da autora holandesa a Fréderic Lefèvre, publicada no Les Nouvelles Littéraires, em 21 de dezembro de 1929.

Autora de “Dias de Fome e Desamparo”, nova publicação da sobinfluencia, neste trecho final da entrevista vemos Doff contar a história da publicação de seu livro na França e o processo que a levou a concorrer ao Prêmio Goncourt. Doff fala, também, de seu processo criativo e da tarefa de sua literatura como um trabalho imaginativo de resgate da realidade, de modo a reformá-la, concentrando-a ao redor de um “grande sentimento”. Adquira Dias de Fome e Desamparo, de Neel Doff.

 

- Dois anos mais tarde, Madame Octave Maus [1], de Bruxelas, enviou meu manuscrito a Lugné-Poe [2]. Este, por sua vez, encaminhou-o a Fasquelle [3], que se tornou meu primeiro editor. Tendo adquirido o livro, Francis Jourdan [4] o enviou a Mirbeau [5], que se engajou cedo na luta para que eu recebesse o prêmio Goncourt. Houve sete ou oito turnos de escrutínio, mas minha qualidade de estrangeira se mostrou um obstáculo intransponível e restaram-me os votos de Gustave Geffroy, Lucien Descaves e Mirbeau.

- O Prêmio Nobel de 1930 reparará a injustiça do Goncourt de 1911.... – eu disse.

Neel Doff sorriu. Meu Deus, que belo sorriso!

- E você reencontrou Mirbeau depois disso?

- Sim, enquanto me encontrava em Paris, em 1913, reencontrei-o em companhia de George Besson [6]. Ele morava em algum canto do banlieu que eu desconhecia e veio nos buscar de carro na estação. Tinha uma figura inchada e pálida, os calcanhares grossos de quem sofre de gota. E estava surdo. Mostrou-me sua magnífica galeria de pinturas: Cézanne, a quem eu jamais havia visto, me foi uma revelação. Meus anos de miséria me haviam deixado o estômago frágil, de modo que um chá me era necessário após cada refeição. Não ousei pedi-lo a Mirbeau e, por isso, fui tomada por uma enxaqueca atroz, dizendo a mim mesma que devia estar lhe parecendo estúpida. Minha confusão aumentou quando passeamos por seu vasto jardim repleto de flores magníficas. “Como devo lhe desagradar” – eu repetia a mim mesma – “pois ele não colheu nem mesmo um pequeno buquê para sua visita!”. Esse é um costume belga que não se ignora jamais. Mirbeau estava sozinho, pois Madame Mirbeau havia partido numa viagem alguns dias antes de nossa chegada.

- Seu segundo livro publicado foi Contes farouches, que abre com a magnífica Stientje, que é uma das coisas que prefiro em sua obra.

- Sim. Eu publiquei Contes farouches em 1913, mas não é meu livro preferido. Os que prefiro são o primeiro e Kettje trottin. Em Elva, que foi publicado agora, não há nenhuma invenção, nem mesmo transposição; não mais do que nos três-quartos de Dias de fome e desamparo e do que na maior parte de minha obra. Acredito que, para um escritor, a imaginação não consiste simplesmente em inventar, mas em resgatar em sua memória uma realidade profundamente vivida e em reformar essa realidade concentrando-a ao redor de um grande sentimento. Para mim, este sentimento, como já te disse, é a piedade por esses seres numerosos aos quais se refuta a possibilidade de que persigam seu desenvolvimento completo sem barreiras. Tenho piedade por todos aqueles que são tratados pelo destino como miseráveis. Mas eu fui muito, e por muito tempo, miserável para ser romântica perante a miséria. Isto é bom para aqueles que a retratam desde fora. Quantas maravilhas não surgiram do lazer! Não desejo miséria para quem tem, mas bem-estar para quem só compartilha miséria. O bem-estar não é dado ao homem para se empanturrar, mas para florescer na alegria e para produzir.

A miséria e a morte são as duas realidades mais terríveis.

[Minha interlocutora se levanta]

O que me causa desgosto é ir para a cova. Não é o dia após a morte que me espanta. Depois da morte, eu não temo nada. O que me desgosta é não estar mais ali. Minha mãe, com crenças como essa, se envenenou assim em seus últimos anos de vida. Mas ela, ao menos era capaz de chorar como uma criança. Eu mesma não tenho o mesmo alívio.

** Enveredando para esse tom mais íntimo de confidência, a entrevista se prolonga. Neel Doff me fala de seus amigos franceses: Duhamel [7], Léon Werth [8], o poeta Charles Vildrac [9], uma visita que um dia lhe fez André Baillon [10], de quem ela tem em alta conta a Histoire d’une Marie; de Colette [11], que ela encontrou diversas vezes e de quem ela ama particularmente la Maison de Claudine, “em que a vida é potentemente resumida”, e Envers du Music Hall, em que ela reencontra “os acentos de uma piedade que não se engana”.

Como eu a interrogo sobre seus livros de cabeceira, ela me confessa ter lido quatro vezes os onze volumes das Mémoires de Saint-Simon, e que ela retorna frequentemente aos Lundis, de Sainte-Beuve.

Para ela, Balzac é um deus; Heine, seu poeta favorito: “Descobri Goethe há três anos, apenas” – ela confessa – “E me apaixonei imediatamente. No ano passado eu li o Goethe de Jean-Marie Carré [12]. Essa semana começo o de Ludwig [13]”.

Conheço Diderot muito bem. Sou fanática pelas Confissões de Rousseau, mas seu Julie me cansa. Voltaire me foi revelado no Conservatório, a partir de seu Zaïre e aquilo me estonteou. Há alguns anos eu li seus Contos. Foi um clarão.

Veja – ela adiciona – eu nunca me alimentei senão por livros e por minha própria conta. Cada vez que um escritor toca a vida diretamente, ele se torna uma grande pessoa.

Mas hoje eu não sei mais ler os romances franceses contemporâneos, com suas eternas histórias de amor. Eu prefiro os livros que me fornecem documentos verdadeiros, como as Mémoires, por exemplo, ou os Souvenirs entomologiques, de J.-H. Fabre [14].

** Na primeira página de sua admirável biografia de Romain Rolland [15], cuja tradução francesa será em breve publicada, Stefan Zweig [16] escreve, pontual e justamente: “O Destino tem como tendência sua petrificar em formas trágicas a vida dos grandes homens. Ele ensaia a melhor de suas forças sobre os mais robustos, adereça o absurdo de suas contingências perante seus projetos, influencia seus destinos com alegorias misteriosas e barra suas trajetórias, para lhes tornarem fortes ali onde devem ser. O destino joga com eles um jogo sublime, porque nele todo vivido é um ganho. Os últimos a chegar entre os poderosos deste mundo, Wagner, Nietzsche, Dostoyevsky, Strindberg, todos eles receberam do Destino aquela trágica existência da qual nasceram suas obras-primas”.

À lista de Zweig agregamos Gorki, Panaït Istrati [17], Neel Doff. De seus vinte anos de miséria, Neel Doff soube fazer germinar uma piedade lúcida, nunca choramingosa, mas sempre ativa. Uma piedade que soube agir e produzir; produzir uma obra em que o amor dos homens, o amor das feras e o amor da natureza se reúnem sob o signo da poesia, da concisão mais densa, do humor e, hoje, com Campine e Dans nos bruyères, sob o signo da serenidade.

 

Notas:

[1] Octave Maus (12 de junho de 1856, Bruxelas – 26 de novembro de 1919, Bruxelas), o marido em questão, foi um importante crítico de arte belga. [2] Aurélien-Marie Lugné (27 de dezembro de 1869, Paris – 19 de junho de 1940, Villeneuve-lès-Avignon), foi um importante ator, cenógrafo e diretor teatral francês, renovador do teatro parisiense de fins do século XIX. [3] As Éditions Fasquelle foram uma editora francesa situada na 11, rue de Grenelle, em Paris. Foi fundada por Eugène Fasquelle em 1896, sucedendo as edições Charpentier & Fasquelle e dura até 1959, quando se funde às edições Grasset. [4] Francis Jourdain (2 de novembro de 1876, Paris – 31 de dezembro de 1958, Paris), foi um pintor, designer e desenhista francês. Um dos pioneiros do movimento moderno, incorporando a doutrina do funcionalismo, engajou-se com o anarquismo, o socialismo e, posteriormente, o comunismo. Foi um dos criadores da Associação Internacional Antimilitarista. [5] Octave Henri Marie Mirbeau (16 de fevereiro de 1848, Trevières – 16 de fevereiro de 1917, Paris), foi um escritor, crítico de arte e jornalista francês. Foi extremamente popular tanto na França quanto em outros países da Europa e foi extensamente reconhecido pelas vanguardas artístico-literárias. Guy de Maupassant dedicou a ele sua novela Aux champs (1882). [6] George-François-Noël Besson (25 de dezembro de 1882, Saint-Claude – 20 de junho de 1971, Paris), foi um crítico de arte, colecionador e militante comunista francês. Filho de um fabricante de cachimbos, Besson cedo conhece François Jourdain, a quem apresenta Kees van Dongen, Henri Matisse e August Renoir, entre outros. Sua coleção de arte se encontra hoje no Museu de Besançon e no Museu Albert-André, em Bagnols-sur-Cèze, e sua correspondência pertence à biblioteca municipal de Besançon. [7] Georges Duhamel (30 de junho de 1884, Paris - 13 de abril de 1966, Val-d’Oise), foi um médico, poeta e escritor francês, ganhador do prêmio Goncourt em 1918, por Civilisation. [8] Léon Werth (17 de fevereiro de 1878, Remiremont – 13 de dezembro de 1955, Paris), foi um romancista, ensaísta, crítico de arte e jornalista francês. Libertário e antimilitarista, definia-se também por suas inúmeras qualidades como ciclista, nadador, dançarino, veterano das trincheiras, poeta, observador, devorador de vida. [9] Charles Messager (22 de novembro de 1882, Paris – 25 de junho de 1971, Saint-Tropez), foi um poeta, dramaturgo e pedagogo libertário francês. Junto a Georges Duhamel, foi um dos fundados do “grupo de l’Abbaye”, uma experiência comunal a bordo do rio Marne aberta a artistas. [10] André Baillon (27 de abril de 1875, Antuérpia – 10 de abril de 1932, Saint-Germain-en-Laye), foi um escritor surrealista belga. Obteve muito sucesso em Paris e, dentre suas obras, se destacam: Histoire d’une Marie, Perce-oreille du Luxembourg e Zonzon Pépette, fille de Londres, em processo de tradução pela sobinfluencia. [11] Sidonie Gabrielle Colette (28 de janeiro de 1873, Saint-Sauveur-en-Puisaye – 3 de agosto de 1954, Paris), foi uma escritora francesa e, igualmente, atriz, mímica e jornalista. Uma das escritoras mais conhecidas de sua época, foi a segunda mulher a receber o prêmio Goncourt, em 1945 e a segunda mulher na França a receber honras funerárias nacionais. [12] Jean-Marie Carré (1 de março de 1887, Maubert-Fontaine – 3 de janeiro de 1958, Paris), foi um acadêmico francês. O texto ao qual Doff se refere muito provavelmente consiste em seu “Vida de Goethe”, publicado pela Gallimard em 1928. [13] Emil Cohn (Emil Ludwig) (25 de janeiro de 1881, Breslávia – 17 de setembro de 1948, Moscia), foi um escritor alemão naturalizado suíço, conhecido por suas biografias e estudos históricos dos “grandes homens”. Doff provavelmente se refere a seu Goethe, in zwei Teilen, publicado em 1920 em Stuttgart e no Brasil como Goethe, História de um homem, pela Editora Globo em 1949. [14] Jean-Henri Casimir Fabre (1 de dezembro de 1823, Saint-Léons du Lévézou – 11 de outubro de 1915, Sérignan-du-Comtat), foi um cientista, naturalista, entomologista, escritor e poeta francês. [15] Romain Rolland (29 de janeiro de 1866, Clamecy – 30 de dezembro de 1944, Vézelay), foi um novelista, biógrafo e musicista francês, receptor do prêmio Nobel de literatura em 1915. [16] Stefan Zweig (28 de novembro de 1881, Viena – 22 de fevereiro de 1942, Petrópolis), foi um escritor, dramaturgo, jornalista e biógrafo austríaco. Amigo de Freud, Arthur Schnitzler, Romain Rolland, Richard Strauss e Émile Verhaeren, fez parte da intelligentsia judia de Viena, até deixar seu país natal em 1934, mudando-se para o Brasil, após passagem por Londres, onde se suicida observando o avanço do nazismo na Europa. É conhecido como um dos maiores intelectuais do século XX e, no Brasil, famoso por seu livro Brasil, país do futuro. [17] Panaït Istrati (10 de agosto de 1884, Braila – 18 de abril de 1935, Bucareste), foi um escritor romeno de expressão francesa. Filho de uma lavadeira e de um contrabandista grego, é conhecido como “Gorki dos Bálcãs).

 

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