voz em off - parte 1




A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores. Por Natan Schäfer


 

Em outubro de 1967 são publicadas duas entrevistas importantes no segundo número da revista L’archibras: uma delas com Herbert Marcuse e a outra com Marguerite Duras, incontestavelmente uma das maiores vozes do fenômeno que ficou conhecido como nouveau roman. Conduzida por José Pierre e Jean Schuster, esta entrevista revela aspectos fundamentais da visão de mundo e da poética de Duras, que a aproximam do movimento surrealista, embora formalmente ela jamais tenha feito parte do grupo, demonstrando assim a atualidade e o anti-dogmatismo do movimento. Voz em off Marguerite Duras I Jean Schuster: Jamais terminaremos o inventários das razões de escrever. Deixemos a psicologia de lado e falemos em magia. O livro considerado como um feitiço, um poder sobre o mundo exterior desconhecido. Por exemplo: você já chegou a escrever na esperança de provocar um amor à primeira vista? de instaurar um tipo de comunicação privilegiada com um leitor? de esperar do desconhecido a resposta exata ao livro, a única possível, resposta que quanto mais inimaginada para você, mais desejada? Marguerite Duras: Como é possível não escrever? Isso é uma observação espontânea e superficial que nós todos fazemos. À questão “O que é escrever?” ninguém pode responder no lugar de ninguém. Cada um responde por si. Por mim, eis o que vejo: vejo que a diferença entre escritores e não escritores situa-se no último estágio do processo criador: o estágio material. Vejo que todo mundo escreve. Que aqueles que não escrevem também escrevem. Que a função escritora do homem é um fundamento natural, assim como os demais, e que é unicamente no estágio de exploração sistemática deste fundamento que situa-se a diferença entre aquele que escreve e aquele que não escreve. Igualmente vejo que cada um de nós pode tornar-se eletricista. Portanto, em cada um de nós há um eletricista não-declarado. Há então dois tipos de comportamento: o do profissional e do não-profissional. Vejo que em cada homem a conversão do real vivido num real recriado tem todos os atributos da função escritora aparente. Vejo em cada um de nós um ser-piloto, completamente devotado a nós, perseguindo a tarefa incessante de integrar à nossa pessoa-de-fundo aquilo que nomeamos como nossa experiência. Vejo que esse ser-piloto persegue uma obra criativa que em nada se distingue da outra senão pelo uso que dela é feito. Na minha opinião não trata-se da consciência que aprova ou rejeita o acontecimento vivido, apropria-se dele ou recusa-o. Trataria-se mais de uma pós-consciência cujo campo de ação seria mais vasto, de uma função específica a qual, uma vez que a consciência apropria-se do acontecimento, apreenderia-o, instalaria e integraria-o à pluralidade interior — à “comunidade interior”. Enquanto que a tomada de consciência é concomitante à vida vivida, a função escritora desencadeia-se somente mais tarde. Uma diferença temporal rigorosa é necessária à esta função historiadora para subjetivar (ou objetivar, sendo os dois termos igualmente válidos aqui) a vida vivida, modificá-la e deformá-la até fazê-la dobrar-se às exigências essenciais da história do eu. A consciência é a porta de entrada, é ali onde o acontecimento e o eu afrontam-se. É ali, na pós-consciência ou região escritora (ou narradora, ou tudo que quisermos), uma vez passada a porta, que dá-se a solda do acontecimento com o eu, na liga metálica da chave de cada um. Meu ser-piloto, meu ser-escritor conta-me minha vida e eu sou o leitor. Ele modifica aquilo que foi vivido ontem em razão daquilo que foi vivido hoje, ele classifica, fecha capítulos, abre outros, deixa-os em suspenso esperando o que será vivido amanhã, etc. Meu ser piloto faz sua obra de historiador em sentido inverso à do historiador profissional trabalhando a céu aberto. Ele tem sua objetividade exclusiva. Ele é obrigado a passar pela distorção para que o acontecimento vivido seja vivível por mim, para mim e que ele possa juntar-se à multidão interna do eu, dos acontecimentos do eu. Linfa nutritiva ou envenenada mas que escapa à qualquer análise. Vejo a pessoa escrevendo-se, portanto historiadora de si mesma. Este ser-piloto agindo nela numa região que chamo de sombra interna. Ali situam-se os arquivos do si, ali se dá a perfuração paralela do caminho por onde passa a multidão triada pela máquina do meu ser-escritor. Encontro com você, olho para você, falo com você, deixo você. E depois: ela encontrou-se com ele, ela olhou para ele, ela falou com ele, ela o deixou. E depois: o que aconteceu? E depois enfim: isso aconteceu porque é de mim que se trata. Em minha sombra interna, onde se dá o fomento do meu eu por mim, na minha região escrita, eu leio que aconteceu aquilo. Se eu não sou um profissional, pego uma caneta e uma folha de papel e opero a conversão da conversão. O que estou fazendo ao fazer isso? Estou tentando traduzir o intraduzível, tornar legível o ilegível passando pelo veículo de uma linguagem indiferenciada e igualitária. Eu me privo então da integridade da sombra interna que, em mim, balanceia minha vida vivida, contrabalanceia minha vida vivida com minha vida revivida. Desprendo-me da massa interior, faço fora aquilo que deveria fazer dentro. Mutilo-me da minha sombra interna, no melhor dos casos. Tenho a ilusão de estar colocando ordem quando na verdade estou desfalcando, de estar iluminando quando na verdade estou apagando. Ou estamos iluminando tudo e estamos loucos. Os loucos operam a conversão da vida vivida fora. A luz luminosa que penetra neles eliminou a sombra interna, porém a substitui. Sozinhos, os loucos escrevem completamente. Ou mesmo, em liberdade plena, fazemos “como se”, como se fosse possível a conversão da vida operar-se sem que seja modificado o grau de sombra interna, sem que se esgote o potencial de escritura não escrita em si. Acreditando nisso, e acreditamos necessariamente nisso, a meu ver somos menos um escritor do que qualquer outra pessoa que não entende como a coisa é possível, ou seja todo mundo numa razão aproximada de 1/100. Qualquer um é mais misterioso do que um escritor. Um crime é mais assinado do que um livro. Um amor é mais assinado do que um livro. A loucura é a própria assinatura. Todos somos bons ou maus escritores, mutilados da sombra interna e reparadores dessa mesma sombra interna. Ou até mesmo sabemos que a diferença que nos designa e distingue do não escritor é escandalosa e que a rigor só é digno de atenção aquele que não cedeu à tentação da proclamação do eu, ou até mesmo, quem somos? Se não sabemos que o reservatório de escritura é absolutamente o mesmo, em si e no outro, não somos o mais falso dos escritores? A própria natureza da sombra interna leva a saber disso: que ela é um fundamento comum. Se não sabemos disso, é porque a recusamos enquanto fundamento comum, é porque a contornamos. Contornada, a sombra interna constrói paredes em volta de si e morre no caixão do eu. Conhecemos muitos destes caixões que si mesmos são a maioria dos escritores. Falo destes que fazem os outros, os não escritores, acreditarem que há entre eles uma diferença de natureza, de via. Portanto, justamente daqueles que são os mais atacados, os mais enfermos, os mais cortados pela sombra interna.

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