walter benjamin está morto - fragmento do fragmento

Atualizado: 26 de jan.




Em 2020, a sobinfluencia edições lançou a obra de financiamento coletivo Walter Benjamin está morto, organizada por Gustavo Racy, com apresentação de Stéphane Symons e participação de Ludmyla Franca-Lipke, Michael Löwy e Marcela Campana. Composto de 18 fragmentos inéditos em português, divididos em 5 eixos temáticos, o livro procura fornecer ao público reflexões complementares para o enriquecimento do estudo da obra do filósofo. Neste post, destrinchamos um pouco melhor uma citação da obra, já conhecida pelos leitores que adquiriram o livro. Adquira a sua cópia

 

“A categoria mais elevada da História Mundial que garante a unidade dos eventos é a culpa” Walter Benjamin. “A ética aplicada à história”. In. Walter Benjamin está morto, p. 121. Neste fragmento, Benjamin se ocupa em refletir sobre o lugar da ética na história. É sabido que a filosofia da história do autor se preocupa com a possibilidade de contar “a história dos vencidos”, escovando-a a contrapelo. Isto não significa, de modo algum, tornar os vencidos em vencedores, mas antes, garantir-lhes justiça. Justiça é um conceito importante nos escritos benjaminianos da década 1920. Em Destino e Caráter, bem como Para uma Crítica da Violência como Poder, o autor destrincha suas concepções de direito e justiça, destino e caráter. O direito, para ele, lidaria com a instituição do processo e do julgamento, alicerçada na culpa, que, antes de tudo, condena a todos. A culpa, como na história do pecado original, está presente em todos nós; somos todos culpados de algo, algo a que o direito nos remete pela presença incessante do processo. O direito, que em nada se relaciona à justiça, nos condena ao julgamento, que imprime a marca da culpa por aquilo que talvez nem conheçamos. O Processo, de Franz Kafka, é o exemplo limite desta situação. É essa esfera, como este fragmento nos diz, que garante a unidade dos eventos da História Mundial, da história humana. Neste longo rol de catástrofes, a história humana é contada e construída a partir da culpa introjetada da humanidade. Culpa esta que, por nunca ser expiada, uma vez que o julgamento das ações humanas é o paradigma do processo sem fim, engendra culpa atrás de culpa


. É interessante notar que o termo culpa (Schuld), é o mesmo termo alemão utilizado para a palavra crédito, o que engendra uma relação de dívida causal. Cada momento história é um momento de culpa e de culpabilização. Cabe à humanidade, nesta perspectiva, pagar sua dívida com os juros dos juros. Com isso, a concepção racionalista da história crê alcançar a totalidade, numa série de eventos ligados por meio de um encadeamento lógico-dedutivo. Sem mencionar as implicações teológicas a partir das quais o argumento benjaminiano se pauta, este fragmento do autor representa um esforço de opor a História Mundial à Teodiceia, posto que a revolução deve, para Benjamin, resgatar um componente messiânico, a ética pura e aplicada à doutrina da liberdade, e a filosofia do direito pura aplicada à doutrina da história mundial e à doutrina da soberania. Na resolução deste problema, Benjamin parece apontar, seria possível a restituição do caráter messiânico da revolução na doutrina da anarquia.

 

Veja a live "O Legado Antifascista de Walter Benjamin", com Michael Löwy, Marcela Campana e Gustavo Racy, organizador e tradutor de "Walter Benjamin está Morto"




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