yahne le toumelin

Atualizado: 17 de jul. de 2021


Yahne Le Toumelin. 1954. Les Biches (As Gazelas). 65cmx43cm. Coleção Eve e Yann Reneleau
 

A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.

 
A partir desta semana, apresentaremos n’A Fresta um excerto dos textos selecionados. Caso você queira lê-los na íntegra, preencha suas informações no formulário a seguir e lhe enviaremos gratuitamente, a cada duas semanas, uma cópia numerada do texto completo impresso em Papel Pólen 90g: shorturl.at/hmIX7
 

N’A Fresta de hoje, André Breton (1896 — 1966) apresenta a obra de Yahne Le Toumelin (1923). Nascida em Paris, é aí que Yahne Le Toumelin estuda pintura no início dos anos 1940 na École nationale supérieure des Beaux-Arts, porém logo opta por entrar para a Académie de la Grande Chaumière, onde também estudara, dentre outros, Vicente do Rego Monteiro, Mário Cesariny e Wesley Duke Lee. Yahne Le Toumelin é apresentada por Leonora Carrington — sua “cúmplice para sempre” —, que conhecera no México, a André Breton, que entusiasma-se com suas obras, dedicando-lhe o texto que apresentamos n’A Fresta desta semana, originalmente publicado no mítico Le Surréalisme et la Peinture, e até então inédito em português. Além de seu contato com André Breton, Yahne Le Toumelin também será muito influenciada por seu convívio com o místico Gurdjieff, que conhece em 1942 e de cujo grupo fará parte, tornando-se, inclusive, uma de suas dançarinas. Posteriormente, seu contato com o budismo tibetano fará com que, em 1967, no estado indiano de Siquim, seja ordenada monja pelo 16º karmapa Rangjung Rigpe Dorje. A vivência do misticismo e o encontro com o budismo tibetano orientam, evidentemente, os resultados do saber-fazer de Yahne Le Toumelin, situado na confluência do domínio das técnicas clássicas de pintura com as volutas sem rédeas do automatismo, ou do que se convencionou denominar “expressionismo abstrato”, definição evidentemente insuficiente para categorizar as produções que compõe a trajetória de Toumelin. Como bem aponta Breton, a obra de Toumelin está diretamente associada a seu “estado interior” e, portanto, é parte integrante e integral de sua vida. Yahne Le Toumelin participou em 1967 da XIII Exposição Internacional do Surrealismo, em São Paulo, organizada por Sergio Lima e Vincent Bounoure, com a assistência de Aldo Pellegrini e Mário Cesariny, e apoios de Flávio de Carvalho, Maria Martins e Cássio M’Boy.


YAHNE LE TOUMELIN “Como tenho, diz ela sorrindo, a infelicidade de expressar algo ao pintar, até agora os diretores de galerias mostraram-se constrangidos e injuriados”. É bem verdade que estamos aí em 1957, quando em arte não se arrisca mais uma crítica a fundo e quando o público é convidado somente aos prazeres do olho, prazeres aliás totalmente relativos, pois fundados no costume à “estruturas” cujas variações a publicidade pagante e a moda atada à seu serviço impõe limites estritos. Folheiam sem parar as páginas de um álbum de tecidos que recusam-se ciosamente a qualquer uso. Pretender que o estudo comparativo destes tecidos possa oferecer um interesse de ordem histológica é, evidentemente, uma simples impostura, pela excelente razão de que o executante — não digamos o artista — perdeu de vista o posto de comando que designaria tais intercâmbios como orgânicos. Nestas condições, não há pior descaramento que reclamar para si mestre tais quais Duchamp ou Kandinsky, cujo obra esconde ou revela um brilhante interior, que num se cerca de toda uma rede de subentendidos, e noutro exige a maior margem de transposição. Se não é mais o caso de interessar-se, de maneira epidérmica, somente pelas modulações da “linguagem” pictural, no esquecimento das repostas que, como toda linguagem, antes de mais nada é feita para contribuir com certas de nossas interrogações de ordem vital, é preciso que, parafraseando o título da tão lúcida e salubre obra de Jean-François Revel, e fazendo nosso o espírito de sua crítica, nos perguntemos: Por quê pintores? E não poderia ser mais à contracorrente que Yahne Le Toumelin iça sua própria vela no coração destas mesmas interrogações. Aos exercícios caligráficos atualmente em voga, que se ludibriam na esperança de que o signo possa preexistir à coisa significada, ela opõe o uso de um vocabulário e de uma sintaxe esmerilhados nas muito particulares disciplinas que ela faz suas. É claro que nela uma empresa de aguçamento de suas próprias faculdades e poderes já adquiridos é perseguida através da aventura de cada quadro. Não poderíamos oferecer aqui mais que um rudimento dessa linguagem: PAISAGENS HABITADAS: toda importância deve ser relacionada aos fios, pelos quais captam-se as energias, de preferência sutil, dos outros (suas “elevações de alma”, preces, entusiasmos, etc). Estes que captam são pescadores em direção ao alto ou em direção ao baixo. Os fios podem ser estendidos de um ponto a outro, servir a acrobatas ou a pássaros, ou ainda ficar pendendo de sino (homens-sino), de um balão ou de um paraquedas. A passagem é dada aos seres de eletricidade “transformadores”. — Pelo fato de que os elementos tendem a organizar-se em ordem puramente emotiva, é tomada a maior liberdade diante das leis que em geral regem a composição, as perspectivas (para conjurar o caos elas fazem aqui ofício de funil, as luzes (deliberadamente “nórdicas”, incendiando portas e janelas, alimentadas por 7 ou 9 lareiras em movimento). No que concerne à origem da “via” que aqui é escavada, depende de cada um “dar um jeito” para não tropeçar nesta bela névoa luciferina, seja com a lanterna furta-fogo ou com a lanterna de tempestade [1] . PAISAGENS DESERTAS: produto (como um resíduo) de uma máquina pneumática interior destinada a obter, para além da “ausência de si”, a transparência que dá acesso aos mundos não manifestos e instaura o acaso objetivo. Por si só o tema da inundação seria suficiente para fazer vocar o maremoto que constitui um dos aspectos do Zen: “Tudo é vazio, o chicote, a corda, o homem e a vaca” [2]. Poderíamos insistir ainda mais nisso (em consideração aos que passam rápido): uma tal pintura exclui, por definição, todo elemento onírico ou obsessivo. Ela responde à necessidade de expressar certas coisas e suporta somente uma certa maneira de traduzi-las. Em razão desta necessidade e desta exigência específicas, os critérios estéticos não poderiam determinar por si só o julgamento com relação a ela. De fato, Yahne Le Toumelin se culparia caso furtasse-nos alguma das etapas de sua experiência, mesmo naquilo que ela pode ter, como toda experiência humana, de precário [3]. A mais alta gratidão que poderíamos dedicar-lhe, é reintroduzido-nos em pleno centro desta verdade essencial: o sucesso de uma obra depende do estado interior (que supõe o equilíbrio no mais alto grau de tensão em direção à sabedoria) daquele que a criou.

 

Notas:

[1] Nota do tradutor.: A lanterna furta-fogo é um tipo de lampião no qual é possível ocultar a fonte luminosa sem apagá-la; a lanterna de tempestade, por sua vez, é um lampião cuja fonte luminosa é envolvida por uma cúpula de vidro, de modo a permitir sua utilização em condições meteorológicas adversas. [2] Nota do autor: “Dressage de la vache” (“Adestramento da vaca”), in D.T Suzuki: Essais sur le Bouddhisme Zen, 2º volume, Adrien Maisonneuve, 1944. [3] N. do a.: Uma objeção (simplista) a ser prevenida: se, porventura, ela não desdenha de recorrer a tais “procedimentos” como aquele que é conhecido desde o surrealismo sob o nome de decalcomania, é por que eles têm para ela somente um valor de veículo, sendo que certas viagens justificam o avião, outras o riquixá.

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