zengakuren: a revolução estudantil japonesa

Atualizado: 2 de mar.




como um cometa incendiário e vertiginoso, ligas incandescentes de estudantes ebuliam nas ruas do país. a revolução mais explosiva da história dos movimentos estudantis é asiática, impiedosamente radicalizada e autônoma. o zengakuren permanece relativamente pouco conhecido no brasil e através da tradução da introdução do livro “Zengakuren: Japan's revolutionary students” pretendemos incitar um estopim. o imperialismo não opera onde a insurreição é a ordem que inflama. foi com pedaços de madeira, capacetes de segunda mão e toneladas insondáveis de radicalismo absoluto que a juventude japonesa organizou a revolta de sua época. zengakuren: a revolução estudantil japonesa é o texto número #04, e último, da nossa parceria com a GLAC edições, Maio Insurgente. Textos inflamáveis produzidos nos ecos revolucionários de Maio ao redor do mundo. Nesta semana, apresentamos Japão.


As ruas do Ginza, aliciante exibição do Japão para o mundo, está em ruínas. Vapor intoxicante de gás lacrimogêneo propaga-se no ar, as lojas fecharam-se e o trânsito uma vez movimentado é interrompido. O dia é 28 de Abril, 1969, dia de protesto contra as bases militares norte-americanas em Okinawa. Tóquio é agora uma zona de guerra; a polícia está vigiando todos os prédios do governo, as estações de trem do centro da cidade estão fechadas, as janelas das lojas de departamento lacradas e os funcionários de escritório foram mandados para casa no meio do dia. Incapazes de se aproximar da Diet House, a sede do governo japonês, os estudantes revolucionários de Zengakuren rumaram em direção ao Ginza em incendiária revolta e inflamam as ruas com seu protesto, engolindo a cidade ao redor. Traçam-se as linhas da batalha iluminadas pelas incessantemente brilhosas luzes de neon que povoam as placas da cidade; os exércitos posicionam-se engatilhados. De uniforme azul escuro, a tropa de choque bloqueia as intersecções; eles refugiam-se atrás de escudos de duralumínio, os sinistros capacetes de aço azul refletem as luzes que tremulam, as viseiras plásticas muito bem presas, cassetetes e pistolas de gás lacrimogêneo aguardando o sinal. Dentro das linhas inimigas, de Ginza até a estação de Tóquio, a quase um quilômetro de distância, os estudantes dominam; um incêndio queima na estrada dissipando fumaça preta e densa no ar noturno, pedaços de outdoors e chapas de ferro barricam a rua, pedaços de pavimento quebrado e cartuchos de gás lacrimogêneo gastos jazem nas sarjetas e através do caos uma multidão rebelionária de estudantes rodopia, corre e grita. Debaixo do solo os trens do metrô ainda estão em funcionamento, mas não param na Estação Ginza. Na via expressa elevada acima está o público, milhares de transeuntes espremem-se para ter uma visão melhor. Aqui de cima é mais seguro, sem pedras voadoras, sem chance de ser atingido por um cassetete policial ou de ser derrubado por um canhão de água. Aqui nenhum carro está transitando, a estrada está bloqueada por vans de emissoras de televisão que monitoram as gravações sendo feitas lá em baixo. A cena irreal dos estudantes frenéticos, com o rosto semi-coberto sob seus capacetes coloridos à mão com as bocas mascaradas por tecidos de flanela enfiadas nas alças, seus olhos selvagens brilhando através dos cabelos desgrenhados. O furgão pesado da polícia, um gigantesco rinoceronte sobre rodas, avançando, cercado por seus soldados; o gatilho das armas de gás lacrimogêneo soando, o clarão da chama de um coquetel molotov estilhaçando na estrada; o vídeo na televisão sobe e desce enquanto o operador de câmera segue a multidão, tentando captar a batalha para os espectadores que assistem em casa, na segurança e no conforto das suas salas de estar. A cena muda; reforços estudantis aliam-se, tropas corajosas carregando uma floresta de pedaços de madeira para derrubar as linhas policiais; um estudante curva-se, seu rosto retorce de dor enquanto tenta evitar um chute no estômago, seu capacete estilhaçado rolando no chão e finalmente a inevitável cena patética do estudante sendo levado para um caminhão policial à sua espera. Estas cenas são apenas as últimas de uma série contínua a serem transportadas para todos os domicílios no Japão e depois para todo o mundo. A ação retratada é dramática, produz “boa televisão” para o entretenimento dos cidadãos porém as questões que levam a ela são ocultadas e desimportantes para o telespectador médio. Algo está se passando mas não se sabe o que, os cartazes e slogans do protesto são retratados de forma ilegível e tudo permanece incompreensível. No entanto, através disso emerge o nome que simboliza a revolução estudantil no Japão para o mundo - Zengakuren. O que é Zengakuren? Quais são os seus objetivos e qual é a sua importância no Japão? Quem são os seus membros? Como começou e para onde está indo? Estas são algumas das questões não respondidas que são colocadas pela existência do movimento. Perguntas que foram feitas antes, em 1960, quando Zengakuren tornou-se relevante na cena mundial durante as lutas políticas contra o Tratado de Segurança Japão-EUA e que são abordadas novamente em 1970, quando o Tratado se renova. Em 1960, os estudantes foram os principais responsáveis pela demissão do Primeiro Ministro japonês e pelo cancelamento da visita do Presidente americano ao Japão. Mais recentemente eles conseguiram fechar quase todas as universidades no Japão em protesto contra os métodos antiquados em uso, produzindo uma greve no sistema educacional e um choque catártico para o establishment japonês. Qualquer organização que seja capaz de exercer tal potência deve ser compreendida em sua relevância e não negligenciada quando se trata de analisar a situação do Japão moderno. Um erro comum é considerar o Zengakuren como um grupo coeso com seus objetivos ditados pelo comunismo internacional, quando na verdade nada poderia ser mais incoerente que tais alegações. Zengakuren é uma imensa gama de grupos estudantis de esquerda, cada um com sua própria filosofia e características, mas todos têm algo em comum, construir a revolução no Japão. Entretanto, a disputa entre grupos rivais no interior do movimento é intensa e frequentemente violenta, às vezes arma-se uns contra os outros ainda mais do que quando direcionam-se à polícia. Embora Zengakuren já tenha sido dirigido pelo Partido Comunista Japonês (JCP), a maioria de suas seções atuais se opõem a ele. Simultaneamente, Zengakuren também não se relaciona com o Partido Socialista Japonês, este representa para os estudantes a “Antiga Esquerda japonesa”, enquanto eles representam a “Nova Esquerda”. A trajetória de construção dos movimentos revolucionários estudantis no Japão irrompe no período pós-guerra mas a história da militância estudantil de esquerda é ainda mais antiga, data do início do marxismo no Japão. A emergência de movimentos estudantis de profunda articulação está em profusão em todos os lugares do mundo e no Japão foi o Zengakuren que se demonstrou mais capaz de organizar a potência revolucionária da juventude. Corre um comentário irónico e oportuno para as classes mais altas na sociedade japonesa que na época em que houve maior afluência economica na história do país, quando o produto interno bruto japonês era o terceiro mais alto no ranking mundial, a juventude de classes altas tenha escolhido virar as costas para a forma de produção de vida próspera estabelecida tradicionalmente, que proporcionou ao seu povo a maior afluência da sua história e resolveu pôr tudo em risco em violentas batalhas contra a polícia. Este quadro se repete ao redor do mundo, porém enquanto os estudantes das nações em desenvolvimento parecem ter uma forma clara do seu inimigo, os movimentos revolucionários de nações mais “avançadas” como o Japão são mais complexos de serem compreendidos pela grande parcela populacional, soando assim como ataques “gratuitos” aos valores estabelecidos pela sociedade em que fazem parte. Um importante canal de notícias opinou que nações mais “avançadas” estariam vivendo um período de mudança turbulento - um momento de ebulição na história que impossibilita saber ao certo o que virá. Além disso, a ciência e a tecnologia criaram um novo cenário, a estrutura social tomará um largo período de tempo para adaptar-se ao novo estilo de vida. A juventude deste período é a primeira geração nativa digital; toda uma geração exposta ao absoluto impacto de viver em uma sociedade regimentada pela comunicação eletrônica desde a primeira infância, sendo eles os únicos completamente ajustados ao estilo de vida que esta influência promove. O mundo tem se transformado em um verdadeiro formigueiro eletrônico, rumando para uma consciência universal através das redes e é a atual geração de jovens que instintivamente compreende suas implicações e sente que novos meios de organizar e ordenar as relações humanas não são apenas necessários como inevitáveis. A natural rebeldia dos jovens agora encontra suporte em sentimentos e ações de seu mesmo grupo, não apenas em seu país mas na juventude de todo o mundo. A educação internacionalista expandiu as fronteiras dos jovens que ebuliam contra a tradição vivida por seus pais e demandam seu direito de serem ouvidos e terem suas demandas levadas em consideração, porém, as gerações mais ultrapassadas permanecem com suas garras cravadas nas estruturas de poder, sem intenção alguma de abrir mão delas. Dadas as condições desta disputa, era inevitável que chegaria a hora da juventude se organizar politicamente e confrontar a autoridade. Se as origens dos movimentos de militância estudantil nos países mais “desenvolvidos” são similares devido aos fatores elencados aqui, os focos de suas lutas gira invariavelmente em torno de questões específicas de cada país e cultura. O movimento estudantil da América do Norte, mais precisamente o estado-unidense, foi um imenso catalizador pelo fim da guerra contra o Vietnam, enquanto na França os protestos dos estudantes nas universidades contra os arcaicos sistemas educacionais coincidiu com as revoltas populares contra o regime tradicionalista de Charles de Gaulle enquanto na Irlanda do Norte os estudantes lideram as lutas pelos direitos civis católicos. Também no Japão as condições que ambientaram o movimento Zengakuren são peculiares ao país; a desilusão de perder a guerra, a potência revolucionária que irrompeu da derrota dos militaristas e pronta para desembocar em novos objetivos humanitários, a humilhante ocupação de tropas estrangeiras até os dias atuais, a aversão japonesa a guerra e as armas nucleares; todos estes fatores e muitos outros moldaram a construção da juventude revolucionária do Japão. Para compreender o movimento estudantil japonês nós examinaremos as origens do sistema educacional atual; observaremos a atual composição política e traçar a história de Zengakuren desde o seu início, os dias sombrios do pós-guerra. O movimento estudantil está ligado, inextricavelmente, a dois distintos campos da luta estudantil - a sua mobilização e organização coletiva (polities) e a educação. O primeiro ponto manifesta-se em torno do movimento global contra o Tratado de Segurança entre o Japão e os Estados Unidos; e ainda que os estudantes estivessem preparados para somar forças com outras organizações anti-Tratado de Segurança, tendiam a ter uma visão mais combativa que os outros grupos. Eles adotaram ações diretas, como a invasão de bases americanas, impedimento de novas construções militares e tentativas de boicote a ações políticas japonesas. Teoricamente, o Japão é um país multipartidário, mas o governo encontra-se categoricamente sob controle dos poderosos democratas liberais que o tornam, na prática, um Estado de partido único, com os partidos de esquerda em oposição permanente. Os estudantes recorrem a atividades extremas porque não possuem uma base que lhes forneça real poder de oposição política e ao realizar tais ações, podem ao menos garantir a luta por seus ideais. Como é sabido, a violência gerada pelas lutas estudantis sempre gerou mais atenção do que os métodos pacíficos mas, ao mesmo tempo, as razões que levaram às ações diretas são geralmente ignoradas. O fracasso da esquerda institucional constituir influência na trama política e disputa de poder contribuiu para uma desconfiança geral que paira sobre os estudantes, sobre os métodos de ação e capacidade de executá-los e também pela veracidade de seus ideais. Desde a sua primeira aparição, a esquerda japonesa discute sobre organizar uma revolução em uma ou duas etapas e isso se reflete nas condições básicas de categorização existentes entre as diversas correntes Zengakuren. A única coisa que todo estudante Zengakuren concorda é que o Japão precisa de uma revolução, mas para além disso, os grupos não convergem em mais nada. O sistema educacional japonês é uma colcha de retalhos de políticas extraídas da França, Alemanha e América do Norte e, para ser eficiente no contexto japonês moderno, precisa ser reformulada integralmente. As universidades estão superlotadas, revelando fissuras em seu sistema que eram imprevistas pelos idealizadores, denunciando dramaticamente suas inadequações. A ocupação das universidades pelas forças armadas norte- americanas no pós-guerra incidiu um movimento primordial nos estudantes japoneses de participação na política universitária e ter governo perante a academia. Porém, o poder efetivo real ainda é de domínio do Ministério da Educação e através de táticas como greves estudantis e piquetes nos prédios das universidades os estudantes demonstraram seu posicionamento ao confrontar a tirânica polarização governamental. O uso do termo Zengakuren foi apropriado por uma vasta gama de grupos estudantis e acabou se tornando muito abrangente. Seu posicionamento inicial, enquanto pertencia ao Partido Comunista do Japão até se subdividir em grupos com características próprias, não era necessariamente militante. Portanto, sua história é definida através da narrativa desenvolvimento das correntes construídas após essa subdivisão e suas relações de rivalidade interna quanto à densidade de seus membros, tamanho do grupo, posicionamentos ideológicos, alinhamentos e relevância na disputa política. Concomitantemente, o estudante revolucionário tornou-se uma figura de caracterização cultural do período do pós-guerra. As revoltas de rua vivificaram uma nova imagem para o estudante do período: um fulminante e certeiro estudante combativo protegido por um capacete e com seu bastão em punho. Teóricos elaboraram novas palavras para nomeá- los no vocabulário japonês, quadrinhos, música e programas de televisão atentaram-se àquela imagem e o mercado a capitalizou. Para apresentar a realidade dos estudantes revolucionários japoneses, decidiu-se apresentar neste livro um retrato modesto de um de seus mais relevantes grupos. Para se ter uma ideia da vida de um estudante revolucionário japonês, decidimos apresentar um retrato abrangente de uma de suas maiores facções. Escolhemos os marxistas revolucionários - Kakumaru - e ao descrever esse grupo, examina-se a cultura do movimento estudantil profundamente. A Kakumaru é, talvez, a mais independente das correntes do Zengakuren, o grupo preocupa-se com a dialética mais do que as outras vertentes e reivindica a violência em seus combates. Finalmente, nasce ali um horizonte revolucionário. O verão de 1970 será palco de novas atividades insurrecionais contra o Tratado de Segurança entre Japão-EUA. Claramente o verão de 1970 renovou a luta contra o Tratado de Segurança entre Japão e Estados Unidos, que se mantém ativo, o que não dissipará o movimento revolucionário estudantil. Podemos apenas imaginar como seria o futuro caso as demandas da revolta estudantil tivesse se materializado. Foram dissipadas também as ideias de como fazer com que o movimento triunfasse bem como como combatê-lo. Esse pequeno livro busca elucidar alguns momentos da história de um dos mais complexos e intensos movimentos revolucionários e apresentar para o leitor uma descrição do mais ativo e potente movimento estudantil do mundo inteiro. Fazemos isso para auxiliar no esclarecimento de confusões e más interpretações à respeito dos Zengakuren e para trazer à tona o que se passa no Japão atualmente. Tradução de Fabiana Gibim e Alex Peguinelli.


Maio Insurgente * Leia também o outro texto do programa, publicado pela GLAC Edições, “Uma curta história do Zengakuren”, uma fala pública de uma das vertentes do grupo, acompanhando o processo histórico das manifestações irrompidas pelo movimento, apresentando as contradições e conflitos entre o grupo Kakumaru e outras vertentes, processo de formação do grupo, além de análises de ações diretas e boicotes realizados pelo Zengakuren.